Questão de lógica


 Questão de lógica
A última esperança de uma guinada ortodoxa, uma espécie de Princesa Lea do Star Wars, Joaquim Levy tem garantido otimismo para os mercados. Bolsa para cima, com destaque para estatais e outros nomes com maior perfil de risco, dólar para baixo e juros longos fechando.
A notícia mais recente é de que a nomeação dos ministros será acompanhada de importante ajuste fiscal, com direito a recriação da CIDE e controle dos gastos com abano salarial, seguro-desemprego e pensão por morte.
Boa novidade, sem dúvida.
A questão, porém, não é simplesmente se teremos ajuste fiscal, mas, sim, quanto será sua intensidade e extensão temporal. Teremos - para evitar uma palavra menos polida - firmeza no propósito para manter os cortes num cenário de fechamento crescente de postos de trabalho e maior instabilidade social?
Veja comigo, e com o auxílio da lógica: o ministro da Fazenda mais mal sucedido é também o mais longevo da história brasileira. Isso já seria curioso.
Agora, pergunto: o competente Joaquim Levy vai durar quanto tempo na pasta?

 Memória prejudicada

Tenho um monte de qualidades. Acho que chegam a duas. Talvez três, a depender do rigor da régua. Entre essa enorme gama de atributos, infelizmente não consta a boa memória. 
Sou capaz de lembrar, porém: Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú, fora defenestrada durante a campanha eleitoral; Armínio Fraga era contra o salário mínimo e desfavorável ao “desenvolvimento com inclusão social”.
Apenas 30 dias depois de tudo isso, temos a nomeação de um diretor do maior rival do Itaú e ex-subordinado de Armínio Fraga para o comando da Economia (!). 
Repito: Joaquim Levy senta-se mais à direita do que Armínio Fraga. O combo Princeton/Banco Mundial/George Soros está à esquerda de Chicago/FMI. 
O mercado tem comemorado o estelionato. Prefere a mentira e a falta de coerência à continuidade da nova matriz econômica. Se Levy ainda não é a garantia de que sua preferência pela ortodoxia será transformada em prática diante de tantos desenvolvimentistas, ao menos impede o fim da História, nos termos do Fukuyama. Ao menos, há alguém no Governo para fazer a antítese neoliberal à tese heterodoxa.
Qual será a síntese?
Infelizmente, não sei.
A julgar pela reação dos ativos financeiros, sem nem mesmo assumir, Joaquim Levy já teria ganho a disputa. A guinada ortodoxa foi estabelecida e prontamente recuperamos as contas públicas, a confiança dos agentes econômicos e o crescimento.
Não posso compactuar com isso. Ao rasgar de forma explícita seu discurso de campanha, Dilma Rousseff emite um sinal muito claro de falta de compromisso com seu eleitor. É esse tipo de governo que uma sociedade deseja, desonesto intelectualmente?


