O brilho acabou?



Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Luiz Eduardo Portella, da Modal Asset: gestora trocou a aposta de alta no preço do ouro pela de baixa neste ano
O primeiro semestre ainda nem acabou e analistas já apostam que 2013 marcará a primeira queda anual do ouro desde 2000. A velocidade e a intensidade das perdas até agora, depois de um período prolongado de alta, sustentam a tese. O metal precioso perdeu 17,3% de valor na Bolsa Mercantil de Nova York neste ano, até 21 de maio, para US$ 1.376 a onça-troy, o equivalente a 31 gramas. Poucos meses depois de fechar 2012 em US$ 1.663, com perspectivas bastante otimistas para 2013, analistas internacionais consideram que pressões vendedoras devem impedir que o ouro ultrapasse a marca de US$ 1.400 neste ano.
Aos olhos do brasileiro, a virada é ainda maior. Em 2012, enquanto o ouro subia 8,6% em Nova York, ganhava 15,3% aqui, de carona na valorização do dólar. Assim, ficou entre as melhores opções de investimento no ano passado, à frente do Ibovespa, com ganho de 7,4%, e do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), com 8,4%. Em 2013, entretanto, sem a forcinha da moeda americana - pelo menos até agora -, o contrato mais líquido no mercado à vista da BM&FBovespa, de 250 gramas, acompanhou a derrocada internacional, com perda de 17,4% até o dia 21. Muito pior do que o principal índice da bolsa brasileira, com queda de 7,7%, e do que o CDI, que avançou 2,6% no período.
As incertezas sobre a economia mundial no pós-crise de 2008 fomentaram a última corrida para o ouro. Para se ter uma ideia, o grama do metal na BM&FBovespa, que custava R$ 63,95 ao fim de 2008, chegou a R$ 109,50 no último dia de 2012. Com a queda recente, fechou a última terça-feira em R$ 90,50.
Foi a mudança de postura do Banco Central dos Estados Unidos, com a sinalização da retirada gradual dos estímulos à economia, que causou a virada do ouro na opinião de Luiz Eduardo Portella, sócio-gestor da Modal Asset. Isso porque, em tempos de expansão monetária, o metal foi cobiçado como uma armadura contra a inflação futura. "Mas, após anos de estímulo monetário, a inflação não veio. Houve, sim, foi um mundo muito deflacionário", afirma Portella. Um discurso mais moderado, antes mesmo de um aumento no nível geral de preços, diz, disparou o desmonte de posições 'compradas' em ouro.
Para Portella, a perda de brilho do ouro veio para ficar. "Ainda que o BC americano tenha sinalizado que, se a economia não se recuperar, pode manter os estímulos, a inflação não veio e não está no horizonte próximo" diz. Sem preços em alta e diante de sinais de melhora da economia, os investidores se sentem à vontade para retirar recursos de ativos considerados reservas de valor, como o ouro, e se aventurar em outras searas, como a bolsa, esvaziando o mercado do metal. A alta das bolsas internacionais é reflexo desse movimento.
A Modal mantinha ouro desde 2010 no fundo multimercado macro da casa. Neste ano, entretanto, passou a se posicionar contra o ativo. "No momento estamos 'vendidos', apostando que o ouro vai voltar para as mínimas nos próximos meses", afirma Portella. Tal estratégia pode ser identificada também no exterior. Ajudou a dar gás à queda recente do ouro a informação de que o megainvestidor George Soros vem reduzindo drasticamente suas posições em ouro.
Ainda no universo da gestão, colaborou para ofuscar o brilho do metal o noticiário das perdas do investidor John Paulson, que ganhou fama ao prever a reversão do boom no mercado imobiliário americano. As perdas de seu fundo de ouro, com patrimônio de US$ 700 milhões, são estimadas em 47% até abril, reforçadas pela alavancagem, conforme informações da "Reuters". Outro megainvestidor, Warren Buffett, sempre foi um opositor do ouro, que ele chama de 'ativo não produtivo'.
Em relatório divulgado recentemente, o Bank of America Merrill Lynch (BofA) considerou que o ciclo põe o ouro em uma "posição desconfortável". Taxas de crescimento mais elevadas, retornos nominais crescentes e a pressão inflacionária controlada, escrevem os analistas, têm limitado o investimento no metal.
