Comentário Senmanal

Geração Futuro e Brasil PluralComentário Semanal
3.11.2014
No cenário internacional, destacamos a reunião do Fomc – comitê de política monetária do Fed -, que, em linha com o esperado, e em resposta à recuperação da economia americana, encerrou o programa de compras de ativos, o chamado QE3. O debate nos Estados Unidos agora é sobre o momento em que o comitê irá elevar os juros, que estão em 0,25% ao ano, completando o processo de normalização da política monetária após a superação da crise. Ainda nos EUA, a leitura preliminar do PIB do terceiro trimestre apontou crescimento de 3,5% (taxa trimestral anualizada), corroborando o otimismo expresso pelo Fomc no comunicado da sua decisão.

No Brasil, o destaque foi a decisão do Copom de elevar os juros na quarta-feira. Na sua primeira reunião após as eleições, o Copom surpreendeu o mercado e subiu a taxa Selic em 0,25 pp para 11,25% aa. A decisão não foi consensual – 3 dos oito membros votaram pela manutenção, dentre eles o diretor de assuntos internacionais Luiz Pereira. Dentre os favoráveis à alta, estiveram o presidente do BC Alexandre Tombini e o diretor de política econômica, Carlos Hamilton. A motivação para a alta foi que um ajuste rápido dos preços relativos (leia-se taxa de câmbio) teria piorado o balanço de riscos para a inflação. Ainda que esse movimento fosse evidente, achávamos que a alta da Selic viria mais tarde. A linguagem foi ambígua, sem sinalizar se esse seria ou não um ciclo, de forma que vamos esperar a ata da reunião, a ser divulgada na próxima quinta-feira, para ajustar nossas expectativas sobre os próximos passos. Mas parece que o cenário mais provável é de pelo menos um novo aumento na reunião de dezembro, levando a taxa Selic a 11,5% no final do ano. A alta dos juros pode ter sido parte de uma agenda mais ampla de restaurar a credibilidade, a ser (provavelmente) complementada por anúncios positivos do lado da estratégia para a política fiscal em 2015 e talvez pelo tão aguardado aumento do preço da gasolina pela Petrobras.

Também destacamos o resultado das contas públicas de setembro, que mostraram um déficit de R$ 25,5 bilhões, bem acima da nossa projeção (R$ 10,9 bilhões) e do consenso de mercado (R$ 12,6 bilhões). A surpresa veio tanto do governo central, que registrou o maior déficit primário para setembro da história (R$ 20,4 bilhões na abordagem do Tesouro Nacional e R$ 21,0 bilhões de acordo com o BC), como dos governos regionais, que também atingiram o pior resultado para setembro na série histórica do BC (R$ 3,1 bilhões). Em 12 meses, o superávit primário caiu para R$ 31,1 bilhões ou 0,6% do PIB, também atingindo o nível mais baixo da série histórica do BC (desde 2002). Além disso, nossa medida do resultado primário recorrente está ainda mais negativa, chegando a -0,3% do PIB (de -0,1% até agosto). O BC finalmente reconheceu a postura fiscal expansionista, que ajuda a explicar a decisão inesperada do Copom em sua última reunião. Olhando à frente, o resultado ruim em setembro nos fez rever a nossa previsão para o superávit primário em 2014 para 0,6% do PIB (de 0,9% anteriormente) e também aumenta o desafio de um ajuste fiscal em 2015.

Do lado da inflação, destacamos o IGP-M de outubro, que veio em 0,28% (2,96% em 12 meses), acima de nossa previsão e das expectativas de mercado (0,20%). Em uma base comparativa mensal, o índice acelerou em comparação a setembro (0,20%), impulsionado pela inflação dos preços agrícolas (de 0,10% em setembro para 0,90), enquanto a inflação dos preços industriais no atacado caiu (de 0,14% em setembro para 0,01% em outubro), com farelo de soja (de 0,47% para -1,87%) desempenhando um papel importante. O índice de preços ao consumidor subiu 0,46% em outubro (6,82% em 12 meses), de 0,42% no mês anterior e em uma aceleração generalizada dos preços pelos grupos do IPC, mas liderada principalmente por uma maior inflação de alimentos (de +0,40% para +0,63%). O índice nacional de custo da construção registrou alta de 0,20% (6,66% em 12 meses), de 0,16% em setembro. Nós esperamos que a inflação medida pelo IGP-M termine o ano de 2014 em 3,2% e, em 2015, vemos o IGP-M em 6,0%.

O saldo das operações de crédito como proporção do PIB atingiu 57,2% em setembro, com um aumento de 0,5 pp em relação a agosto, atingindo o nível mais elevado de todos os tempos novamente. O aumento foi impulsionado principalmente pela alta do crédito direcionado em relação ao PIB. O crescimento do saldo foi impulsionado pelo segmento direcionado, que aumentou 20,6% face ao ano anterior, enquanto o crédito livre avançou 4,8%. Gostaríamos de salientar que, em termos reais, o crédito com recursos livres está caindo pelo quinto mês consecutivo (-1,9% face ao ano anterior). No segmento de crédito direcionado, destaca-se o ganho de força dos empréstimos para as empresas, com créditos do BNDES subindo 6,9% face ao ano anterior, em termos reais. Novos empréstimos com recursos livres para as empresas caíram 8,0% face ao ano anterior em termos reais (ajustado por dias úteis), trazendo a média móvel trimestral para -7,5%, de -4,6% no 2º trimestre. Os novos empréstimos com recursos livres para as pessoas físicas ainda mostraram um crescimento positivo em comparação ao ano anterior, mas desacelerou substancialmente - eles subiram apenas 0,8% em setembro (ajustado por dias úteis), vindo de 6,6% no 2º trimestre. As taxas de inadimplência atingiram 4,2% e 2,0%, respectivamente, para as famílias e empresas, uma queda de 0,6 pp em comparação com setembro de 2013 para as famílias e estável para as empresas – de acordo com o nosso ajuste sazonal, a inadimplência manteve-se estável em relação ao mês anterior. Este resultado reafirma a dinâmica do crédito sendo liderada pelo segmento de recursos direcionados, que de fato ganhou um novo impulso em setembro, enquanto os recursos livres continuam a desacelerar.

Nos mercados, o dólar terminou a última sexta-feira cotado a R$2,48, o que representou leve perda de 0,2% para a moeda brasileira em relação à semana anterior. A curva de juros se deslocou para cima e perdeu inclinação: enquanto contrato para janeiro de 2016 alta de 0,32 pp para 12,24%, o de janeiro de 2018 subiu 0,13 pp para 12,30%. O Ibovespa fechou a sexta-feira em 54.629 pontos, um ganho de 5,2% em relação à semana anterior, ampliando a alta no ano para 6,1%.

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