Comentário Semanal


Geração Futuro e Brasil PluralComentário Semanal
12.1.2015

No cenário internacional, a ata da reunião do FOMC de dezembro não trouxe muitas informações adicionais em relação ao comunicado da decisão e à entrevista coletiva de imprensa da presidente do Fed após o encontro. Já os dados do mercado de trabalho americano em dezembro foram mistos, com a criação de empregos mais forte que a esperada e queda na taxa de desemprego, mas fraqueza na evolução dos salários, corroborando a perspectiva de que o banco central americano deve seguir paciente antes de elevar a taxa de juros. Na zona do euro, a prévia da inflação anual de dezembro veio negativa, em -0,2% – deflação e atividade fraca corroboram a necessidade de estímulos adicionais do BCE.

No Brasil, o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tomou posse na segunda-feira. O discurso inaugural não trouxe nenhum anúncio de política, concentrando-se em falas sobre a necessidade de equilíbrio fiscal e transparência. Os principais nomes da sua equipe foram conhecidos e bem recepcionados pelo mercado. Tarcisio Godoy é o novo secretário executivo; Jorge Rachid é o secretário da receita federal; Afonso Arinos Neto é o novo secretário de política econômica; e Marcelo Saintive assume como secretário do Tesouro. Alguns deles trabalharam com Levy em sua passagem prévia no Ministério da Fazenda (Jorge Rachid) e no governo do Rio de Janeiro (Marcelo Saintive). Como Levy, Godoy foi diretor do Bradesco (da parte de seguros). Afonso Arinos Neto é economista acadêmico (ele leciona na EPGE-FGV, no Rio), com PhD pela Universidade de Chicago.

No front inflacionário, o IPCA de dezembro avançou 0,78% em relação a novembro, em linha com a nossa estimativa (0,79%) e o consenso do mercado, encerrando 2014 com alta acumulada de 6,41%, vindo de 6,56% em novembro - bem acima da meta, mas ainda dentro do intervalo de tolerância (4,5% +-2 pp). Como esperado, a aceleração em relação a novembro (0,51%) foi consequência principalmente de preços mais altos de transporte – puxado por passagens aéreas, que subiram 42,5% em relação ao mês anterior -, mas também pelo aumento em 1,1% em preços de alimentos, compatível com seu comportamento sazonal. A média das medidas de núcleo (dupla ponderação, exclusão e médias aparadas com suavização) foi de 0,64% em relação ao mês anterior e caiu de 6,5% em doze meses, em novembro, para 6,4%. A inflação de serviços foi de 1,20% e está rodando em 8,3% em doze meses (mesmo patamar de novembro). O índice de difusão foi de 68%, vindo de 69% em dezembro de 2013 e 61% no mês anterior. O IPCA de dezembro mostra uma melhora marginal na dinâmica inflacionária, com medidas de núcleo e índice de difusão ainda altos, porém mais baixos, enquanto a atividade econômica permanece fraca. Nossa estimativa preliminar para o IPCA de janeiro é de 1,2% (7,1% no acumulado em doze meses) – a aceleração vai ser puxada por preços administrados (transporte público e eletricidade, principalmente), e não contempla uma eventual alta da CIDE. Em 2015, esperamos um IPCA de 7,0%. Conhecemos também o IGP-DI de dezembro, que veio em 0,38% contra novembro, perto da nossa estimativa (0,40%) e abaixo das expectativas de mercado (0,45%), encerrando 2014 em 3,78%, o nível mais baixo desde 2009.

A balança comercial registrou superávit de US$ 0,3 bilhão em dezembro, um pouco acima da nossa projeção (US$ 0,1 bi) e do consenso de mercado (US$ 0,2 bi), acumulando um déficit de US$ 3,9 bilhões em 2014 - o primeiro déficit anual desde 2000 e o maior desde 1998. Para 2015, nossos modelos sugerem que a balança comercial vai mostrar uma ligeira melhora, com um superávit de US$ 4,4 bilhões, impulsionado principalmente pelas importações em queda, reflexo da demanda doméstica moderada bem como do Real mais fraco, e as exportações estagnadas, com a queda dos preços das commodities compensando os ganhos provenientes do ajuste cambial. A queda no preço do petróleo também vai contribuir para isso, reduzindo o déficit comercial em produtos petrolíferos. Ainda assim, a conta corrente deve permanecer pressionada com um déficit de 3,7% do PIB e menos influxos de capital para financiá-lo, um cenário desafiador para o Real. Já o fluxo cambial foi negativo em US$14,1 bi em dezembro, o pior déficit desde setembro de 1998 e, se consideramos só o mês de dezembro, o maior da série histórica. A saída líquida foi de US$9,3 bi em 2014, ainda inferior ao déficit de US$12,3 bi em 2013.

A produção industrial de novembro desapontou fortemente as expectativas ao cair 0,7% em relação a outubro, bem abaixo de nossa estimativa (+0,8% ao mês) e das expectativas do mercado e após ter ficado praticamente estável em outubro (0,1%). Houve contração em 11 dos 24 setores, com destaque para alimentos, que registraram uma queda de 3,4% em relação ao mês anterior (-8,7% em relação ao mesmo mês de 2013) e TI/eletrônicos (-4,0% ao mês; -14,1% contra novembro de 2013). A produção industrial caiu 5,8% contra a de novembro de 2013, uma queda significantemente maior do que a observada em setembro (-3,3% contra o ano anterior) e a impressão mais baixa em 5 meses, fazendo a variação do trimestre regredir a -3,7% em relação ao mesmo trimestre de 2013, vindo de -3,6% em outubro. Os dados para o setor industrial em novembro desapontaram pelo terceiro mês consecutivo, e considerando a baixa confiança, estoques e utilização da capacidade instalada em dezembro, vemos riscos negativos para o PIB do último trimestre de 2014.

Vendas e produção de veículos em dezembro também foram conhecidas. De acordo com o nosso ajuste sazonal, as vendas parecem ter perdido fôlego, com uma queda de 4,2% após quatro meses consecutivos de altas. De acordo com a Anfavea, a produção de veículos alcançou 370 mil unidades em dezembro, uma queda de 11,8% contra o ano anterior, vindo de uma queda de 9,7% em novembro, o que traz ainda mais preocupação após a decepção com a produção industrial de novembro.

Durante a semana, o governo anunciou que irá reduzir as despesas discricionárias mensais em 1/3. Lembramos que, como o orçamento de 2015 ainda não foi aprovado, o governo pode gastar um limite mensal de 1/12 do orçamento anual previsto em lei. Nós acreditamos que esta medida é positiva, mas o governo ainda precisa anunciar os aumentos de impostos e cortes de gastos que fará de modo a alcançar a meta de superávit primário.

Nos mercados, o dólar fechou a semana cotado a R$2,63, o que representou apreciação de 2,3% da moeda brasileira ante à semana anterior. A curva de juros se deslocou para baixo: o contrato para janeiro de 2016 teve queda de 0,22 p.p. para 12,69% e o de janeiro de 2021 caiu 0,20 p.p. para 12,05%. O Ibovespa fechou a sexta-feira com 48,840 pontos, um ganho de 0,7% em relação à semana anterior, reduzindo a queda acumulada no ano para 2,3%.

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