Em outro texto, divulgado no dia 17 de maio, o BofA considerou que o preço do ouro continua a caminho de seu suporte, que estima entre US$ 1.303 e US$ 1.263 a onça-troy (31,1 gramas). Pela análise gráfica, essa seria a faixa em que o interesse em comprar o ouro se tornaria suficientemente forte para impedir o preço de cair mais, podendo inclusive dar início a uma pressão de alta. Mesmo que isso ocorra, estimou o banco, o preço do ouro na Bolsa Mercantil de Nova York não deve passar muito de US$ 1.400.
Esse mesmo nível de preço representa uma resistência, atraindo vendedores, na opinião de Marc Ground, analista do Standard Bank, conforme relatório divulgado ontem. Bem diferente do clima do fim do ano passado, quando mergulhos abaixo de US$ 1.700 eram considerados em relatórios do banco como oportunidades de compra. O patamar de US$ 1.400 pode até ser ultrapassado no curto prazo, em um "rali de alívio" diante do discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), diz o relatório. Ben Bernanke sinalizou ontem a manutenção dos estímulos monetários à economia americana. Os preços devem continuar sob pressão, ressalva o Standard Bank, com os participantes do mercado inferindo sinais de um fim próximo das políticas expansionistas. Em outro relatório recente, o banco considera que apenas um preço inferior a US$ 1.360 é uma "razoável oportunidade de compra".
Em relatório divulgado ontem, a BlackRock também considerou que o momento está bom para ações e ruim para o ouro. A gestora global fundamenta tal afirmação no fato de não enxergar uma inflação mais alta no horizonte. A expectativa de que o nível de preços subiria, diante da política expansionista do banco central americano, não se confirmou. E esse quadro, considera, deve persistir. Como os investidores vão estar menos inclinados a buscar proteção contra a inflação, escreve a BlackRock, é provável que o ouro assuma preços mais baixos.
"Com a situação econômica gradualmente melhorando, tanto nos EUA quanto na Europa, a tendência é que cotações não tenham mais muito gás", diz o administrador de investimentos Fabio Colombo. Para ele, isso não significa, porém, que seja hora de zerar o metal no portfólio. "O ouro deve estar sempre no radar de quem tem grande quantidade de recursos, principalmente se for conservador", afirma. Como costuma se movimentar em sentido contrário ao de mercados como o de ações, o metal funciona como um amortecedor de perdas em momentos de crise. É claro que, quando a incerteza passa, o desempenho do ouro também pode voltar a decepcionar alguns aplicadores.
Para quem investe em ouro no Brasil, o câmbio pode, no mínimo, começar a aliviar as perdas a partir de agora. Isso porque há uma perspectiva de desvalorização do real. A balança comercial pressionada e a valorização do dólar frente às principais moedas do mundo apontam para esse caminho, diz Colombo, ainda que haja em contrapartida uma preocupação quanto ao efeito do dólar forte sobre a inflação. Os últimos movimentos da cotação já vêm sustentando essa tese, com um avanço da moeda americana sem que o Banco Central reaja.
É muito difícil que o ouro feche o ano em alta, concorda Edson Magalhães, gerente de operações da Reserva Metais, que comercializa o metal no Brasil. Para ele, a expectativa da venda de reservas de ouro no mercado internacional pelo Chipre, para resgatar o país da crise financeira, foi o que precipitou a desvalorização. Magalhães avalia, entretanto, que a proximidade dos preços em relação ao suporte indica que esse não é o melhor momento para vender o metal. Ele defende ainda que a incerteza não acabou. "As condições que eram um combustível para a alta do ouro nos últimos cinco anos permanecem inalteradas, como a desconfiança com relação à capacidade dos países europeus de honrarem suas dívidas", afirma.
Ainda que o pior da crise pareça ter ficado no passado, há muitas questões a serem solucionadas, concorda Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama. A butique de investimentos lançou em dezembro do ano passado um fundo que investe no mercado à vista de ouro na BM&FBovespa. Para ela, é preciso considerar a baixa correlação do portfólio com outros ativos, como ações. "É um produto para composição da carteira. Especular é muito perigoso, é preciso usá-lo para diversificação ou proteção", recomenda.

PARCEIROS E COLABORADORES UTILIZAM:

.