Quem ganhou mais (e quem perdeu) com a economia na Copa

Enquanto número de turistas superou expectativas e brasileiro comprou televisão e bebeu cerveja, restaurantes e varejo tiveram quedas

REUTERS/Ueslei Marcelino
Torcedor do Brasil segura boneco do mascote fuleco durante partida no estádio de Brasília
Torcedor do Brasil segura boneco do mascote fuleco durante partida no estádio de Brasília
São Paulo - A Copa do Brasil terminou ontem com derrota argentina, tetra da Alemanha e muitos recordes e surpresas. Ainda leva um tempo para fechar o impacto econômico do evento - e a expectativa não era pequena - mas há números que já dão algumas pistas.

Na sexta-feira, a Prefeitura de São Paulo divulgou que até o dia 10, o evento trouxe quase meio milhão de turistas para a cidade - 299 mil brasileiros e 196 mil estrangeiros, que representaram um impacto econômico de R$ 1 bilhão. 
A expectativa do governo brasileiro era que todo o período da Copa atraísse 600 mil visitantes estrangeiros para o país, mas esse número foi superado já na primeira fase.
692 mil desembarcaram por aqui em junho, mais que o dobro da média do mês e do número total da Copa de 2010. Veja da onde eles vieram, segundo a Polícia Federal:
Turistas em junhoQuantidade
Argentina101 mil
Estados Unidos83 mil
Chile44 mil
Colômbia41 mil
México34 mil
Hotéis
Na primeira semana do evento, a ocupação média dos hotéis ficou em 80%, de acordo com o Fórum de Operadores Hoteleiro do Brasil (FOHB), acima da expectativa divulgada nos últimos meses.
Ate o dia 30, 450 mil diárias haviam sido negociadas. São Paulo teve o maior número de leitos adquiridos mas foi último lugar em ocupação (69%), enquanto o Rio de Janeiro liderou com 92% e um pico de 95% no dia de Espanha e Chile.
Cerveja e bares
Depois de cair em 2013 pela primeira desde 2010, a produção de cerveja no país levou um novo empurrão com a Copa.
O 1,04 bilhão de litros produzido entre janeiro e junho representa um crescimento de 11,6% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a CervBrasil.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes divulgou que o movimento nos bares cresce em média 70% nos dias de jogo do Brasil e que o setor deve ter receita de R$ 12 bilhões no mês do mundial.
É mais do que no mesmo período do ano passado, quando acontecia a Copa das Confederações e houve ganho entre R$ 8 bilhões e R$ 9 bilhões. Para os restaurantes, o efeito foi nulo ou até negativo.
Varejo
A produção de televisores também aumentou: entre janeiro e abril, o número de televisores de LED fabricados foi 65% maior em relação ao mesmo período do ano passado.
Com a ajuda de preços menores, as vendas aumentaram entre 30% e 40% nos últimos meses na comparação anual, mas os estoques são grandes e a liquidação já começou.
O comércio popular também ganhou, mas outras partes do varejo foram prejudicadas por feriados e pela distração dos consumidores.
As vendas no varejo em São Paulo caíram 12,9% em junho na comparação com maio e 0,75% em relação a junho do ano passado, segundo a ACSP. No Rio de Janeiro, a estimativa do Clube dos Diretores Lojistas (CDLRio) é a de que as perdas cheguem a R$ 1,9 bilhão.
O varejo de moda também reclamou, mas em alguns setores é difícil isolar o efeito Copa da desaceleração mais ampla e da deterioração de expectativas por que passa a economia brasileira.
Inflação
A Copa também mexeu com a inflação. Em junho, altas nas passagens aéreas e nas diárias de hotéis foram responsáveis por metade do Índice de Preços ao Consumidor (IPCA).
O acumulado de 12 meses, influenciado por fortes altas no final do ano passado, chegou a bater o teto da meta de 6,5%.
Legado
O fato do evento ter ocorrido sem maiores contratempos e a melhora na infraestrutura de recebimento também podem favorecer a imagem do país e aumentar o fluxo de turistas no longo prazo.
98,3% dos estrangeiros que visitaram o Rio de Janeiro disseram que recomendarão a cidade para seus parentes e amigos, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Prefeitura. 
Outro beneficiado pode ser o próprio futebol brasileiro, que tem um potencial econômico pouco explorado e terá à sua disposição uma infraestrutura muito melhor a partir de agora:
“Eles terão ótimos estádios, novos e seguros, que vão atrair mais pessoas. Há evidência de que depois das Copas e do campeonato europeu, há um aumento na frequência e lotação nas ligas de futebol, e tenho certeza que isso vai acontecer aí”, diz Simon Kuper, autor de "Soccernomics".
O esporte como um todo é responsável por cerca de 1,6% do PIB brasileiro e tem crescido a taxas mais rápidas do que o resto da economia.
Já o impacto do legado de infraestrutura é incerto e difícil de mensurar. Foram feitas menos obras do que o previsto (e com custo maior), mas de uma forma ou de outra, estes investimentos vinham de muitos anos e seu efeito já estava absorvido antes do Mundial.

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