ETF na ativa



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Tatiana Grecco, superintendente de fundos indexados da Itaú Asset Management: gestores, especialmente os com uma estrutura mais enxuta, estão de olho nos menores custos dos ETFs
Longe de estarem popularizados, os chamados ETFs (sigla em inglês para Exchange Traded Funds), fundos de índices cujas cotas são negociadas em bolsa, caminham para um novo tipo de utilização no Brasil. A adoção do instrumento financeiro, que encontra nos investidores institucionais a maior demanda, começa a ser vista como uma possibilidade para a gestão ativa do patrimônio, ou seja, para viabilizar um retorno superior ao índice ao qual está atrelado. Por essência, os ETFs são procurados por investidores que buscam retornos vinculados a referenciais como o Ibovespa - que responde pelo principal ETF no mercado brasileiro, o BOVA11 -, o que caracteriza uma gestão passiva.
Ainda que o mercado de ETFs esteja engatinhando no Brasil, ao responder por apenas 1,2% da movimentação da Bovespa em maio, alguns gestores começam a enxergar potencial para alcançar retornos mais altos via arbitragem de preços e assumindo mais riscos. Esse é o caso da Horus Investimentos, gestora que administra R$ 185 milhões, dos quais cerca de R$ 20 milhões vinculados a ETFs. Segundo o gestor Otávio Monteiro, a instituição utiliza os instrumentos com duas finalidades distintas: para alugá-los ou fazer arbitragem.
Nessa segunda opção, uma das alternativas utilizadas consiste em estar posicionado em pontas opostas (na compra, apostando na alta, e na venda, quando a perspectiva é de queda) em ETF vinculado ao Ibovespa e no próprio índice futuro.
Há ainda a estratégia fundamentada em apostas contrárias sobre o IBrX-50 - índice composto pelos 50 papéis mais líquidos da Bovespa - e o chamado "PIBB11", que corresponde ao ETF cujo retorno está atrelado ao indicador.
"Se o investidor quer ficar 'short' na bolsa, ao invés de ficar vendido no Ibovespa, ele acaba alugando o ETF para apostar na queda. Isso tem acontecido bastante", diz Monteiro. "Não existe mais moleza para ter rentabilidade, o que favorece a busca por esse tipo de ativo."
A opinião é compartilhada por Eduardo Dias, sócio-gestor da Platinum Capital, gestora com R$ 110 milhões em carteira, dos quais R$ 12 milhões atrelados a ETFs. Há cerca de quatro meses, a instituição começou a fazer uma divisão do seu portfólio e passou a utilizar os fundos de índices como forma de adotar uma posição passiva. Satisfeita com o resultado, a Platinum diversificou a estratégia e começou a utilizar os ETFs para apostas táticas setoriais. "Por ser uma réplica do índice, o ETF deixa o hedge [proteção] mais perfeito, mais preciso", diz o sócio-gestor.
Segundo ele, a estratégia da Platinum Capital tem sido implementada dentro de fundos abertos. "Usamos o ETF para regular a exposição a risco do fundo. É uma forma muito fácil. Temos aumentado essa estratégia dentro das carteiras e estamos muito satisfeitos", diz Dias, que também considera as taxas do mercado de aluguel muito interessantes e, nesse caso, tem preferência pelo ETF vinculado ao Ibovespa.
Ainda que os institucionais sejam o principal público dos ETFs, a procura por retornos diferenciados via estratégias que utilizam esses instrumentos tem partido dos investidores pessoa física, que contam com custos atrativos de investimento. A taxa de administração dos ETFs que seguem o Ibovespa, por exemplo, corresponde a 0,54% ao ano, ante taxa média de 1,96% dos fundos de ações, segundo os dados mais recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
A superintendente de fundos indexados da Itaú Asset Management, Tatiana Grecco, que participou recentemente de um workshop da indústria de ETFs em Nova York, nota uma evolução no uso dos instrumentos financeiros. Segundo ela, a mudança para a modalidade gestão ativa foi impulsionada pela oferta dos produtos de alocação de recursos em ativos e de fundos de fundos, que viram nos ETFs uma forma dinâmica e conveniente de materializar as expectativas de retorno nos diversos mercados e setores da economia.
