Hyundai tem ambição de ficar entre as líderes no país



Regis Filho/Valor
Sung-Woo Kang, presidente: "Estrutura e pós-venda são a nossa vantagem nesse mercado, cada vez mais competitivo"
Com um perfil discreto, o primeiro presidente para o Brasil da Hyundai Heavy Industries, Sung-Woo Kang, tem como principal desafio posicionar a empresa entre as principais fabricantes de máquinas de construção no país. O mercado de máquinas de linha amarela, que tem como exemplos escavadeiras, pás-carregadeiras e rolos compactadores, movimentou 30 mil máquinas no Brasil, no ano passado. É dominado por empresas estabelecidas há décadas como Caterpillar, JCB e CNH.
A Hyundai tem uma grande vantagem ante outras novatas que colocam suas primeiras fábricas no país, como as asiáticas Doosan, Sany e XCMG. Ela entrou no Brasil antes, com máquinas importadas. No momento de crise, em 2008 e 2009, conseguiu estabelecer seu nome no mercado brasileiro e espalhou escritórios e serviços de pós-venda no país.
Com produção no país desde março, os planos da Hyundai são de fabricar 1,5 mil máquinas e faturar US$ 300 milhões. Para 2014, a previsão é alcançar uma produção local de 4 mil máquinas. "Por esse número, já dá pra ter uma ideia de quanto pretendemos faturar aqui", afirmou o presidente.
Kang veio direto de Moscou para São Paulo, no começo deste ano, depois de liderar as operações da Hyundai na Rússia por cinco anos. Formado em economia russa e com pós-graduação em economia pela Universidade Estadual de Moscou, o executivo fala russo e inglês, além da sua língua materna. No português já arranha as primeiras palavras, mas preferiu se comunicar na sua primeira entrevista para a imprensa brasileira em inglês.
As primeiras impressões do país foram positivas e a desaceleração da economia não parece abalar os planos do executivo para a subsidiária que está agora sob seu comando. As dificuldades burocráticas de estabelecer uma fábrica são muitas, afirmou, mas para isso a Hyundai já estava preparada. Para Kang, o que mais surpreendeu nesse início da operação brasileira foi a chuva e os empecilhos do fornecimento local de insumos.
"Acho que chovia dia sim dia não", disse Kang, ao se referir ao atraso para abrir a fábrica em Itatiaia (RJ). A unidade exigiu investimentos de US$ 180 milhões - 75% da Hyundai e 25% da sua parceira Brasil Máquinas de Construção (BMC) - e acabou iniciando a produção com algum atraso, já que o plano inicial era para o fim de 2012. A cerimônia oficial de inauguração acontece esta semana.
O relacionamento com fornecedores locais foi também mais difícil que o esperado. "Foi uma grande dor de cabeça para nós". O executivo relata que alguns fornecedores parceiros que viriam da Coreia não conseguiram se estabelecer no Brasil e que, em alguns casos, fornecedores locais eram menores e mais sensíveis. "Quando conseguíamos um fornecedor nacional de um componente importante, esse fornecedor se desestabilizava ou subia muito os preços e ficávamos sem alternativa".
Kang afirmou que a questão está resolvida e que agora a empresa vem trabalhando com ao menos dois fornecedores para cada insumo relevante. O presidente disse ao Valor que a empresa já deu entrada em toda a documentação e espera estar credenciada como fabricante nacional no BNDES a partir de junho, para vender seus produtos com a linha de financiamento subsidiada Finame - a linha é cedida apenas para máquinas com 60% de componentes locais.
A taxa de juros do Finame, atualmente negativa em termos reais, é o principal chamariz para a instalação de fábricas de máquinas no país, mesmo com os aumentos programados. No ano passado, a taxa estava em 2,5% ao ano, é de 3% neste primeiro semestre e passará a 3,5% na segunda metade do ano.
Também para o meio do ano está programado o início das operações das linhas de produção de pás-carregadeiras e de retroescavadeiras, informou o executivo. Atualmente, a fábrica produz somente escavadeiras.
A desaceleração da economia no ano passado não afetou os planos da empresa, mas teve impacto. A estrutura de vendas, que coloca a Hyundai à frente de outros concorrentes, representou um custo a ser carregado em 2012. Kang admitiu que, no caso de algumas máquinas, a empresa precisou zerar margens para manter o cliente.
"Foi uma decisão estratégica [perder agora visando longo prazo]. Nossa estrutura, nosso pós-venda, é a nossa vantagem nesse mercado que está cada vez mais competitivo", disse o presidente da BMC, Felipe Cavalieri, que também participou da entrevista. Os dois executivos entendem como objetivo da empresa concorrer com "peixes grandes", caso de Caterpillar e JCB. "Não vemos eles [Doosan, Sany, XCMG] como competidores", nossa visão é de longo prazo e, como parceiros, vemos a Hyundai com essa visão bem focada em ganhar o jogo", disse Cavalieri.
O jovem executivo brasileiro se tornou o braço direito da Hyundai no país. Articulado comercialmente e com conhecimento, Cavalieri alcançou a posição de distribuidor exclusivo e agora parceiro na fabricação da marca aqui. "Não estamos aqui para um voo de galinha, mas com uma visão de 10, 20, 30 anos".
Kang disse que mesmo com o cenário econômico morno e com inflação elevada, a avaliação é que há um mercado de infraestrutura a se desenvolver. Além dos eventos esportivos que o país vai receber, há toda a demanda por investimentos do próprio mercado interno, argumenta. "Acredito que, no ano passado, passamos pelo grande túnel escuro e já podemos ver a luz do sol do outro lado".

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