BM&FBovespa cria sistema para limitar riscos com alta frequência


Regis Filho/Valor
Vieira, diretor de operações da BM&FBovespa: “A plataforma de ações da bolsa está 100% blindada contra um ‘flash crash’ provocado num erro de algoritmo”
Enquanto no exterior esquentam as discussões sobre as operações em alta frequência nas bolsas, a BM&FBovespa decidiu aumentar o controle sobre esses negócios. Um novo sistema que entrou em operação neste mês impedirá oscilações bruscas de preços nas ações em períodos muito curtos de tempo.
A ferramenta "trava" as operações e coloca os papéis em leilão sempre que houver uma variação superior a 3% na média das cotações dos últimos segundos. O sistema se soma a uma análise prévia que a bolsa já realiza de todas as ordens de compra e venda por investidores de alta frequência, também conhecidos pela sigla em inglês "HFT".
"A plataforma de ações da bolsa está 100% blindada contra um 'flash crash' provocado num erro de algoritmo", afirma Cícero Vieira, diretor executivo de operações da BM&FBovespa.
Embora a grande quantidade de negócios patrocinados pelos HFT contribua para as receitas, é preciso levar em conta que no mercado americano as bolsas não estão expostas aos riscos com essas operações, segundo Vieira. No Brasil, a BM&FBovespa também é responsável pela câmara de compensação (clearing), que garante os negócios caso uma das partes não honre o compromisso. "Aqui, há um incentivo econômico para gerenciar os riscos, já que o prejuízo com um HFT pode prejudicar o nosso acionista", diz.
O uso de computadores para executar estratégias de compra e venda de ações no mercado é uma tendência irreversível mesmo com os problemas ocorridos no exterior, afirma Carlos Ferreira, sócio da XP Investimentos. "Proibir os HFT seria como exigir a volta das máquinas de datilografia", compara.
Ferreira diz que é possível evitar ou coibir os problemas ocorridos no exterior mesmo com a entrada de bolsas concorrentes à BM&FBovespa no país no futuro. "Hoje já é possível identificar, cronologicamente e por milissegundo, todas as ordens que ocorrem na bolsa. Por isso os reguladores têm como identificar possíveis práticas irregulares", afirma o executivo da XP, que oferece serviços de negociação por algoritmos.
Carlos Maggioli, diretor da corretora do Itaú BBA, também não vê na tecnologia usada na negociação de ações uma barreira para a criação de plataformas alternativas, mas diz que antes todo o marco regulatório do mercado brasileiro teria de ser revisto. "A questão dos HFT é apenas um dos pontos que precisariam ser tratados", afirma.
Para o consultor de investimentos Marcelo D'Agosto, que estuda o assunto, a estrutura de várias bolsas facilita a atuação dos investidores de alta frequência. Mas ele diz que o atual monopólio da BM&FBovespa nas negociações com ações tampouco é a solução para o problema. "Todas as bolsas, incluindo a BM&FBovespa, facilitam a atuação dos HFT, inclusive abrigando computadores com algoritmos em seus prédios", afirma, referindo ao serviço conhecido como de "co-location". Segundo a bolsa, esse pool tem o objetivo contrário, ou seja, de impedir que um investidor de alta frequência leve vantagem sobre os demais.
Nos Estados Unidos, de cada US$ 100 negociados no mercado de ações, pelo menos US$ 60 são de investidores de alta frequência. O cerco a esses investidores aumentou neste ano com a publicação, nos EUA, do livro "Flash Boys" (sem tradução no Brasil), de Michael Lewis. O autor revela práticas supostamente irregulares na atuação desses investidores e técnicas de manipulação, como o "front running" eletrônico.
O avanço dos negócios com HFT começou a preocupar os reguladores internacionais após o chamado "flash crash" em maio de 2010, quando o índice Dow Jones recuou quase 10% em questão de minutos. Em 2012, um erro em um desses algoritmos foi apontado como responsável pelo prejuízo de mais de US$ 400 milhões da corretora americana Knight Capital. Agora é o Barclays que está na mira da Justiça dos Estados Unidos.
No Brasil, os investidores de alta frequência respondem por aproximadamente 15% do volume total negociado na bolsa. Mas em ativos que permitem arbitragem de preços, como os derivativos "mini", que replicam o contrato principal com valor mais baixo para permitir a negociação por pessoas físicas, a participação é bem maior. No contrato futuro "mini" de Ibovespa, por exemplo, os HFT respondem por pouco mais de 60% do volume.
Para o diretor da bolsa, nem todas as operações realizadas por HFT são ruins. "Estratégias de arbitragem que levam em conta, por exemplo, a relação estatística entre ativos, são válidas e ajudam a dar liquidez aos mercados", afirma. No caso dos mini contratos, a atuação dos HFT possibilita que os demais investidores negociem sempre com o preço justo, defende o executivo.
Vieira credita parte dos problemas enfrentados no exterior à presença de várias plataformas de negociação de ações, incluindo os "dark pools" - ambientes privados de transações eletrônicas, em que os investidores usam as redes de alta frequência para comprar e vender blocos de ações no anonimato, com os preços apresentados publicamente somente após o fechamento das ofertas. Como todas as operações no Brasil são concentradas na BM&FBovespa, não existe a possibilidade de "front running". "Mesmo que algum HFT consiga detectar um movimento de compra, ele não consegue se antecipar ao negócio já que todas as ordens estão em um único local", diz.
As suspeitas de manipulação levantadas no exterior com HFT ainda não são uma realidade no Brasil, até diante da maior dimensão e complexidade do mercado americano, na avaliação de Maggioli, da corretora do Itaú BBA. Embora considere a atuação dos investidores de alta frequência positiva, ele afirma que a política de desconto oferecida pela BM&FBovespa aos HFT deveria vir acompanhada de contrapartidas. "A bolsa poderia favorecer apenas as operações que efetivamente tragam maior liquidez ao mercado e reduzam os spreads [diferença] de compra e venda das ações", diz.
Questionada sobre o assunto, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que acompanha atentamente a atuação dos HFT no Brasil e as discussões internacionais sobre o tema, mas que não está, neste momento, elaborando uma regra específica com foco nesse tipo de operação. "Apesar de as negociações em alta frequência não terem uma regulamentação específica, aplicam-se a quaisquer negócios as mesmas regras, uma vez que o objetivo é o funcionamento eficiente e regular dos mercados", diz a autarquia.

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