Pessimismo contamina presidentes no país


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Régis Filho
Márcio Utsch, da Alpargatas, participou do 14º Fórum de Presidentes da ABRH, onde falou sobre a apreensão em relação ao cenário político e econômico
O ambiente macroeconômico brasileiro nos próximos 12 meses vai piorar. Essa é a opinião de mais de 70% dos participantes de um grupo que reuniu 130 dirigentes das maiores empresas do país. Eles participaram na semana passada da 14ª edição do Fórum de Presidentes, organizada pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), em São Paulo.
O desânimo e o pessimismo em relação aos rumos da economia e da política no país ficaram mais evidentes neste ano em comparação a um levantamento semelhante realizado no mesmo evento em 2013. "A desconfiança aumentou", diz Leyla Nascimento, presidente da ABRH.
Márcio Utsch, presidente da Alpargatas, acredita que o Brasil passa por um período complexo que requer ajustes para o controle da inflação e que a economia precisa voltar a crescer. A pesquisa realizada no fórum mostra o ceticismo dos dirigentes em relação ao desempenho dos negócios. Para 25,6%, os resultados de suas companhias devem ficar entre 1% e 10% abaixo do previsto neste ano.
Régis Filho / Valor
Henrique Salvador, do Hospital Mater Dei, também participou do 14º Fórum de Presidentes da ABRH
Utsch afirma, no entanto, que as eleições geralmente ajudam a movimentar o setor de bens de consumo. "O crescimento será menor que o observado em outros pleitos, mas de todo modo deve ser positivo para a nossa indústria". O presidente do banco J.P. Morgan no país, José Berenguer, acredita que o tom mais pessimista dos dirigentes durante o fórum está diretamente relacionado à incerteza eleitoral e aos desdobramentos econômicos possíveis.
O fórum foi realizado pouco depois do anúncio da morte do candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos. "Isso fez com que a questão política ganhasse mais espaço nas mesas de discussão", explica Leyla Nascimento.
Embora 89,9% dos presidentes prefiram a vitória do candidato Aécio Neves (PSDB) nas urnas, apenas 58% acreditam que, de fato, ele vencerá a disputa. Por outro lado, apenas 3,4% querem a reeleição da candidata Dilma Rousseff (PT), mas 39,8% acreditam em sua vitória. "Um presidente novo tem chance de fazer reformas mais fortes", diz Utch, da Alpargatas.
Anna Carolina Negri / Valor
Jose Berenguer, do J.P. Morgan, que também falou sobre a apreensão em relação ao cenário político e econômico, no 14º Fórum de Presidentes da ABRH
Na opinião de Henrique Salvador, presidente do Hospital Mater Dei, o Brasil precisa que o governo dê prioridade aos projetos de crescimento. Do ponto de vista empresarial, ele prevê que o próximo ano será de cautela, o que vai exigir uma postura mais otimista dos comandantes das empresas. "Vamos ter que engajar nossas equipes e olhar para frente", ressalta.
Uma das preocupações dos presidentes é fazer com que suas companhias se tornem mais competitivas nos próximos anos. Na pesquisa, os maiores entraves para que isso ocorra, na opinião deles, são o cenário econômico (26,7%), gargalos na infraestrutura (13,3%), condições políticas (10%), custos tributários (24,4%), custos trabalhistas (12,2%), qualidade do capital humano (12,2%) e modelo de gestão (1,1%).
Quando perguntados se a gestão de suas organizações é adequada às necessidades do momento, 59,4% disseram que sim. No entanto, quando a mesma pergunta está relacionada à construção de um futuro competitivo, apenas 40% responderam afirmativamente.
A expectativa de 58,1% dos dirigentes para os próximos cinco anos é que o desempenho de suas empresas seja apenas mediano. Também existe certo desânimo ao olhar para o quadro interno de executivos. Para 82,4% dos presidentes, ele está apenas parcialmente preparado para enfrentar esses desafios. "Se os presidentes afirmam que o modelo de gestão não é o adequado e que os profissionais não possuem as competências requeridas, isso é muito preocupante para o futuro do país", diz a professora e consultora Betania Tanure, que organizou a pesquisa. "Esse cenário vai exigir grandes transformações na gestão das organizações."
Outro assunto que foi amplamente discutido pelos executivos, em pequenos grupos, foi o impacto de algumas megatendências apresentadas pelo líder global de estratégia e desenvolvimento de lideranças da PwC, Blair Sheppard. Segundo ele, existem cinco tópicos de atenção daqui para frente: o avanço tecnológico; a alternância do poder econômico global dos desenvolvidos para os emergentes - Ásia, África, América Latina, Oriente Médio -; o crescimento demográfico; a escassez de recursos naturais e mudanças climáticas; e a aceleração do processo de urbanização na estratégia dos negócios.
"Precisamos de incentivos para desenvolver um modelo de gestão mais voltado para inovação e tecnologia", afirma Utsch, da Alpargatas. Para José Berenguer, do J. P. Morgan, é possível ser otimista com o Brasil no longo prazo, ao considerar essas tendências de mudanças de poder econômico. "Os percalços, porém, são de curto prazo. Temos que construir um país nos próximos 30 anos que tenha condições de ocupar o posto de liderança entre os emergentes."

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