Gestor estrangeiro quer captar no Brasil


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As grandes gestoras internacionais de private equity, que investem na compra de participações em empresas, deixaram de enxergar o Brasil apenas como destino de recursos. Com o fim da euforia com o país e a desaceleração da economia, as firmas estrangeiras agora trabalham para atrair o dinheiro de investidores locais para o exterior.
De olho no potencial do mercado brasileiro, que apenas em fundos possui um patrimônio da ordem de R$ 2,6 trilhões, executivos de duas grandes gestoras internacionais de private equity - a americana Hamilton Lane e a suíça Partners Group - estiveram no país apenas nas últimas semanas. Representantes de outras firmas, como a britânica Pantheon, também vêm ao Brasil com regularidade para encontros com investidores, segundo fontes de mercado.
Atrair esses recursos, no entanto, não é tarefa simples. Além de não ter familiaridade com aplicações fora do país, o investidor brasileiro se habituou com o "ganho fácil" das aplicações vinculadas à taxa básica de juros, hoje em 11% ao ano. Do total de recursos aplicados em fundos, apenas R$ 46 bilhões estão fora do país, de acordo com dados da Anbima, associação que reúne as instituições que atuam no mercado de capitais.
O movimento de busca por alternativas de aplicação fora do país se intensificou justamente a partir de 2012, quando a Selic caiu para 7,25% ao ano e o juro real ficou próximo de zero. Mesmo com a alta recente das taxas, o interesse em investir no exterior se manteve, diante do fraco desempenho dos mercados domésticos.
Das classes de ativos disponíveis, o private equity é o que proporciona maior expectativa de retorno, porém também traz consigo mais riscos e, principalmente, baixa liquidez, outro fator preponderante na decisão de investimento dos brasileiros.
Apesar dos entraves, algumas gestoras de private equity já conseguiram captar recursos no país para seus fundos no exterior. Em maio, a americana Clayton, Dubilier & Rice (CD&R) anunciou o fechamento de um megafundo de private equity de US$ 6 bilhões. Uma pequena parcela do fundo, aproximadamente 5%, foi captada de investidores latino-americanos. Pouco mais da metade dos recursos levantados na região veio de investidores brasileiros, principalmente gestores de fortunas ("family offices").
Com mais de US$ 1,5 bilhão em investimentos na América Latina e com escritório no Brasil desde 2011, a suíça Partners prepara o lançamento do primeiro produto local para o ano que vem. A ideia é oferecer aos clientes brasileiros acesso ao fundo global da gestora, segundo Urs Wietlisbach, cofundador da gestora suíça, que tem pouco mais de € 30 bilhões em ativos. Mesmo com a concorrência das altas taxas de juros no país, o executivo vê oportunidades tão ou mais atrativas no exterior. "Quem tivesse aplicado fora nos últimos anos teria ganho muito mais que a Selic apenas com a variação cambial", afirma.
Apesar dos ganhos potenciais e do efeito da diversificação, a aplicação no exterior só deve mesmo deslanchar a partir da queda da taxa básica de juros, segundo Mario Giannini, presidente mundial da gestora Hamilton Lane. "Percebemos que as pessoas ficaram mais abertas a discutir o assunto quando as taxas caíram para o patamar de 7%", afirma o executivo da firma americana, que possui US$ 31 bilhões sob gestão direta e mais US$ 159 bilhões em assessoria de investimentos.
Para Giannini, a trajetória natural do investidor no exterior é começar em aplicações de renda fixa, depois em ações, para enfim arriscar a alocação em private equity. "No Brasil, precisamos pular os passos um e dois", afirma o executivo, que esteve no Brasil na semana do primeiro turno das eleições. A Hamilton Lane já possui recursos de brasileiros investidos em seus produtos no exterior, e em abril deste ano fechou a captação de um fundo local de R$ 145 milhões, mas para investir no país.
Os fundos de pensão seriam os investidores em potencial de private equity no exterior, mas ainda encontram barreiras, tanto regulatórias como culturais, para alocar recursos no exterior, segundo a advogada Marina Procknor, sócia do escritório Mattos Filho. As regras exigem que as fundações invistam a partir de um fundo constituído no Brasil, do qual podem deter, no máximo, 25% do patrimônio.
Do lado cultural, ela aponta a exigência dos grandes fundos de pensão de participarem dos comitês de investimento dos private equity, algo que não ocorre no exterior e que não é bem visto pelos gestores. "Essa prática começa a mudar, mas só para os gestores com atuação local e com quem as fundações já têm relação", afirma a advogada.

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