Renda fixa cada vez mais variável



Que a renda fixa anda oscilando muito mais é algo que os investidores já vinham sentindo na pele desde o ano passado. Mas, desde março, os altos e baixos dos títulos públicos mais longos ganharam contornos ainda mais impressionantes. A volatilidade das Notas do Tesouro Nacional série B principal (NTN-Bs) mais longas se equiparou e chegou a superar, no começo deste mês, a do Índice Bovespa, principal referencial do mercado de ações brasileiro. Segundo cálculos do economista Marcelo d'Agosto, do blog "O Consultor Financeiro", nos primeiros dez dias de abril a volatilidade média das NTN-Bs que vencem em 2035 chegaram a superar a casa dos 20% ao ano, enquanto a do Ibovespa girou em torno dos 17% (veja gráfico). Algo semelhante ocorreu com o papel que vence em 2050. O movimento só foi interrompido na segunda-feira, quando uma enxurrada de más notícias derrubou o Ibovespa em mais de 3,5% num só dia.
Desde janeiro, quando os agentes do mercado passaram a contar com uma alta da Selic ainda no primeiro semestre, a agitação começou a ser bastante visível na renda fixa. Para d' Agosto e outros gestores, no entanto, mais recentemente o mercado passou a ficar muito mais sensível a qualquer passo ou fala de membros do governo e do Banco Central (BC), ampliando a magnitude da volatilidade. Isso porque, embora exista desde fevereiro algum consenso de que a Selic vai subir, não se sabia ao certo quando e quanto. Outro fator que agravou o problema foram os resgates registrados em fundos que investem nestes papéis, nos primeiros dez dias de abril.
A NTN-B é um título que paga a variação da inflação mais uma taxa de juros prefixada (um juro real, portanto) e passou a ser muito demandada tanto por fundos de investimento quanto por aplicadores individuais, sobretudo durante o ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic), iniciado em agosto de 2011. Quando as expectativas do mercado para a Selic mudam, seja por um novo indicador ou porque a fala de algum membro do governo é interpretada como uma sinalização, os contratos de juros negociados no mercado futuro são imediatamente impactados - influenciando também as NTN-Bs.
"A volatilidade dos papéis mais longos já chegou a superar a do Ibovespa", admite Damont Carvalho, sócio responsável pela gestão de fundos macro na Claritas Investimentos. "Em março, chegou a abrir uma diferença de mais de 100 pontos-base, o que, num papel com vencimento em 40 anos tem um impacto forte."
Na prática, isso se traduz em perdas que chegam a cerca de 6% no acumulado deste ano para quem comprou o papel diretamente. No caso dos fundos, a categoria que mais concentra esses títulos, a dos renda fixa índices (ou 'fundos de inflação') perde, em média, 0,35% no ano até dia 10. Algumas carteiras, no entanto, chegam a prejuízos de 4% - ou mais em casos isolados, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Vale lembrar que, no passado, esses papéis tiveram altos rendimentos, que sustentam os ganhos nos últimos 12 meses. No caso dos títulos mais longos comprados diretamente, a alta nesse período ainda é de cerca de 20%. Nos fundos, o ganho médio é de 14,6%.
Esses altos e baixos são típicos de aplicações mais voláteis, ou seja, mais suscetíveis a movimentos bruscos e menos previsíveis, algo com o que os investidores aqui ainda não se acostumaram na renda fixa. Os saques nos primeiros dez dias do mês alcançaram cerca de R$ 3,3 bilhões, o que, para alguns gestores, acentuou a volatilidade. "Quando os investidores pedem resgate, os gestores tem de ir ao mercado vender o papel e isso acaba contribuindo para reduzir o preço", afirma Ronaldo Patah, superintendente de renda fixa da Itaú Asset Management.
Para Damont Carvalho, da Claritas, o mercado ainda está tentando se adaptar à maneira de o BC se comunicar, o que motiva em grande parte o sobe e desce dos juros futuros. "Há muito ruído. Isso aumenta a volatilidade e leva muita gente até a reduzir posições." Até que esses ruídos diminuam, diz, a tendência é que as oscilações continuem ao sabor de interpretações.
E no curto e médio prazos, o ritmo das oscilações vai continuar? Para o diretor de renda fixa e multimercados da Bradesco Asset Management, Reinaldo Le Grazie, a tendência é que o mercado se acalme. "Considerando tudo que aconteceu esses dias, nas próximas semanas as condições estão dadas para normalizar esse mercado. Acho que o BC não vai perder a oportunidade de administrar esse processo", disse o executivo. Vale lembrar que hoje sai a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). Para Le Grazie, o movimento de volta das NTN-Bs também foi de certa forma natural. "Essas coisas acontecem de tempos em tempos. Vimos um fechamento de taxa de juros fenomenal, esses papéis andaram muito no ano passado."
Para Patah, do Itaú, as sinalizações de que o juro subirá hoje aumentaram nos últimos dias, o que ele considera positivo para conter a volatilidade no curto prazo. Mais para frente, porém, ele acredita que novas fontes de estresse podem surgir. "Esse 1 ou 1,5 ponto de alta poderá não ser o suficiente pra segurar essa inflação e, eventualmente, vai ter que subir de novo em 2014." Isso, avalia, faz com que a curva de juros não tenha motivos para cair, o que não beneficia os papéis. Segundo ele, saber se é hora de sair deste tipo de investimento depende muito de cada caso ou objetivo específico, mas o que a instituição tem recomendado é que não se adote uma superexposição à estratégia com papéis de inflação. "É para ser uma diversificação, mas a decisão sempre depende do perfil de cada um."

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