Melhor é não confundir bolsa com Ibovespa, diz Coinvalores


Segundo analista chefe da corretora, a melhor estratégia para 2013 é “separar o que é bolsa do que é Ibovespa”

Eduardo Tavares, da 
Divulgação/Facebook/BM&FBovespa
Interior do prédio da Bovespa, a bolsa brasileira
Interior do prédio da Bovespa: analista explica que o índice é muito concentrado no setor de commodities, justamente um dos mais afetados em tempos de economia global deprimida


Ver o Índice Bovespa andar de lado há mais de um ano não é motivo para o investidor ficar fora da bolsa. Segundo o analista chefe da corretora Coinvalores, Marco Aurélio Barbosa, uma boa estratégia é, para começo de conversa, “separar o que é bolsa do que é Ibovespa”.s
Ele explica que o índice, que reproduz o desempenho de uma carteira teórica de ações mais negociadas no pregão, é muito concentrado em empresas que atuam no setor de commodities. Basta ver que as três empresas cujas ações são as mais negociadas da bolsa brasileira (logo, do Ibovespa também) são Petrobras, Vale e OGX – duas do setor de petróleo e uma de mineração.
Contudo, esse setor é justamente um dos mais afetados em tempos de economia global deprimida, como são os dias atuais, embora Estados Unidos e Europa já deem alguns sinais de recuperação. “Mas a Vale, por exemplo, fica muito sujeita à economia Chinesa, que ainda não mostrou o rumo em que está seguindo”.
Setores sujeitos a intempéries
Há outros problemas, segundo Barbosa. Muitas empresas com um peso razoável no Ibovespa são de setores sujeitos ás intempéries do governo, como no caso do setor de petróleo e de bancos. “Os acionistas da Petrobras, ou de bancos, ficam reféns das medidas do governo”, afirma.
No caso da petrolífera, um dos problemas é a relutância do governo em equiparar os preços dos combustíveis no Brasil com os cobrados no exterior, com a finalidade de segurar a inflação. Já o setor bancário tem sofrido com o movimento de queda nas taxas de juros, forçado pelos bancos estatais.
Então o quê?
Ora, se focar demais no Ibovespa não é a melhor ideia, para onde correr? Na opinião do analista chefe da Coinvalores, existem alguns setores que não são olhados com tanta frequência pelos investidores, mas que oferecem boas oportunidades.
Segundo Barbosa, “a bolsa sem o Ibovespa anima bastante, basta olhar para o que aconteceu no ano passado, quando o Ibovespa valorizou perto de 7% e o Índice de Small Caps (empresas menores) subiu mais de quatro vezes esse percentual”.
É claro que olhar o passado não é garantia nenhuma de acertar o futuro. Mas, de acordo com o analista, ainda há valor a ser encontrado em ações fora do Ibovespa.
Educação
A recomendação de Barbosa é procurar setores que vão continuar se beneficiando pelo aumento da renda média da população brasileira, e pelo baixo nível de desemprego. O de educação é um deles, e pode oferecer bons investimentos ao longo do ano. Segundo o analista, o crescimento da renda tem incorporado pessoas à classe C a uma velocidade impressionante.
Com mais renda disponível, e algumas necessidades de consumo já atendidas, essa classe tem olhado para outras possibilidades e uma delas, de acordo com Barbosa, é a educação. “O ensino superior ainda tem uma penetração muito baixa na população brasileira, então, continuamos apostando no sucesso do setor de educação.”
Além disso, o governo tem incentivado a procura pelos cursos superiores, por meio de mecanismos como o financiamento estudantil do Fies ou o Programa Universidade Para Todos (Prouni), que custeia as despesas de estudantes de baixa renda em faculdades particulares.
Barbosa explica que “o número de matrículas em universidades privadas tem crescido bastante, principalmente as com foco no Fies e no Prouni”. As preferências da Coinvalores no setor são as ações da Kroton (KROT3) e da Anhanguera (AEDU3), que são “empresas ambiciosas e que mudaram o patamar do setor”.
Saúde
Outro setor ligado à melhora de renda e à situação de praticamente pleno emprego é o de saúde. “A população está olhando menos para os itens de consumo mais imediatos, como eletrodomésticos, eletrônicos, e passam a focar em coisas como uma educação melhor, e saúde melhor também”, explica.
Com o aumento da massa salarial, a tendência é que a população comece a procurar por planos de saúde e odontológicos. “A penetração em planos de saúde hoje é muito baixa, não chega a 30%”, diz o analista. As ações da Qualicorp e da Odontoprev estão entre as preferências da Coinvalores.
A Qualicorp, de acordo com a corretora, tem um “potencial interessante, porque, além de ser administradora de benefícios, é meio termo entre operadora e cliente, ou seja, não tem o risco do sinistro, que é o principal custo das operadoras”. Já a Odontoprev, operadora de planos odontológicos, “atua em um segmento com uma penetração ainda menor do que dos planos de saúde, então, enxergamos um potencial interessante”, afirma Barbosa.
Concessões
Para o analista da Coinvalores Felipe Silveira, atualmente, o momento do setor de infraestrutura no Brasil é muito positivo. “Há fortes investimentos para Copa e Olimpíadas, e é uma parte pequena, se formos considerar outras grandes obras”, afirma. “O plano de logística do governo para portos e aeroportos é considerável.”
Nesse cenário, as concessionárias se destacam por terem um leque de oportunidades, não ficando restritas a poucos segmentos dentro do setor de infraestrutura. “Essas empresas estão capitalizadas e, mais do que isso, vão contar com o financiamento do governo para obras, por meio do BNDES, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil”, diz Silveira.
Dentre os destaques, o analista aponta as ações da Mills, que atua no setor de sustentação para grandes obras. “Essa empresa tem uma boa relação com construtoras”, afirma. “Para se ter uma ideia, a Mills está presente nas obras de dez estádios que sediarão jogos da Copa de 20147, de um total de 12”, afirma.
Outro destaque no setor é o segmento de concessões rodoviárias, no qual, os destaques apontados pela Coinvalores são a CCR e a Ecorodovias. Silveira explica que essas empresas constituíram uma estrutura sólida de caixa e têm um portfólio “bastante robusto”. “A CCR, por exemplo, é uma boa escolha porque, além do caixa forte, a empresa se posiciona bem em outras áreas que não as rodovias, como os projetos de mobilidade urbana.”
O bonde do consumo passou
Segundo Marco Barbosa, analista chefe da corretora, o setor de consumo discricionário, antes em alta, já não tem mais o mesmo vigor. “O crescimento do país com base em demanda está esgotado, agora é hora de tratar a questão da oferta, investindo em infraestrutura.”
Para ele, papéis mais tradicionais do setor de consumo, como de empresas ligadas a vestuário, equipamentos eletrônicos e varejo já renderam bastante e, talvez, seja hora de sair. “O boom do consumo terminou”, diz ele, e afirma que agora a lição de casa consiste em olhar com cuidado para outros papéis.

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