Inflação agora atinge os ricos também


Antigo algoz das classes menos privilegiadas, a inflação atual perturba as classes mais abastadas. Com a queda dos juros nominais e a manutenção da inflação em patamares ainda elevados, o rendimento real dos investimentos tem se reduzido. Como lidar com esse novo cenário?

O Brasil talvez seja o país no mundo onde existam mais estudos sobre inflação. Entre meados da década de 70 e 1994, o país conviveu com elevados níveis de inflação. Na ocasião, os principais prejudicados foram as classes de menor poder aquisitivo, que não tinham acesso aos bancos e, logo, seus recursos não eram indexados. Não à toa, a estabilidade econômica é hoje condição primordial para o desempenho eleitoral dos partidos políticos.
É sabido que há dispersão entre os diversos índices de inflação devido a metodologias de cálculo e período de apuração. Enquanto os juros nominais se mantinham em dois dígitos, essas diferenças podiam ser desprezadas. Mas agora que os juros básicos da economia, representados pela meta Selic, se encontram em 7,5%, observar o nível de inflação será vital para se estimar o ganho real das aplicações.
Por balizar o regime de meta de inflação, o IPCA vem sendo bastante utilizado para esse cálculo. A inflação esperada definida pelo centro da meta é 4,5% a.a. Apesar de muito inferior ao que se via no período inflacionário, ainda é uma taxa elevada. E o pior é que nos últimos anos a inflação medida pelo IPCA tem sido superior à meta. Em 2011, alcançou 6,5%.
Além disso, cada família possui sua “própria inflação”. Será que a da sua, leitor, está bem representada pelo IPCA? A inflação com serviços (escolas, restaurantes etc.) tem sido superior à do índice. Assim, se a parcela de gastos com serviços de sua família é superior à da composição do índice IPCA, muito provavelmente a sua inflação é superior à do índice. Considerando que a Selic está em 7,5% e ainda há tributação de imposto de renda sobre quase todos os produtos financeiros, não seria exagero dizer que seus investimentos já apresentam juros reais negativos. Veja o exemplo de um aplicador que mantenha um CDB rendendo 7,5% por um ano. Com uma alíquota de IR de 20%, o investidor receberia líquidos 6%.
E o que os investidores têm feito para enfrentar esse novo cenário? A princípio, nada, conforme demonstrado pela matéria do Valor de 05/09/12, “Poupança atrai alta renda na transição dos investimentos”. O investidor ainda parece negar a existência desse novo cenário. A ida de parte dos recursos para o mercado acionário parece ser uma consequência natural. O investidor americano Warren Buffett considera que o risco de qualquer investimento não é a volatilidade (comum no mercado acionário), mas a probabilidade de a aplicação perder poder de compra ao longo do tempo.
A bolsa brasileira assusta devido à má performance do principal índice, o Ibovespa, e de ações ícones como Petrobras (PETR3 e PETR4) e Vale (VALE3 e VALE5) nos últimos anos. Contudo, dentro dessa mesma bolsa há histórias de sucesso, como Ambev (AMBV4), Ultrapar (UGPA3), Souza Cruz (CRUZ3) e muitas outras.
Em palestra no Congresso da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais) realizado em São Paulo na última semana, Octávio de Barros, economista do Bradesco, e Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro e ex-presidente do BNDES, acreditam que os juros mais baixos devem dinamizar as finanças pessoais. Concordo. A pergunta é quando.

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