Ao recusar reeleição, Marina acena ao PT


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Ao anunciar a decisão de não disputar novo mandato caso seja eleita presidente da República em outubro - decisão inédita no país desde a aprovação da reeleição -, Marina Silva (PSB) abre um leque de oportunidades para aliados e adversários e estimula os partidos a darem início à construção de candidaturas para 2018.
A informação, dada com tanta antecedência, antes de ganhar a eleição e assumir o governo, tem, segundo avaliam círculos próximos a Marina, endereço certo: é gesto em direção ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não quis voltar agora, apesar do movimento do PT a seu favor, e tenta reeleger Dilma Rousseff, mas é nome na chapa petista em 2018, segundo ele próprio já anunciou. Marina, com a antecipação, avisa que não disputará com ele.
Outro endereço a que está dirigida a informação é o do PT, que lutou por Lula em 2014, não considera Dilma petista de raiz, e não concordaria em ficar oito anos fora do poder caso Marina fizesse bom governo e pudesse ser reeleita.
Diante das incertezas em relação à gestão de Marina, os partidos não descartam surgimento de novos protagonistas. Dirigentes do PMDB avaliam que o partido terá mais influência em um governo de Marina do que tem hoje, mesmo ocupando a Vice-Presidência da República com Michel Temer. "Marina não tem ninguém. Ela vai precisar construir acordos no Congresso, onde o PMDB reina. O PMDB ficará mais importante se Marina ganhar", diz um líder do partido.
O discurso da candidatura própria à Presidência em 2018 foi retomado por Temer em evento do PMDB no Rio Grande do Sul, sexta-feira. Mesmo sem ter um nome natural, em um governo de Marina os pemedebistas estarão mais à vontade para iniciar articulações de plataforma de governo e candidato próprio.
A pouco mais de um mês das eleições, envolvidos nas campanhas de Dilma, do senador Aécio Neves (PSDB) e de Marina negam-se a especular, abertamente, sobre o cenário político resultante de eventual vitória da ex-ministra. Para seus aliados, seria subir no salto alto e para os adversários, jogar a toalha. Mas o desempenho de Marina nas pesquisas alimenta análises do cenário nos bastidores das campanhas. "O quadro político é inimaginável se Marina ganhar. Vai depender do resultado individual de cada partido na eleição. Cada um pode ir para um lado, mas todos devem se assanhar a lançar candidato", diz um tucano.
No campo das oposições, uma das apostas é na fusão do PSDB com o DEM e outras legendas mais identificadas com o ideário liberal. Sem a reeleição, um governo de quatro anos não é tempo tão longo que cause desmobilização completa das forças de oposição. Mas lideranças do DEM dizem que "o alinhamento em torno de outra candidatura de Aécio não é automático". Para um deles, "se Marina ganhar a eleição, terá um quadro novo no Brasil inteiro, imprevisível e nenhuma análise pode se basear no raciocínio clássico". O DEM precisa eleger Paulo Souto governador da Bahia, para ter cacife em qualquer negociação.
Uma avaliação é que, eleita como inovadora, Marina terá de propor entendimento aos partidos - nos moldes da "concertación" que conduziu a redemocratização do Chile - para aprovar a reforma política. Assim, todos os partidos teriam lideranças com visibilidade ao longo do seu governo.
Com base nas regras em vigor, nos personagens atuais e na manutenção da aliança de Marina com o PSB - o que poucos consideram provável -, ela terá dois caminhos, mantida a promessa de não disputar reeleição. Um deles é não disputar outro mandato e permanecer no cargo até o fim. Se a gestão estiver bem avaliada, terá máquina e popularidade para alavancar a candidatura do sucessor. Outra opção é se desincompatibilizar meses antes da eleição, para concorrer a outro cargo. O vice, Beto Albuquerque, assume e se torna, para o PSB, candidato natural.
Há, ao redor de Marina e nos partidos com experiência de poder, descrença quanto a várias dessas intenções. Uma das mais óbvias é que a promessa de não reeleição é conversa para dar tranquilidade, agora, aos candidatos de 2018. Mas que, uma vez no cargo, seus próprios assessores, aliados e partido não a deixarão abrir mão da prerrogativa. Outra é que, se for bem avaliada, não vai se desincompatibilizar para disputar outro cargo podendo ser reeleita presidente. "Não sejamos ingênuos. Ela falou isso porque precisa de voto para eleição. Se o povo pedir, será candidata", disse um aliado.
Se quiser acabar com o princípio da reeleição, Marina deverá sofrer pressão também das forças políticas dos Estados. A cada eleição, ao retomarem suas atividades no Congresso, parlamentares ensaiam propor o fim da reeleição, tal o desequilíbrio que o candidato com a caneta à mão provoca na campanha. Mas encontram, do outro lado, o obstáculo do eleito para o primeiro mandato que, chegada a sua vez, não quer abrir mão da chance de continuar.

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