Nos últimos dias temos visto um movimento atípico nos mercados ao redor do mundo todo: rali dos yields (retornos) de títulos soberanos em meio a um contexto de taxas de juros de curto prazo (ainda) zeradas, preços de commodities caindo aos pedaços e ativos de risco sofrendo reveses significativos.

Poxa, mas o que mudou?

os juros continuam zerados
o preço do petróleo continua abaixo de US$ 60
a Grécia continua sem acordo com os seus credores
os Bancos Centrais continuam sem resolver a situação de alavancagem extrema de seus balanços

Simetrias à parte, é justamente esse o ponto.


 O de cima sobe, ou o debaixo desce?

Os riscos dos mercados seguem todos ali, ou, pior, se intensificam com o passar do tempo.

Mas os preços dos ativos de riscos não estão no mesmo lugar, definitivamente:

 

 

Se os riscos prevalecem, e os lucros corporativos e as perspectivas de recuperação econômica continuam frágeis, o que poderia explicar esse enorme descolamento entre preços e fundamentos?

Para pensar: o que pode explicar o descolamento pode sustentar esse descolamento? Por quanto tempo?

Os economistas são unânimes em dizer: se a realidade não se encaixa nos modelos, a culpa é da realidade, claro. Tenho a minha versão: se o preço das ações não combina com o fundamento econômico, é o fundamento que está errado, lógico.


 O diagnóstico

Paciente: Mercados de capitais e ativos de risco.


Miopia e Distúrbio obsessivo compulsivo.

Paciente deixou de reagir aos dados econômicos, viciado em seu antídoto. Obcecado por estímulo, simplesmente deixou de reagir aos dados econômicos.

Agravante: colchão de liquidez gerado pela injeção seguida de estímulos na veia camufla organismos de defesa tradicionais, como ferramentas de VaR (Value at Risk), alimentando  a tomada de mais riscos. 


Retrato do sistema imunológico (níveis de colesterol no sangue):

 

 

E as tesouras apontam para...

Em busca de um corte de orçamento entre R$ 70 bilhões e R$ 80 bilhões, o ministro Joaquim Levy agora volta a suas tesouras para... a Petrobras.

Segundo matéria da Bloomberg, Levy visa uma compensação de até R$ 20 bilhões da estatal, de acordo com a estimativa inicial do ministério, pela diferença entre o valor do barril de petróleo usado na cessão onerosa de 2010 e o preço do combustível quando os campos do pré-sal foram declarados comerciais.

Para quem não lembra, foi quando o governo aportou o oceano Atlântico na empresa, ao custo (para o investidor) de R$ 120 bilhões. Dinheiro este que, temos visto resultado após resultado, a companhia queimou nesse intervalo.

Temos acompanhado, também (vide M5M de ontem), que a situação das contas da estatal é extremamente preocupante, com a maior dívida do mundo, crescente com as recorrentes queimas de caixa, e a alavancagem em níveis muito superiores aos limites de seu Plano de Negócios.

Pelo jeito, em sua obsessão para fechar as contas do governo este ano, Levy escolheu momento oportuno para cobrar a Petro... para o governo, é claro.

E para a Petro?

Bom, em um mundo de pedaladas e manobras fiscais, ele até pode cobrar esse dinheiro da estatal. Mas, se pegar, já sabe logo mais vai ter de devolver. Muito provavelmente, sob gritos de socorro.

Fonte: advfn Brasil


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