Juros voltam a subir no crédito para veículos


Pouco mais de dois meses depois de o Banco Central (BC) anunciar medidas de estímulo ao financiamento de veículos, a queda nas taxas de juros das operações provocada pela ação da autoridade monetária parece ter chegado ao fim. Dados do BC mostram que os preços dos empréstimos para a compra de automóveis voltaram a subir nas últimas semanas em alguns dos principais bancos do país. O encarecimento do crédito tende a prejudicar o movimento de reação que a modalidade esboçou em setembro.
Em uma grande instituição financeira, o piso das taxas de juros do crédito de veículos saiu de 0,97% em setembro - logo depois do anúncio das medidas - para 1,05% agora, afirma um executivo responsável pela área. Na visão dele, a justificativa para este incremento é o avanço dos custos de captação bancária.
O executivo explica que a recente oscilação da taxa futura de juros - que serve de base para a fixação dos preços dos financiamentos - encareceu o custo do dinheiro para os bancos. Isso dificulta a manutenção das taxas de juros promocionais. "A volatilidade custa dinheiro, e esse custo é repassado no crédito", afirma.
O crédito mais caro pode acabar diminuindo ainda mais a já escassa demanda por crédito de veículos. Em setembro, mês seguinte ao anúncio das medidas, foram desembolsados R$ 15,21 bilhões em empréstimos para compra de veículos, tanto novos como usados, cifra 8,27% maior que no mesmo mês de 2012. A questão é que, enquanto os empréstimos para carros usados avançaram 18,67%, somando R$ 6,74 bilhões, os de novos avançaram apenas 1,19% no mesmo período, para R$ 8,47 bilhões. Os dados são da Cetip, responsável pelo registro das operações de financiamento de veículos.
Na visão de um alto executivo de um banco que atua em crédito de veículos, o avanço dos usados é maior porque são eles que "cabem no bolso" do consumidor agora. O crédito ficando mais caro, portanto, tende a apertar ainda mais essa conta.
Dados do Banco Central já capturam esse ricochete das taxas. Na semana em que entraram em vigor as medidas do BC (20 de agosto) Itaú Unibanco e Santander tinham uma taxa média de juros de 1,69% ao mês e 1,66%, respectivamente. De lá até a primeira semana de outubro, a taxa do Itaú chegou a 1,53% ao mês e subiu novamente para 1,61% no dado mais recente. No Santander, o ponto mais baixo das taxas foi 1,63% e agora elas estão em 1,67%.
Já os bancos públicos têm conseguido segurar a recomposição da taxa. O Banco do Brasil saiu de uma taxa média de 1,62% ao ano antes das medidas do BC para 1,58% em outubro. Na Caixa Econômica Federal, a taxa média foi de 1,57% para 1,5% no mesmo intervalo.
A Caixa, junto com o Banco Pan (ex-PanAmericano), promete anunciar nesta quarta-feira um "acordo de apoio" às concessionárias, que deve ampliar as promoções que os bancos vão oferecer até o fim do mês para o restante do ano. Mais uma vez, segundo o Valor apurou, os bancos vão dar preferência para oferecer boas condições de pagamento para um selecionado grupo de clientes. O alvo são correntistas ou aqueles consumidores que já financiaram algum carro com as instituições.
Entre julho e agosto, o Banco Central lançou mão de uma série de medidas para estimular o crédito, em especial as operações de financiamento de veículos. A principal ação envolveu mudar a regra de remuneração do recolhimento compulsório a prazo, determinando que 60% desse montante ficaria sem remuneração. Para evitar que o dinheiro fique parado, os bancos precisam, entre outras iniciativas, aumentar os desembolsos de crédito de veículos acima da média concedida no primeiro semestre.
O efeito inicial das medidas foi uma série de anúncios dos grandes bancos de taxas de juros promocionais na modalidade. As promoções, porém, eram voltadas a clientes que aceitassem pagar altos percentuais de entrada (no mínimo 60%) e financiar em prazos relativamente curtos (de 12 a 24 meses). O objetivo dos bancos era, com a taxa mais reduzida, atrair a clientela que tem dinheiro investido, e que até poderia pagar o carro à vista.
Ainda assim, setembro foi o mês de melhor desempenho da modalidade no ano. Em agosto, quando parte das medidas do BC já estava em curso, os desembolsos cresceram 4,56% pelas informações da Cetip. Em julho, o avanço havia sido de 5,27%. Nos dois casos, o mercado de usados puxou o desempenho. No acumulado de janeiro a setembro foram registrados R$ 121,8 bilhões em financiamentos na Cetip, uma queda de 3,69% na comparação com 2013.

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