Refúgio financeiro



O investidor se despede sem saudade do mês de junho e do primeiro semestre. Ainda que insatisfeito com a rentabilidade da bolsa brasileira ao longo de 2013, o mercado financeiro começa a olhar com mais atenção o espaço deixado pela forte queda de alguns setores e as boas oportunidades de recuperação - ainda que de curto prazo -, seja apenas em função dos preços ou pelos próprios fundamentos das companhias.
Empresas com desempenho vinculado à economia doméstica são os destaques da Carteira Valor de julho, que dá maior ênfase ao setor financeiro. Das dez indicações, duas são de bancos (Itaú Unibanco e Bradesco), uma de seguros (BB Seguridade) e outra da BM&FBovespa. O restante se divide em uma seleção abrangente, que inclui ações de educação (Kroton), consumo (Hypermarcas e Souza Cruz) e o retorno do setor elétrico, com a recomendação de Tractebel. Para finalizar a composição da carteira, analistas escolheram papéis que poderão se beneficiar do câmbio, mantendo a indicação de BRF e incluindo também as ações da Gerdau.
Para montar a estratégia de julho, a Octo Investimentos analisou o quadro global e as perspectivas de curto prazo no Brasil, deixando de lado ativos que têm sofrido com o cenário de juros versus inflação. Roberto Indech, da área de estratégias, chama atenção para a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central na próxima semana, quando a taxa Selic deverá subir de 8,0% para 8,5%, segundo a expectativa do mercado.
"Os ativos de bancos caíram muito em junho sem notícias específicas. O movimento foi exagerado. Além disso, achamos que o pico de inadimplência já ficou para trás, apesar do ciclo de elevação de juros", diz Indech, que diz acreditar que algumas ações começam a ficar baratas.
A queda da inadimplência também é vista como ponto a favor do segmento financeiro por William Alves, analista da XP Investimentos. Segundo ele, a taxa de juros mais alta favorece historicamente o segmento, permitindo spreads mais elevados. Itaú Unibanco PN está entre as preferências da corretora, reforçada após queda de 11,2% somente em junho.
Segundo Alves, o fato de os bancos privados terem crescimento recente menor que o dos estatais também pode ser visto pelo lado positivo, de mais prudência com o crédito. Aquisições como a da Credicard, anunciada em maio, também podem agregar valor. Victor Martins, analista da Planner Corretora, acredita que o comprometimento com a redução de despesas pode beneficiar os resultados no setor, situação na qual o Bradesco se destaca. Além disso, considera, o preço do papel do banco está mais descontado do que o do principal concorrente. Itaú Unibanco PN perdeu 3,9% no primeiro semestre, enquanto Bradesco PN caiu 8,8%.
O papel ON da BB Seguridade, que caiu 4,7% em junho e entrou na carteira de julho, é outra aposta da XP. "O setor de seguros como um todo vem mantendo uma toada de crescimento bastante elevada nesses últimos anos, independentemente de nuances econômicas", diz Alves. O analista aponta que em dois dos segmentos em que atua - previdência e títulos de capitalização - a empresa tem retorno sobre patrimônio líquido superior a 50%.
Para completar o setor financeiro, analistas mantiveram as apostas nos papéis da BM&FBovespa. A Bradesco Corretora se apoia na perspectiva de um ambiente melhor para os mercados de ações, derivativos e futuros no Brasil; na expectativa de despesas operacionais mais estáveis e previsíveis nos próximos três anos; na possibilidade de melhora das margens operacionais; e na atratividade pela ótica dos dividendos. A casa ainda avalia que o ambiente competitivo não deve ser um problema pelo menos até 2014.
A bolsa brasileira cravou a sexta queda mensal consecutiva, com uma baixa de 11,3% do Ibovespa, o pior desempenho mensal desde maio de 2012 (-11,9%). O período trouxe más recordações para o mercado financeiro, já que o índice caiu 22,1% na primeira metade do ano e teve a trajetória mais crítica desde o segundo semestre de 2008, pico da crise financeira, quando o Ibovespa caiu 42,3%.
Se serve de consolo, não foi apenas a bolsa brasileira que decepcionou em junho. Apesar de a saída de fluxo estrangeiro ter feito maior estrago na cena doméstica, os mercados acionários americanos também tiveram queda, assim como europeus e asiáticos. Apesar da pressão, a Carteira Valor continua com alta em 12 meses, de 10,2%. No mês, o portfólio também teve desempenho melhor que o do Ibovespa, com queda de 8,5%.
Na dificuldade de encontrar fundamentos robustos que justifiquem um segundo semestre melhor do que o primeiro, há quem se apegue ao histórico. A segunda metade do ano foi melhor do que a primeira para o Ibovespa em sete dos últimos dez anos.

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