Cartão vermelho


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Ana Paula Paiva/Valor / Ana Paula Paiva/Valor
Hugo Costa, da ACI Worldwide Brasil: "o país ganhou 20 milhões de novos usuários de cartões na última década"
O brasileiro apresenta o comportamento de risco mais elevado no uso de cartões de crédito e débito entre os maiores mercados nas Américas. É o que indica a pesquisa publicada no fim de junho pela provedora de soluções de segurança em pagamentos ACI Worldwide, que entrevistou mais de 6,1 mil consumidores em 20 países. De acordo com o levantamento, quase um terço dos consultados no país afirma jogar documentos com números de contas bancárias no lixo e 25% usam serviços financeiros ou compram em lojas on-line por meio de computadores sem softwares de segurança ou de uso público. Além disso, mesmo depois de ter uma experiência com fraude, 63% dos consumidores locais admitiram ter usado os seus cartões novamente em pelo menos uma situação de risco.
Conforme o estudo da ACI, quase um em cada três brasileiros recebeu pelo menos uma má notícia na hora de conferir a fatura do seu cartão nos últimos cinco anos. O levantamento mostra que 30% dos usuários no Brasil já foram vítimas de fraude em produtos financeiros do gênero ao longo do período.
A pesquisa coloca o país no oitavo lugar no ranking global dos crimes relacionados ao setor. A lista é encabeçada pelos Emirados Árabes Unidos, que exibe uma taxa de fraude de 44%, seguidos pela China, com 42%, e pela Índia e Estados Unidos, empatados em terceiro, com 41% cada.
Apesar da colocação relativamente intermediária no ranking geral, conforme mostra a pesquisa, o país lidera em termos de atitudes perigosas entre as maiores economias das Américas. Nada menos que 30% dos entrevistados assumiram descartar papéis com informações bancárias ou relacionadas aos cartões sem devidas precauções, como picotar as folhas. O percentual representa mais que o dobro do apresentado nos Estados Unidos e no Canadá, que registraram, respectivamente, 13% e 12%. O México também apresentou uma taxa menor, de 27% dos usuários.
Acessar o internet banking ou fazer compras em sites por meio de computadores públicos ou sem software de segurança é feito no Brasil pelo triplo de pessoas que nos EUA e por um número quatro vezes maior se comparado ao Canadá. São 22% de brasileiros, contra 7% de americanos e 5% de canadenses, de acordo com a pesquisa. Já os mexicanos exibem um resultado próximo, mas menor, de 20%.
O estudo mostra ainda que 12% dos brasileiros costumam escrever a senha no próprio cartão ou trazer consigo anotada em um papel. Embora seja uma brecha para fraudes, a estratégia pode "proteger" o usuário em casos de crimes mais graves, como sequestro-relâmpago. Nos EUA e no Canadá, apenas 6% admitiram esse comportamento. Já entre os mexicanos, a falha de segurança ocorre para 9% dos entrevistados.
De acordo com Hugo Costa, diretor da ACI Worldwide Brasil, a comparação com estudos anteriores mostra uma tendência de queda na exposição a riscos pelos usuários. De 2012 para 2014, o índice de brasileiros vítimas de fraude caiu três pontos percentuais. O executivo credita o recuo a campanhas de conscientização feitas pelas empresas e à divulgação de informações sobre o tema pela mídia. Mas, apesar da queda, "os índices ainda são altos", avalia.
Um dos motivos para o patamar se manter elevado se relaciona ao crescimento do mercado. Segundo Costa, na última década, o Brasil ganhou 20 milhões de novos usuários de meios de pagamento eletrônicos. "Eram pessoas que até então não tinham cartão de crédito ou débito e que têm menos informação sobre esses meios."
Para Maria Zanforlin, superintendente de serviços ao consumidor da Serasa Experian, os usuários abrem brechas de segurança o tempo todo. "Com frequência muito alta, as pessoas digitam ou dão o CPF para qualquer um e em qualquer lugar", exemplifica. Conforme a especialista, os dados podem ser usados para forjar documentos, emitir cartões falsos, fazer compras pela internet ou contrair empréstimos no nome da vítima.
Na avaliação de Henrique Takaki, coordenador do comitê de segurança e prevenção a fraudes da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), a preocupação do usuário deve ir além de manter a salvo as informações relacionadas ao cartão. Os próprios dados pessoais também devem ser alvos de cuidados. "Por meio das informações de alguém os fraudadores podem gerar cartões novos", explica.
Takaki vê o comportamento de risco como o maior problema. "Os bandidos estão obtendo dados de cartões através de falsos sites de compras, promoções e mesmo através de mensagens SMS, que informam o usuário que ele ganhou um prêmio e pedem confirmação de dados para recebê-lo."
A pesquisa da ACI mostra que, nesse quesito, o brasileiro também se expõe mais a riscos, quando comparado a outras grandes economias americanas. Responder e-mails ou mensagens de celular com pedidos de envio de dados pessoais e bancários foi feito por 7% dos entrevistados daqui nos últimos cinco anos. O percentual cai a 3% no Canadá e 5% nos EUA. Já no México, 6% dos usuários de cartões de crédito e débito caíram em solicitações do gênero.
Um levantamento realizado pelo serviço on-line ReclameAqui, que registra queixas de consumidores e solicita respostas das empresas, a clonagem corresponde ao maior número de ocorrências de fraudes enfrentadas pelo público do portal. As empresas, no entanto, têm investido no atendimento ao cliente, como mostram as estatísticas do site. De acordo com Maurício Vargas, presidente do ReclameAqui, há 12 meses, 55% das reclamações do segmento eram respondidas em até três dias. Hoje, o índice subiu para 78%. "No setor financeiro, existe uma evolução grande a respeito de atendimento ao usuário. E quem lidera esse grupo são as empresas de cartões de crédito", afirma.

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