'Shadow banks' na China'

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Para muitos analistas e observadores, as reformas econômicas na China têm sido notáveis, embora não tenham ocorrido ao mesmo passo que os outros segmentos da economia. O governo chinês, além de controlar artificialmente as taxas operadas pelos bancos, parece oferecer garantias implícitas de que perdas com créditos inadimplentes serão custeadas pelo próprio Estado, quer por meio de maior endividamento público, aumento da oferta monetária ou por maior repressão financeira. Qualquer estrutura de resgate dos bancos, ao final, será suportada pelas próprias famílias chinesas, por meio da transferência de renda desse segmento para os bancos.
O risco moral se evidencia quando empresas estatais, independente de suas condições financeiras, recebem financiamentos com base na premissa de garantias implícitas do próprio controlador ou do governo chinês. O problema se agrava quando os sinais políticos clamam por um crescimento econômico maior e governos locais ou outros tomadores de recursos desassistidos pelos principais bancos buscam recursos em instituições que ficam à margem da regulamentação, o segmento dos "shadow banks".
Como a repressão financeira limita a remuneração dos poupadores, empresas de trusts, por vezes ligadas a bancos comerciais, oferecem os conhecidos "Wealth Management Products" - WMPs - para poupadores com remuneração acima do teto imposto pela autoridade monetária (People's Bank of China). Os recursos são canalizados, então, às entidades sem acesso ao sistema creditício convencional para financiar projetos que são rejeitados.
Se dos novos investimentos não resultarem fluxos de caixa suficientes, a necessidade de desalavancagem do setor corporativo se tornará realidade, colocando o cenário de "soft landing" da economia chinesa para os próximos anos em patamar arriscado
O problema maior é que ao investir nesses WMPs, estimados em US$ 1.2 trilhão, a população chinesa aposta no fato de que, por serem vendidos nas agências dos bancos, esses produtos estariam garantidos independente da qualidade dos ativos que os lastreiam. Na prática, apesar de não haver nenhuma legislação ampla sobre o tema, o regulador já obrigou os bancos a cobrir as perdas envolvendo alguns WMPs.
Em posse destes WMPs, muitas vezes os emissores os agrupam em um pool que tem como lastro diversos projetos de infraestrutura, de empreendimentos imobiliários, empréstimos para pequenas e médias empresas, governos locais, e até mesmo empréstimos que foram "rolados" pelos próprios bancos. Esse último ativo é incluído também para limpar o balanço dos bancos, securitizando um ativo que provavelmente não será mais honrado.
Concluído esse agrupamento de ativos, o estruturador emite um "asset backed wealth management product" (ABWMP). Essa securitização de WMPs torna mais difícil para os investidores saberem o nível de risco a que estão expostos. Assumindo que parte dos empréstimos inadimplentes dos bancos comerciais são utilizados como lastros desses WMPs e ABWMP, percebe-se quão inócuas podem ser as informações oficiais relativas à qualidade da carteira de crédito dos bancos chineses.
O ponto de conexão entre esses dois segmentos, "shadow banks" e sistema bancário oficial, se verifica quando a emissão dos WMPs de curto prazo utiliza como lastro ativos de longo prazo. O risco se dá em caso de falta de liquidez para a rolagem dos WMPs, tendo o banco que utilizar linhas do interbancário para cobrir eventual escassez de recursos, potencializando assim o risco de contágio de um segmento para o outro.
O risco de crise bancária está descartado, dada a impossibilidade de os poupadores investirem em outros países ou serem protagonistas de uma fuga de capital, colocando todo o sistema financeiro em xeque. Mas uma eventual onda de falências de projetos financiados via WMPs não será gratuita, ainda que não de proporções épicas, como a dos EUA de 2008.
Entretanto, mais uma vez, a solução se dará provavelmente via maior repressão financeira, o que significa menor renda disponível para consumo, o que postergará ainda mais o tão necessário rebalanceamento do modelo econômico chinês.
Com uma alavancagem financeira da ordem de 250% do PIB em 2013, se desses novos investimentos não resultarem fluxos de caixa suficientes, a necessidade de desalavancagem do setor corporativo se tornará uma realidade, colocando o cenário de "soft landing" da economia chinesa para os próximos anos em um patamar mais arriscado.
Na hipótese de que alguns WMPs não sejam honrados, os investidores provavelmente correriam para e não dos bancos comerciais, dada a falta de alternativas. Há de se avaliar que tipo de banco testemunharia o chamado "flight to quality" e quais seriam os que mais sofreriam. Certamente os principais bancos estatais teriam o menor nível de risco. O mesmo não se pode afirmar em relação aos bancos considerados de 2ª linha, os quais provavelmente passariam por um aperto maior de liquidez.
Roberto Dumas Damas é mestre em economia chinesa pela Fudan Univeristy (China), Professor de economia chinesa no curso Economia & Política de Educação Executiva do Insper, e autor do livro "Economia Chinesa: Transformações, rumos e necessidade de rebalanceamento do modelo econômico da China".

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