10 anos de recessão



Gostaria de chamar sua atenção para a crescente probabilidade de materialização daquilo que os economistas chamam de estagnação secular.

A questão é muito mais relevante do que, por exemplo, qualquer discussão sobre o ajuste fiscal brasileiro ou o patamar a ser atingido pela taxa Selic.

Ainda assim, tem sido negligenciada por economistas locais e imprensa especializada.

Deixe-me falar um pouco a respeito.

O termo “secular stagnation” foi cunhado por Alvin Hansen, então presidente da American Economic Association, em 1938, ainda sob as mazelas da crise de 1929.

Sua visão era de que a Grande Depressão representaria o início de uma nova era, associada a desemprego alto e duradouro e estagnação da economia.  

Haveria duas variáveis explicativas principais para a hipótese de estagnação secular: i) redução da taxa de natalidade; e ii) excesso de oferta de poupança sobre os investimentos, o que derrubaria a taxa real de juro de equilíbrio potencial para baixo de zero, engendrando enfraquecimento da demanda agregada - isso porque, a princípio, as taxas de juro efetivamente praticadas não podem ser negativas.

Pouco tempo depois, a eclosão da Segunda Guerra Mundial entregou evidências para impedir que a hipótese fosse estendida para período de tempo mais dilatado. Diante da necessidade de ampliar o orçamento militar, os gastos públicos aumentaram fortemente, preenchendo qualquer eventual espaço deixado pela fraqueza de demanda agregada.

Em paralelo, a geração do pós-guerra experimentou mudança dramática na  dinâmica populacional dos EUA, no clássico “baby boom”, apagando em termos práticos o problema de excesso de poupança ligado ao envelhecimento da população.

Recentemente, a ideia de estagnação secular foi resgatada por Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA. Segundo Summers, a situação atual da economia norte-americana e dos países industrializados em geral é tal que impossibilita a coexistência entre crescimento econômico saudável e estabilidade financeira.

De novo, o cenário decorreria de um excesso de poupança sobre o investimento, levando a taxa natural de juro ao negativo. E como haveria problemas estruturais em manter o juro abaixo de zero, os desequilíbrios estariam semeados.

A conclusão é dura: os países industrializados têm de escolher entre bolhas de ativos e baixo crescimento econômico.

Definitivamente, não é um quadro positivo.

Veja, por exemplo, o que acontece com a economia norte-americana. Após o crescimento pífio no primeiro trimestre, de apenas 0,2%, as estimativas de consenso apontavam inicialmente para um incremento do PIB da ordem de 3% entre abril e junho.

Agora, porém, as projeções já começam  a ser revisadas para baixo fortemente.

Ainda mais emblemáticas, as estimativas do modelo proposto pelo Fed de Atlanta, que vêm se mostrando bastante assertivas, sugerem outra performance bastante fraca no segundo trimestre.

A dinâmica recente sugere algo perverso: talvez o baixo ritmo de expansão da economia dos países desenvolvidos tenha vindo pra ficar.

Mas o que faremos nesse quadro de estagnação se os juros já estão zerados? Qual a capacidade de resposta dos formuladores de política econômica? Lançaremos um novo QE (quantitative easing ou afrouxamento quantitativo), sabendo que os anteriores não foram suficientes para estimular a economia? Faremos isso indefinidamente, jogando dinheiro no sistema inflando bolhas de ativos por todo o mundo?

Há três gráficos abaixo. O primeiro descreve a evolução das estimativas de consenso para o segundo trimestre de 2015.  O segundo mostra a diferença das estimativas de consenso para o prognóstico do Fed de Atlanta. E o terceiro ilustra a grande aderência do modelo do Fed de Atlanta.

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