 Elogio inesperado

Faço uma breve pausa no raciocínio, que obviamente desembocará num corolário sobre alocação de recursos financeiros. Digressão merecida - e, olha, surpreendente, eu diria.
Devo elogiar a coerência do manifesto “Em defesa do programa vitorioso nas urnas”. Do ponto de vista dos argumentos econômicos, eu discordo das palavras do Belluzzo, claro. Talvez fosse mais fácil concordar com o Stédile.
Mas fico pensando: o sujeito vai nos mais variados programas de TV defender o suposto “desenvolvimento econômico com inclusão social” - seja lá o que isso queira dizer:
“Esta administração preservou o emprego, enquanto as políticas neoliberais da oposição, se implementadas, jogar-nos-iam numa espiral recessiva.”
A pessoa acreditou nisso, sabe? Mais até: foi a público defender o argumento, expondo a si mesmo.
Semanas depois, ela vê a presidente reeleita adotando rigorosamente as mesmas medidas que, supostamente, seriam implementadas pela criticada oposição.
Acusa-os daquilo que você faz.
Eu me sentiria traído e envergonhado. Mas, cada um, cada um...
 Voltando ao planeta Terra
Volto ao planeta Terra, mais especificamente à Pindorama e seus mercados.
Alerto para certa euforia desapegada da realidade. Já há quem projete retração do PIB em 2015 (estou entre eles), a inflação continua flertando com o teto da meta, estamos muito dependentes de capitais de curto prazo para fechar nosso balanço de pagamentos e o déficit nominal bate 5% do PIB. Rara combinação...
É claro que haverá compromissos com redução de gastos. Haveria como ser diferente?
A pergunta adequada não é se haverá ou não algum ajuste fiscal. O questionamento apropriado é se ele será suficiente.
Mudar critérios para pensão por morte, gastos com seguro-desemprego e abono salarial, além de politicamente custoso, pode representar uma economia pequena, inferior à necessidade. 
Numa premissa já bastante otimista, suponha uma queda de 50% em seguro-desemprego e abono salarial. Isso equivaleria a uma economia de 0,45 ponto do PIB. Cerca de meio ponto adicional pode vir da mudança nos critérios para pensões.
É, certamente, um avanço não-desprezível. Mas ainda é pouco para quem precisa de 2,5 pontos para estabilizar dívida bruta e líquida.
 O buraco é mais embaixo
Ao que parece, subestima-se o tamanho do problema à frente. Ajustes fiscais vigorosos não são indolores, em especial se combinados a juros mais elevados e a um cenário externo impositor de termos de troca menos favoráveis. 
Dada a orientação desenvolvimentista enraizada no núcleo duro do Governo, receio que não haja a requerida tolerância a dor. 
Como continuar firme no propósito com fechamento de postos de trabalho - os dados de outubro do Caged já são alerta importante -, inflação alta, dólar para cima e sucessivos escândalos de corrupção, sendo que toda a base aliada e os movimentos sociais pressionam por medidas “progressistas”?
Em paralelo, há mudanças exigidas para a retomada do crescimento econômico, em grande medida ligadas à produtividade dos fatores, que transcendem o escopo estrito do ministro da Fazenda. 
Primeiramente, para a própria sustentabilidade fiscal, há medidas que dependem da aprovação do Congresso - e a base aliada talvez tenha acreditado que ajuste fiscal é coisa da malvada oposição.
Ademais, um dos grandes vilões da produtividade brasileira nos últimos anos é o capitalismo de compadres, a série de subsídios discricionários concedidos a determinados setores e empresários (e não a outros) sem o devido escrutínio e transparência.
 Desmame
Depois de conceder um incentivo, é muito difícil retirá-lo. Essa tentativa faria aquele setor/aquela empresa insurgir politicamente pela continuidade do benefício. Em contrapartida, não haverá levante da sociedade pela retirada do subsídio. Os malefícios são indiretos e diluídos, enquanto os benefícios são diretos e específicos. Cria-se uma assimetria desfavorável entre protegidos e desprotegidos cujo desdobramento típico é a eternização do benefício.
Mantendo-se essa política discricionária de campeões nacionais, os incentivos ficam invertidos. Em vez de perseguir mais eficiência e inovação para enfrentar a competição, passa a ser mais vantajoso viajar à Brasília pedir um subsídio igual ao recebido pelo vizinho. Subverte-se a própria essência do capitalismo ao ferir os incentivos pela competição, inovação e eficiência. Não há como recuperar o crescimento econômico assim.
Joaquim Levy, Guido Mantega, Armínio Fraga ou Dilma Rousseff, qualquer que seja o ministro da Fazenda, enfrentará problemas políticos a resolver.


 Um trio é diferente de uma dupla

De antemão, não há como comprar a ideia de que o trio Joaquim Levy, Alexandre Tombini e Nelson Barbosa terá o mesmo sucesso de Antônio Palocci e Henrique Meirelles.
Por uma razão muito simples: as circunstâncias, além da obviedade das características pessoais (sim, ainda somos seres humanos), são diferentes.
Primeiramente, porque na versão original toda a equipe econômica tinha orientação liberal. Meirelles, Levy, Marcos Lisboa - todos eles gozavam de orientação neoclássica. Agora, Levy é uma exceção, Chicago Boy em plena Unicamp.
Ademais, a herança é muito mais problemática agora. Os graus de liberdade são menores, sobretudo na questão fiscal - nunca tivemos déficit primário até setembro - e não temos mais o céu de brigadeiro externo - houve notável deterioração dos termos de troca nos últimos meses, com destaque para o minério de ferro, e o banco central americano prepara-se para subir sua taxa de juro. 
Em reforço, contrariamente ao primeiro Governo Lula, dificilmente teremos a mesma estabilidade da taxa de câmbio e há grande dificuldade com a oferta de mão-de-obra - se antes o crescimento era facilitado pelo grande exército de reserva, agora ele depende de ganhos de produtividade.
Por fim, o risco de perder apoio político e social pode ser o estopim de uma grave crise contratada para 2015, pois ninguém votou em Dilma Rousseff esperando mãos de tesoura no comando da Economia.
Sem falar nos “unknown unknows” de Donald Rumsfeld e/ou nos cisnes negros de Nassim Taleb.
Se o governo emite sinais de indecência à sociedade, ela o interpreta como.... indecente. Se Dilma Rousseff enganou seus próprios eleitores, o que poderá fazer com os mercados e o restante da população? 

.