BTG e o Peru de Natal

Ações do BTG caíam -20% pela manhã. Banco Central tenta acalmar o mercado, afirmando que o BTG apresenta “robustos indicadores de solidez financeira”. No 3T15, BTG reportou um ROE de 28,8%. Não é curioso que um dos maiores ROEs da história da banco tenha sido reportado logo antes de André Esteves ser preso? É curioso, mas não surpreende. Trata-se de mais um caso de peru de Natal, conceitualmente definido por David Hume, Bertrand Russell e Nassim Taleb. 
 

 
Você alimenta generosamente o peru durante 364 dias. Até que, na véspera do Natal, justamente no momento em que mais confia no criador, o peru se transforma na ceia. Quando o passado e o futuro são separados por um evento de cauda, a volatilidade passada só atrapalha na percepção da volatilidade futura. Lembra-se desta manchete, publicada no Valor em 26 de fevereiro?  
 A declaração do BTG à época continua válida. Afinal, que tipo de provisão significativa um banco poderia fazer para se proteger da prisão de seu controlador? Não há significância estatística que cubra esse tipo de coisa. Caixas pretas não podem ser provisionadas. E, conforme eu dissera em entrevista à Bloomberg em 12 de março, o BTG me parecia uma caixa preta.  
 Ativos de risco sentem por tabela a prisão de Esteves. Bolsa caindo, juros futuros subindo e dólar voltando a se aproximar de R$ 3,80. O estresse é natural no curto prazo; na dúvida, mercado algum gosta de eventos de cauda. Você já tentou trabalhar de casa em dia de faxina? Tapete enrolado, móveis fora do lugar, o pó incomoda sua rinite. Já a médio e longo prazo, a história é outra. Todo mercado gosta de faxina depois que a faxina foi feita. 
Agora é hora de se acalmar, aguardar pelo término da faxina. Importam menos as prisões de hoje e mais as prisões de amanhã. Se a PF encontrou embasamento suficiente para prender Esteves, até onde a Lava Jato poderia alcançar? 


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