Ressaca das urnas


Luis Ushirobira/Valor
Lemos, da XP: direção mais clara do governo em relação às diretrizes econômicas poderá estimular fundos multimercados
Enquanto os operadores de curto prazo agitavam ontem movimentos de queda do Ibovespa e alta do dólar e dos juros, os gestores de recursos brasileiros observavam atentos à espera de oportunidades. O entendimento deles é que, sim, elas vão surgir. À medida que a volatilidade, que tem cegado para os fundamentos, fique para trás, vão aparecer chances de alocar a liquidez represada nos portfólios desde que o tema eleitoral tornou-se o foco.
A ordem, que vale para a pessoa física, é não ter pressa de migrar para o risco - ou fugir dele - embarcando nos exageros, mas se aproveitar desses excessos. Dólar mais alto pode beneficiar ações de exportadoras, por exemplo, barateadas pela mais recente queda da bolsa. E a perspectiva de continuidade dos programas governamentais de financiamento aponta para o setor educacional. Na renda fixa, os gestores esperam que a aversão ao risco engorde o prêmio dos títulos públicos, criando oportunidade especialmente nos papéis de prazos médios.
Passado o calor eleitoral, algumas ações vão se destacar à medida que o mercado adequar o portfólio, acredita Carlos Eduardo Rocha, o Duda, sócio responsável pela gestora do Brasil Plural. E essa seleção de papéis vai, para ele, refletir um cenário de aumento do juro nos Estados Unidos, desaceleração chinesa, fortalecimento do dólar e, internamente, crescimento lento e deterioração fiscal, além do baixo nível dos reservatórios de água no Sudeste.
"Estou muito convicto de que é preciso ter um portfólio com empresas resilientes ao momento de crise que vivemos", diz o sócio do Brasil Plural. Algumas nem aderiram à queda da bolsa ontem, primeiro dia após o anúncio da reeleição de Dilma Rousseff, como ocorreu com Kroton, Suzano e Klabin. Outras até podem perder valor no curto prazo, diz, gerando oportunidades de compra. E, dada a queda do ano, várias já estão com preços atraentes, afirma, apontando os exemplos de companhias do segmento financeiro, como Itaú, BB Seguridade e Cielo.
Na lista das empresas a ter no portfólio, além do setor financeiro, o sócio do Brasil Plural aprova, por exemplo, Suzano e Klabin, já que os preços do papel e da celulose estão em alta e essas companhias têm condições de usar energia própria em caso de racionamento. No rol positivo entra também o setor educacional, em que a preferida é Kroton, dada a perspectiva de continuidade dos programas de financiamento educacional com a reeleição de Dilma Rousseff.
É também a partir dos riscos que o sócio do Brasil Plural faz a lista de empresas que o investidor não deve querer ter em carteira, entre elas: as que têm dívidas em dólar, as mais afetadas pelo risco de racionamento, como do segmento industrial, e as que têm maior correlação com o crescimento econômico brasileiro. E, uma vez que a inflação está perto do teto da meta, também não queira ter companhias muito endividadas, aponta, já que pode ser necessário conviver com juros mais altos à frente.
Com o cenário mais definido, os gestores passam a ter menos custos com estratégias de proteção e voltam a poder mirar o longo prazo. "Facilita, porque podemos fazer posições mais direcionais, sem ter que rebalancear a carteira quase que diariamente, como vínhamos fazendo", diz Eliseo Viciana, vice-presidente da Mapfre Investimentos. Aos poucos, considera, as ações devem voltar a se movimentar mais em função dos fundamentos. "Muda um pouco o cenário de tiroteio e voltamos ao cenário tradicional de análise", afirma.
A SulAmérica Investimentos ainda está à espera de informações sobre o novo governo para repensar o portfólio, mas já vê alguns indicativos de oportunidades, especialmente na renda fixa.
"De forma geral, olhando pra frente, num cenário de atividade fraca e crescimento baixo, essa recomposição dos prêmios dos papéis prefixados e indexados à inflação pode oferecer oportunidades ao investidor", afirma o vice-presidente de investimentos, Marcelo Mello. "No longo prazo, vale ficar atento a esses prêmios oferecidos", diz.
E, segundo Mello, já é possível pensar inclusive em vencimentos mais longos, mas é preciso estar atento ao movimento do câmbio. Mello destaca principalmente títulos prefixados com vencimento em 2018 e NTN-Bs, que pagam uma taxa prefixada mais a variação da inflação, com prazo em 2022, menos suscetíveis à volatilidade que as notas de mais longo prazo.
No Tesouro Direto, site de venda de títulos públicos à pessoa física, o vencimento mais curto disponível para compra ontem era o de 2019, com juro real de 5,90%, caso de uma NTN-B Principal, que não paga cupom semestral. O papel mais longo, para 2050, pagava 6,21% mais a variação da inflação. O título prefixado com vencimento em 2017 oferecia rendimento de 12,25%.
Já em bolsa, o momento segue de espera, mas, do ponto de vista de preço, também deve ser acompanhado de perto pelo investidor, na opinião da SulAmérica. "Estamos sugerindo a manutenção da carteira e eventualmente um aumento de posição em virtude do técnico [preço], que está num nível atrativo", diz o vice-presidente de investimentos. Se o governo mostrar um direcionamento para a ortodoxia, Mello diz acreditar que o setor bancário poderá ser beneficiado, por exemplo. Mas o "stock picking" ainda vai prevalecer no médio prazo.
