Um fundo para chamar de seu



Por que ter um apartamento se você pode ter o prédio inteiro? Tomar decisões sem ter que discutir com os outros moradores parece cômodo. Há, entretanto, um custo alto: é preciso arcar com o condomínio de todo o edifício. É assim nos fundos exclusivos, em que, diferentemente dos produtos disponíveis no varejo, há um único cotista. Os afortunados têm considerado que o luxo vale o custo. O patrimônio dos clientes de private banking investido em fundos exclusivos e restritos - em que o condomínio é dividido com sócios ou familiares - chegou a R$ 90,67 bilhões em junho, 78% a mais do que dois anos antes. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Como são responsabilidade de um ou de poucos cotistas, os custos fixos do fundo pesam. Gastos com auditoria, taxas cobradas pela Anbima e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), abertura e manutenção de contas somam pelo menos R$ 20 mil ao ano, segundo os gestores. Há ainda as taxas de administração e custódia. Mesmo sujeitas a acordos comerciais, elas não custam menos de R$ 10 mil ao ano. E, por fim, há a taxa de gestão, que não costuma passar de 1% ao ano e, em alguns casos, pode até ser nula. Mesmo assim, é difícil pensar em ter um fundo exclusivo sem aceitar um custo anual de pelo menos R$ 30 mil.
É por causa dos custos que em geral os gestores recomendam a abertura do fundo exclusivo somente para quem tem mais de R$ 10 milhões. Alguns até indicam a ferramenta a quem tem patrimônio a partir de R$ 5 milhões, desde que haja perspectivas de crescimento. Em geral são executivos que recebem bônus ou famílias que vendem suas empresas.
A demanda por fundos exclusivos acelerou especialmente nos últimos três meses, segundo Camilo de Syllos, superintendente de distribuição de fundos da HSBC Global Asset Management. "Com o cenário de queda de juros e um mercado que tem mudado rapidamente, o fundo exclusivo é o veículo ideal para diversificar e se movimentar", diz. Enquanto ao resgatar de um fundo de varejo para aplicar em outro é preciso pagar Imposto de Renda (IR), no fundo exclusivo a transferência não é tributada.
Os clientes dos 47 fundos exclusivos geridos pela Claritas, por exemplo, desfrutaram o benefício da mobilidade, ajustando-se ao novo cenário de juros em pouco tempo. A parte do patrimônio deles alocada em renda fixa prefixada passou de 24%, há um ano, para 9% neste mês. A participação do crédito privado nas carteiras subiu de 12% para 19% e a dos multimercados, de 15% para 20%.
Outra vantagem do fundo exclusivo é que é possível compensar ganhos em alguns ativos com perdas em outros antes de pagar o IR, inclusive entre a renda fixa e a variável. "Imagine o efeito disso nos últimos três anos, em que a bolsa andou de lado ou até caiu, enquanto houve ganho na renda fixa", diz Ernesto Leme, responsável pela área de wealth management da Claritas. Além disso, na hora de fazer a declaração anual do IR, em vez de listar um monte de aplicações basta informar a situação do fundo exclusivo.
A cobrança do imposto varia de acordo com a categoria em que a carteira se encaixa, assim como nos fundos de varejo. É por isso que a gestora GPS, que faz uma seleção de fundos para montar cada carteira, costuma recomendar aos mais afortunados a abertura de dois fundos exclusivos. Um carrega carteiras sobre as quais incide 'come-cotas' - recolhimento semestral de IR sobre os rendimentos - como renda fixa. O outro fica com renda variável e "long and short", em que o imposto só é pago na hora do resgate. "Tem muita gente que mistura, mas nós achamos que deveriam ser dois bolos para não tributar antecipadamente a renda variável", diz o sócio da GPS José Eduardo Martins.
A GPS também costuma deixar de fora dos fundos exclusivos aplicações cujos ganhos são isentos de IR, como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). Como o fundo exclusivo é uma pessoa jurídica, esses títulos passam a ser taxados quando incluídos. Mas como é difícil ter recursos suficientes para separá-los em tantos bolos, 83% do patrimônio dos clientes de private alocado em fundos exclusivos e restritos hoje se enquadra na categoria multimercado, que dá mais liberdade para passear entre os ativos.
Segundo levantamento do economista Marcelo d'Agosto, autor do blog "O Consultor Financeiro" do portal do Valor, os 250 multimercados exclusivos mais rentáveis pagaram 9,65% ou mais até agosto deste ano. O retorno ultrapassou os 6,02% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), referência para aplicações conservadoras, assim como os 0,54% do Ibovespa. A dispersão, entretanto, é grande. O retorno para o período varia de -75,5% a 146,9%. A pesquisa de d'Agosto, com base em dados da Economática, também mostra o crescimento do número de fundos exclusivos ano a ano. Hoje são 5,6 mil, um acréscimo de 576 com relação a dezembro de 2011.
Além das vantagens tributárias, George Wachsmann, sócio da Bawn, diz que os fundos exclusivos atraem pelo sigilo. O nome do fundo, escolhido pelo cotista, é o que aparece nas transações, enquanto a pessoa física fica preservada. "Sem o fundo exclusivo, quando você recorre a vários gestores é preciso fazer muitos cadastrados e todos ficam sabendo nome, endereço e quanto o cliente tem", diz.
As gestoras do HSBC e do Credit Suisse têm sentido o avanço da demanda por fundos exclusivos estruturados como Fundos de Investimento em Cotas (FICs), ou seja, que adquirem cotas de outros fundos. Uma explicação é o custo. Ele pode ser metade do visto em fundos exclusivos tradicionais, que compram ativos diretamente, diz Carolina Falzoni, gestora da Credit Suisse Hedging-Griffo. "Para quem tem R$ 10 milhões, o custo de R$ 30 mil pode ser uma mochila de pedras para correr no parque", diz. Já para quem tem R$ 40 ou R$ 50 milhões o fundo tradicional faz mais sentido.
Ainda que não dividam decisões com outros cotistas, os clientes de fundos exclusivos não reinam sozinhos. Os gestores variam em flexibilidade, mas a maior parte concentra poder. "Nada é feito no fundo se nós não concordarmos", diz Carolina. Ainda assim, esse é um mundo bem diferente do varejo: é possível definir exatamente o risco que se quer correr, debater a carteira periodicamente e ter acesso a versões mais didáticas de relatórios. "Faço testes com o meu pai", conta Carolina. Conhecer tão a fundo o próprio portfólio não deveria, mas é privilégio de poucos.

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