Filantropia de jantar


Algumas semanas atrás, realizou-se um fulgurante jantar beneficente, com traje a rigor, no Lincoln Center de Nova York, para captar recursos para projetos sociais, educativos e culturais focados nas mulheres. Não é de surpreender: com o outono em curso em Nova York, exuberantes jantares filantrópicos acontecem todas as noites.
Ótima mateiria valor econômico
O evento no Lincoln Center foi típico do gênero: hordas de mulheres altas e magras desfilando em caros vestidos de noite, como lustrosas girafas humanas; comida medíocre, champanhe barato e uma enxurrada de discursos comoventes que levaram os ricos convivas a se comprometer a fazer doações polpudas.
Esse jantar em especial, no entanto, teve um notável toque destoante. A entidade assistencial festejada naquela noite era a Brazil Foundation, grupo que faz um trabalho louvável com mulheres em lugares como o Rio de Janeiro. Americanos ricos, mas também brasileiros - e foram estes últimos que fizeram desembolsos de maneira mais ostentosa.
Em 2013 as fundações americanas desembolsaram cerca de US$ 55 bilhões, uma alta em relação a 2012 quando foram US$ 52 bilhões. E o mais interessante é que nada indica que esse padrão tenha sido minimamente afetado pela crise financeira
"Este é um evento muito brasileiro!", me explicou, orgulhosa, uma organizadora, em meio à cacofonia do barulho. (Ao contrário de um jantar filantrópico nova-iorquino "comum", o público brasileiro não vê nada de errado em falar alto durante os discursos comoventes; o silêncio respeitoso, abafado, no jantar é, aparentemente, pecado mortal).
Bem-vindos a todo um novo ângulo da globalização. Algumas décadas atrás, a ideia de brasileiros realizarem um jantar beneficente em prol de uma "fundação" era quase inteiramente inaudita. Enquanto as fundações são parte integrante do tecido social da elite americana, a filantropia nos países de mercados emergentes tradicionalmente é feita de uma maneira mais individualista, ad hoc, ou por meio de instituições religiosas.
Nestes tempos, no entanto - como minha ex-colega Chrystia Freeland habilidosamente descreveu em seu livro "Plutocratas" -, a globalização está criando uma superelite internacional tanto nos mercados emergentes quanto no mundo desenvolvido. E, uma vez que essa elite tem atualmente padrões de estilo de vida cada vez mais semelhantes - independentemente de morar em Londres, Zurique, Cingapura, Nova York ou São Paulo -, a ideia de filantropia ao estilo americano se dissemina também.
Se rastrear essa tendência com precisão nos Estados Unidos é difícil, no restante do mundo, então, nem se fala. Mas o Foundation Center de Nova York, uma organização de pesquisa em filantropia, reuniu recentemente dados estatísticos. Eles sugerem que no ano passado as fundações americanas desembolsaram aproximadamente US$ 55 bilhões, uma alta em relação aos US$ 52 bilhões doados em 2012 e quantia correspondente a quase o dobro de uma década atrás. E o mais interessante é que nada indica que esse padrão tenha sido minimamente afetado pela crise financeira: pelo contrário, embora o nível de atividade das fundações tenha se reduzido um pouco em 2009, inchou em todos os demais anos.
Mas o que também surpreende, segundo o Foundation Center, é que o setor filantrópico esteja se propagando para o mundo conhecido como o dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). "Novas fundações de todos os tipos, familiares, comunitárias e corporativas, bem como as que os americanos considerariam fundações operacionais - foram criadas a um ritmo acelerado nos países dos mercados emergentes", como escreve a analista de pesquisa Joan Spero num relatório do Foundation Center.
O estilo operacional dessas fundações varia amplamente: grupos filantrópicos da China e da Rússia são estreitamente controlados pelo governo e tendem a restringir suas atividades a questões não controversas; as fundações na Índia e no Brasil se sentem mais capazes de abordar questões sociais e políticas.
Mas os grupos estão ficando mais bem organizados. Cerca de 152 novas organizações em 56 países se associaram recentemente para formar uma aliança de apoio conhecida como Worldwide Initiatives for Grantmaker Support (Wings). O Foundation Center estima que cerca de metade de todos os novos grupos filantrópicos que brotaram desde 2000 surgiram no assim chamado "sul do mundo".
Será isso uma coisa boa? Alguns céticos poderão argumentar que não - ou não totalmente. Afinal, um dos motivos fundamentais pelos quais a filantropia está inchando é o fato de os ricos do mundo estarem se tornando tão mais ricos (como destaca Thomas Piketty em observação célebre). Isso lhes dá mais poder de fogo para fazer doações; também lhes dá motivos para buscar formas de aplacar a insatisfação popular.
Críticos de esquerda tendem a argumentar que seria melhor se o mundo fosse menos desigual, para começar; e, em países como a Suécia há a forte premissa cultural de que é o governo (e não os ricos com sentimento de culpa) quem deveria ajudar aos pobres.
Mas para esses milhares de almas admiravelmente devotadas que atualmente trabalham nessas fundações - ou para esses ricos doadores que disseminam sua generosidade -, essas críticas fogem ao sentido exato da questão. Um mundo em que as pessoas ricas são convencidas a distribuir parte de seu dinheiro, argumentariam elas, é melhor do que um mundo em que essas pessoas não dão absolutamente nada. E a maioria dessas fundações atendem necessidades tangíveis e melhoram a vida de pessoas que, de outra forma, não receberiam qualquer ajuda.
O trabalho da Brazil Foundation é apenas um exemplo. De qualquer maneira, enquanto a elite endinheirada continuar enriquecendo, e os Estados Unidos continuarem sendo uma poderosa força econômica e cultural, essas fundações tendem a se espalhar, juntamente com os jantares beneficentes formais. Meu único desejo é que esses rituais tenham todos uma música tão agradável e fácil de lembrar quanto o exuberantemente barulhento evento brasileiro de que participei. Infelizmente, no entanto, temo que essa seja apenas uma moda que pode não pegar. (Tradução de Rachel Warszawski)
Gillian Tett é comentarista de Finanças do FT

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