Para Mello, a convicção é menor em bolsa que no mercado de juros, porque não há uma fotografia completa do cenário para justificar um posicionamento mais otimista. E o desempenho do mercado acionário ainda vai depender em grande parte do comportamento do investidor internacional não apenas em relação ao Brasil, mas ao mundo, dado o ciclo de crescimento mais fraco, com foco na reação da Europa, no início de processo de elevação dos juros nos EUA e na desaceleração chinesa.
E ainda que a bolsa em queda fique barata em dólar, Mello avalia que o estrangeiro vai aguardar os fundamentos internos e externos para se posicionar melhor.
Ao longo das eleições, a SulAmérica, assim como grande parte das gestoras de recursos, reduziu a exposição a risco, adotando maior conservadorismo no portfólio, dada a indefinição de cenário e uma volatilidade que prevalecia sobre os fundamentos.
"Agora, finalizado o processo, estamos avaliando o tamanho da posição que vamos montar, mas acho que tem oportunidades", diz Mello. "Por enquanto estamos mantendo posições, que já eram pequenas, esperando uma quantidade de informações maior, principalmente em relação à equipe econômica, para aí sim direcionar o risco para os diferentes tipos de ativos."
Humberto Vignatti, gestor de renda fixa da Porto Seguro Investimentos, também prefere os títulos públicos de vencimento no médio prazo, com destaque para a NTN-B, com vencimento em 2019. No caso dos papéis muito curtos, Vignatti considera que não há muita gordura. A curva de juros hoje reflete a expectativa de um ciclo de alta de 150 pontos da Selic, ou seja, de a taxa ser ajustada para 12,5% até meados do ano que vem. "Esse prêmio que está precificado parece reduzido versus o nosso cenário-base [apenas de 25 pontos]. Não é o melhor risco do ponto de vista de alocação", diz Vignatti.
A Porto Seguro estima um ciclo de aumento de 125 pontos da taxa Selic. "O que é determinante no nosso entendimento para ensejar a necessidade desse ciclo complementar de alta é a desvalorização cambial que aconteceu nos últimos 45 dias", diz o gestor de renda fixa.
Optar por um título com vencimento muito distante, como em 2050, parece arriscado demais diante da falta de previsibilidade que ainda se tem hoje, considera Vignatti, em relação a alguns fatores, como a postura fiscal do novo governo. "Acho que precisamos ter um conjunto de informações um pouco mais claras, já que a incerteza nessa parte da curva é muito grande e a volatilidade, enorme", afirma. "Para entrar nesse jogo, o grau de prêmio exigido é mais alto, tem que ter um pouco de paciência", completa. Uma taxa real na faixa entre 6,5% e 7% parece mais atraente aos olhos do gestor do que os 6% atuais.
Ainda que os mercados tenham reagido ontem ao resultado da eleição presidencial, é preciso ter calma para se reposicionar, recomenda também a gestora de recursos Rio Bravo. O ponto-chave é ter paciência, sinaliza Beto Domenici, diretor de gestão de investimentos da casa. "Não tenha pressa, principalmente quem estiver com muita liquidez", afirma.
Qualquer intenção de alongar os prazos da alocação deve ser feita de maneira gradual, monitorando as indicações de mudanças (ou não) do governo. "Vamos olhar preço e acompanhar o andamento do governo, as medidas que serão tomadas, e poderemos alongar gradualmente, com muita cautela, porque nosso objetivo maior é a preservação do capital."
Na visão do diretor de gestão de investimentos, títulos atrelados à inflação oferecendo prêmios de 7% serão atrativos, se o movimento também for acompanhado de mudanças tidas como positivas em relação à condução do governo.
Já na renda variável, o grau de desconfiança é mais elevado. "Quando se dosa risco e retorno, vale muito mais a pena ter ainda a vantagem de se estar líquido", destaca. Até o fim das eleições, a Rio Bravo vinha insistindo para os clientes terem maior liquidez em mãos justamente para aproveitar os momentos de compra. O segundo ponto reforçado diz respeito à diversificação do portfólio, com a recomendação contínua de não colocar todos os ovos na mesma cesta.
A partir de uma direção mais clara do governo em relação às diretrizes econômicas a serem adotadas no próximo mandato, o diretor de renda fixa da XP Investimentos, Daniel Lemos, enxerga nos fundos multimercados a possibilidade de recuperação.
Até as eleições, diz, era muito difícil para o gestor apostar numa tendência com um evento tão binário. Agora, é possível enxergar um direcionamento dos mercados mais atrelado ao próprio cenário macroeconômico que à disputa presidencial.
Embora avalie que a volatilidade continuará a pautar os negócios ao longo desta semana, Lemos afirma que, assim que o mercado tiver maior visibilidade das políticas econômicas, poderá ser interessante se posicionar também em juros. E prêmios de 6% em títulos como NTN-Bs com vencimentos em 2022 e 2030 já seriam atrativos, diz.
Atualmente, os clientes da XP estão com bastante caixa, conta Lemos, e com aplicações concentradas em prazos mais curtos. De acordo com o diretor da corretora, as incertezas com o cenário eleitoral levaram os investidores a preferir aplicações de renda fixa mais conservadoras, indexadas ao CDI e geralmente com garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O mercado de títulos privados também poderá ficar mais atrativo de agora em diante, aposta. "Vemos oportunidades de, nas próximas emissões, ter um pouco mais de prêmio, o que é bom para o investidor", afirma Lemos.


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