September 06, 2019

Giro no mercado nesta sexta feira

Na tarde de 6 de setembro de 2018, exatamente há um ano, o então candidato Jair Bolsonaro era carregado nos ombros por uma multidão em Juiz de Fora, Minas Gerais. Misturado entre centenas de pessoas, Adélio Bispo de Oliveira se juntou aos apoiadores do ex-militar, de quem se aproximou e esfaqueou na altura da barriga. A ferida perfurou intestino grosso e delgado, causando a Bolsonaro a perda de dois litros de sangue. Ele teve que passar por duas cirurgias de emergência.
 
O episódio encerrou sua participação na campanha – mas chancelou, para muitos, sua vitória na eleição presidencial. Um ano se foi, mas o episódio ainda tem reflexos: o clima de toxicidade política continua em alta, assim como o mistério quanto a quem planejou o atentado. Neste domingo, Bolsonaro se interna para submeter-se a mais uma cirurgia para corrigir problemas em consequência do incidente.
 
Hoje, as bolsas na Europa e os futuros dos índices acionários americanos avançam à espera dos dados de emprego de agosto nos Estados Unidos e da fala do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. A alta nos juros dos Treasuries de ontem, que para alguns vencimentos foi recorde, perde força, reflexo da cautela quanto aos dois eventos. Ajuda no sentimento a decisão do Banco Central do Povo da China de hoje de reduzir o montante de dinheiro que os bancos comerciais precisam manter como reservas, na forma de depósitos compulsórios, para injetar liquidez em uma economia em desaceleração.
 
Os futuros das bolsas chinesas subiram com a notícia, enquanto o ouro recuou. Geralmente, os metais vistos como porto seguro sofrem com uma ação desse tipo, enquanto os metais básicos como o cobre – um indicador de atividade econômica futura - sobem.
 
Vamos para os fatos do dia: os dados de empregos privados não-agrícolas nos EUA, o payroll, é o mais completo indicador do mercado de trabalho americano e é amplamente usado para inferir como o Fed agirá na sua decisão de juros, programada para 18 de setembro. Os números de hoje podem vir inflados pela contratação de funcionários para o Censo de 2020 nos EUA; excluindo isso, as contratações podem arrefecer. O consenso espera aumento no payroll não-agrícola de 159 mil posições de trabalho em agosto, abaixo do verificado em julho.
 
A taxa de desemprego nos EUA deve ficar perto do menor nível em quase meio século, leitura de 3,7%, e os ganhos salariais anuais devem arrefecer para 3% - o menor avanço em um ano. Qualquer resultado longe dessas projeções deve trazer volatilidade ao mercado – impactando, com certeza, tanto o Ibovespa quanto o câmbio e os juros futuros.
 
O segundo fato do dia é o discurso que Powell dará em Zurich no começo da tarde. Para analistas, ele deve explicar sua leitura do cenário atual, em meio às profundas divergências entre vários dos diretores do Fed sobre como agir na decisão do dia 18 deste mês. Ao longo da última semana, vários dos diretores do colegiado encarregado de decidir a taxa Fed Funds, conhecido como FOMC, têm indicado que a manteriam inalterada, enquanto outros defendem um relaxamento.
 
Os motivos são divergentes, o que contribuiu para a forte volatilidade da última semana. Há chances, no entanto, de que o mercado se decepcione e Powell não fale nada proveitoso. Cuidado com os reflexos desses eventos aqui: ontem, a dinâmica de fechamento na B3 foi pior do que se esperava - o câmbio não conseguiu romper o suporte dos R$4,10 por dólar e o Ibovespa perdeu ímpeto na última hora dos negócios.

No Brasil, a divulgação da inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, pode influenciar mais apostas em cortes da taxa básica de juros Selic, também, como no Fed, em 18 de setembro, que tem sido reavivadas por conta do melhor humor no exterior e com o entendimento de que a capacidade de repasse do câmbio para a inflação parece limitada. Também valida um corte o fato de que a dívida corporativa em dólares parece se situar em níveis bastante confortáveis comparados com ciclos anteriores de alta no dólar.
 
É uma nova ordem nesse aspecto. Por aqui, a FGV divulgou dados de inflação medidos pelo IGP-DI de agosto, levemente acima do consenso. No exterior, a Alemanha divulgou de novo queda na produção industrial mensal de julho, enquanto o consenso aguardava por uma leve expansão. E, na Zona do Euro, o PIB do segundo trimestre avançou 0,2%, em linha com as projeções.
Fonte: TC Mover