"Os ETFs estão evoluindo ao longo do tempo, sendo usados como ferramenta de trading, especialmente por tesourarias, com posições mais especulativas. Além disso, têm sido foco de outros players do mercado, com finalidades diferentes, como gestores de fundos", diz a superintendente.
Para ela, o Brasil começa a entrar num estágio já superado pelo mercado americano de utilização do ETF como instrumento de gestão, primeiramente para fazer zeragem de caixa. Em momentos de transição de carteiras, por exemplo, os gestores aplicam recursos em caixa em ETFs para evitar o risco de ficarem descolados dos índices referenciais e a migração para instrumentos de renda fixa.
"O ETF é um instrumento fácil de ser negociado, então os gestores estão usando para zeragem de caixa", diz Tatiana. Mas, segundo ela, ainda são poucas as casas que estão adotando a estratégia no país e destaca que essas instituições contam com estruturas mais enxutas de gestão.
"Essas casas estão de olho em menores custos até por uma questão de estrutura. É uma forma de oferecem sua experiência, de olhar operações diferenciadas", afirma a superintendente, que ressalta que essas instituições têm sido importantes para difundir os produtos indexados aos investidores pessoa física.
Casas maiores, contudo, também começam aos poucos a revelar estratégias diferenciadas com os ETFs. A Santander Corretora, por exemplo, sugeriu aos clientes em sua "carteira dinâmica" da semana passada a adoção de posições "vendidas" no ETF vinculado ao Ibovespa, com vistas ao hedge da carteira, ou seja, a proteção em caso de baixa da bolsa.
Já no exterior, que tem um mercado muito mais maduro de ETFs, Tatiana assinala que começa a ser vista a diversificação da alocação de recursos com ênfase na seleção dos melhores segmentos.
"Muitas vezes, a instituição não tem uma equipe de pesquisa grande, mas tem uma aposta para determinada região. E uma boa forma para acessá-la é via compra de ETF de mercado emergente. O gestor coloca isso no fundo e já tem uma diferenciação em relação à categoria de investimento tradicional, como o mercado local", comenta. "No exterior, há uma série de produtos baseados em ETFs, o que dá a possibilidade de criar produtos com risco de perda limitada, capital protegido e estruturas mais complexas, o que ainda é bem tímido aqui no Brasil."
A Itaú Asset tem R$ 35 bilhões sob gestão em estratégias de ETF. José Euclides de Mello Ferraz, superintendente de pesquisa quantitativa da casa, fornece ferramentas para os gestores operarem e, desde 2007, faz a gestão de dois fundos quantitativos, com estratégias automatizadas.
Ferraz chama atenção para as vantagens de hedge com o uso dos ETFs em suas estratégias, com a alocação em uma carteira de ações por meio dos instrumentos na proporção adequada, possibilitando uma estratégia direcional para determinado segmento de mercado.
Uma das estratégias básicas da gestora do Itaú parte da arbitragem, com a venda a descoberta do ETF atrelado ao IBrX-50 e uma posição contrária no índice. "O robô olha as arbitragens entre esses mercados, comprando um e vendendo o outro. São instrumentos diferentes que refletem a mesma carteira", destaca o superintendente.
Há também a estratégia conhecida como "risk parity" (paridade de risco), que consiste em ajustar os tipos e volumes de ativos em carteira de acordo com a oscilação dos seus preços. "Usamos uma formulação matemática que permite calcular qual a contribuição de cada ativo na cesta. Queremos por imposição que cada ativo tenha a mesma contribuição de risco, assim, quando há uma variação de preço, o retorno tem que ser parecido", explica Ferraz. Nesse tipo de estratégia, o ETF é um dos ativos utilizados, numa carteira que ainda pode ter exposição a moedas, câmbio, inflação, entre outros. O objetivo é que todos contribuam com a mesma fração de risco na carteira.

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