Com o mercado na mão



Luis Ushirobira/Valor / Luis Ushirobira/Valor
O administrador de empresas Guilherme Meirelles costuma operar na bolsa de valores de duas a três vezes por semana e gostou da possibilidade de realizar as operações via smartphone
A rotina do administrador de empresas Guilherme Meirelles, 30 anos, é tomada por reuniões, viagens de negócios e almoços protocolares. Em meio ao corre-corre, sobrava pouco tempo para ele fazer algo que aprecia muito: operar na bolsa de valores. Nem sempre havia um computador por perto e, quando tinha, muitas vezes não era possível utilizá-lo.
A solução apareceu quando sua corretora, a Coinvalores, resolveu entrar no crescente mercado de aplicativos para tablets e telefones móveis sofisticados, os smartphones. "Aguardava o lançamento dessas ferramentas desde que comecei a operar via home broker", afirma o investidor. Assim que a corretora lançou aplicativos para iPhone e iPad, em maio deste ano, ele passou a utilizá-los.
Acostumado a operar de duas a três vezes por semana, o investidor comemorou a facilidade. "Uso bastante. Mesmo fora do escritório e longe do computador consigo ver como o mercado está e acompanhar minhas aplicações. Na hora do almoço, quando viajo a trabalho, no táxi, em reuniões, a qualquer momento", diz.
O administrador faz parte de um grupo ainda pequeno, mas que aumenta com a mesma velocidade em que cresce o acesso à internet por meio de celulares: o de usuário de "mobile brokers" ou 'm-brokers', sistemas móveis para operar na bolsa de valores e de futuros. Os aplicativos procuram reproduzir as funcionalidades do home broker, plataforma de negociação para pessoas físicas oferecidas por bancos e corretoras.
As negociações em ambiente móvel são um segmento emergente. Tanto que a maioria dos 'm-brokers' surgiu há poucos meses. De 14 corretoras consultadas, seis lançaram aplicativos neste ano e cinco no segundo semestre de 2011. Já nos últimos dias, as novidades foram diversas, não apenas no que se refere a aplicativos, mas também a soluções para tablets e aparelhos celulares em geral. A Coinvalores, por exemplo, lançou o aplicativo para Android na segunda-feira, enquanto a Spinelli inaugurou no fim de agosto a plataforma de investimentos Operador Móvel, baseado na tecnologia HTML5, que funciona em qualquer sistema operacional móvel.
O lançamento quase simultâneo de 'mobile brokers' não foi coincidência. Embora ainda restrito, especialistas apostam em um crescimento acelerado desse mercado. Segundo a consultoria IHS iSuppli, os celulares inteligentes vão superar os celulares comuns em vendas no mundo já no ano que vem, podendo atingir uma participação de 54%.
No Brasil, um levantamento do instituto de pesquisa IBOPE Media aponta que 13% dos usuários de celulares têm smartphones, o que equivale a 9,5 milhões de pessoas. O acompanhamento mostra que o número quase dobrou desde 2009. Em termos de acesso à internet banda larga móvel, os dados são ainda mais exuberantes. De acordo com a Anatel, em julho de 2012, os aparelhos com acesso ao 3G somavam 47,7 milhões no Brasil.
E se o mercado de smartphones vai bem, o de tablets tem potencial para ir ainda melhor. Um estudo da consultoria IDC Brasil apontou que, neste ano, devem ser vendidos 2,5 milhões de equipamentos do gênero, ou seja, um crescimento de mais de 200% em comparação ao ano passado. Em 2013, deve ser mantido o ritmo de expansão, com vendas de 4 milhões de unidades.
Na avaliação de Luca Cavalcanti, Diretor dos Canais Digitais Dia & Noite do Bradesco, "a mobilidade tomou um rumo que não tem volta". O executivo aposta que em dois anos o celular deve se tornar o principal meio de acesso aos serviços do banco.
Os números do aplicativo da Bradesco Corretora corroboram a visão de Cavalcanti. De agosto de 2011 até julho de 2012, a quantidade de "downloads" triplicou. De 10 mil pulou para mais de 30 mil no período. O diretor da instituição, Anibal Cesar dos Santos, explica que o ambiente móvel, além da facilidade, desperta o interesse de uma nova geração de investidores: "Há gente de 15 anos querendo conhecer o mercado e, obviamente, este jovem tem muito mais familiaridade com a mobilidade."
A corretora Spinelli vê o 'm-broker' de uma maneira estratégica. O diretor do home broker, Rodrigo Puga, considera a ferramenta um chamariz para ajudar a conquistar novos clientes, mas com um perfil muito específico. O alvo é o público solteiro de 25 a 45 anos, majoritariamente masculino, que viaja muito, tem renda mensal entre R$ 8 mil e R$ 12 mil e investe ativamente - realiza dez ordens no mês. "Pessoas com essas características querem acompanhar seus investimentos a todo momento. Antes, clientes que iriam fazer viagens longas zeravam posições para não terem problemas. Agora não precisam mais fazer isso."
A versatilidade do ambiente móvel também tem ajudado a Coinvalores a diversificar o público-alvo. A gerente de Projetos, Bianca Bonfá, conta que aplicadores do Brasil inteiro têm experimentado - e aprovado - o aplicativo. "Temos um cliente fazendeiro que opera direto de sua propriedade", afirma.
Apesar de o número de acessos aos aplicativos de 'mobile broker' ainda ser pequeno, deve mudar radicalmente nos próximos três anos, prevê o diretor de Marketing da XP Investimentos, Bruno De Paoli. "A tendência é que todos os clientes que tenham smartphone usem o sistema mobile", acredita.
De olho nessa mudança de comportamento e de uma nova demanda por informações instantâneas, a corretora pretende ir além do 'm-broker' e transformar a plataforma móvel em uma verdadeira central de gestão e comparação entre diferentes modalidades de investimentos. "A XP hoje é um shopping financeiro e o nosso aplicativo mobile tem de ser um espelho desse ambiente", diz De Luca.

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