Bancos privados têm 'excesso de caixa'



Os analistas especializados em serviços financeiros têm mostrado ceticismo com projeções de expansão da carteira de empréstimos divulgadas pelos bancos privados, que variam de 11% a 17% para este ano. O questionamento tem relação com o não cumprimento das previsões para 2012, quando a alta foi de apenas 9%, e com descrença numa recuperação forte da economia em 2013 - sendo que há uma relação clara entre crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e alta dos empréstimos.
Mas o fato é que essas instituições têm um bom motivo para liberar a torneira do crédito assim que for possível - e isso nada tem a ver com os reiterados apelos do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para que os bancos expandam seus financiamentos.
Como a captação de recursos dos bancos privados cresceu acima dos empréstimos, Itaú, Bradesco e Santander, os três maiores do país, encerraram 2012 cheios de dinheiro disponível em caixa, aplicações financeiras de curto prazo e títulos públicos, que rendem bem menos que os empréstimos, ao se levar em conta os spreads ainda altos que vigoram no Brasil.
O volume de caixa disponível ficou ainda maior por causa do relaxamento do compulsório sobre depósitos à vista realizado no terceiro trimestre do ano passado e pela estratégia das instituições de privilegiar modalidades de captação com menor exigência de recolhimento ou mesmo sem recolhimento nenhum, como é o caso das letras financeiras.
O total de dinheiro que essas três instituições deixam parado no Banco Central diminuiu em R$ 68 bilhões entre o fim de 2011 e 2012, saindo de R$ 214 bilhões para R$ 146 bilhões.
Em dezembro do ano passado, 32,5% dos ativos desses bancos estavam em aplicações de curto prazo ou títulos e valores mobiliários de carteira própria. Em junho, esse índice era de 25,1%, e, um ano antes, de 23,4% (nos bancos públicos houve estabilidade dessa taxa no último semestre).
Ao se analisar os balanços desde 2007, esse é o maior índice de recursos em caixa registrado pelas três instituições em conjunto.
Se o percentual de junho (25,1% total de ativos) tivesse se mantido, esses bancos teriam R$ 585 bilhões nesse tipo de aplicações em dezembro. Na prática, entretanto, esse volume saltou para R$ 761 bilhões, em um "excesso" de R$ 176 bilhões.
O dinheiro extra dos bancos brasileiros ainda não é um "problema" tão grande como ocorre nos Estados Unidos - segundo reportagem da "Bloomberg" publicada na edição do dia 21 de fevereiro do Valor, a relação entre crédito e captações chegou a apenas 61% no J. P. Morgan Chas e e a 70% no Citi.
Mas é um dos fatores - ao lado da queda dos spreads e da taxa básica Selic - que contribui para a queda da margem financeira em termos percentuais, como admitiu em teleconferência com analistas o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal. A relação entre crédito e captação no maior banco privado do país fechou 2012 em 90,1%, ante um índice de 95,5% registrado um ano antes.
No Santander, o movimento foi na mesma linha e ainda mais acentuado, com essa razão caindo de 109,2% para 97,5% em um ano. No Bradesco, a tendência se repetiu, embora a variação tenha sido menor, de 93,9% para 92,3%.
Quando estão com mais depósitos do que precisam, os bancos até tentam orientar a rede de agências para favorecer a venda de fundos de investimento para quem quer poupar, em vez de CDBs, letras financeiras e letras de crédito imobiliário. Isso pode ocorrer tanto na oferta de produtos pelos gerentes como por meio da calibragem de taxas.
Mas em muitos casos prevalece a decisão dos próprios clientes. E se eles quiserem emprestar dinheiro aos bancos, eles certamente não vão recusar. O mesmo acontece com os recursos trazidos por novos correntistas. Em 2012, só em depósitos à vista - dinheiro das contas correntes - o saldo de Itaú, Bradesco e Santander cresceu 14,8%, para R$ 86,8 bilhões. Só o Santander viu esse estoque se manter praticamente estável.
Ainda que possa momentaneamente reduzir a margem financeira em termos percentuais, captação em excesso também gera receita para os bancos. Do ponto de vista nominal, portanto, isso aumenta o lucro.
Mesmo sabendo que o crédito não vai deslanchar, as instituições também podem optar por acelerar as captações por enxergar boas oportunidades. "Os bancos podem ter enxergado uma circunstância favorável em termos de custo ou de prazo de captação", afirma Carlos Macedo, analista do setor financeiro do Goldman Sachs.
O que vai determinar o momento de reduzir esse excesso de caixa é a confiança de que o risco de inadimplência já passou.
Entre receber um retorno menor, porém garantido, dos títulos públicos, e se arriscar a emprestar com spread mais gordo, e perder tudo, os bancos privados por enquanto têm preferido a primeira opção.
Mas, além das projeções oficiais de aceleração nas concessões neste ano, os dados do quarto trimestre já sinalizam um pequeno afrouxamento das condições de aprovação de crédito. Se o ritmo de expansão dos empréstimos nesse período fosse anualizado, o índice ficaria pouco acima de 12%, superior, portanto, ao crescimento de 9% efetivamente observado ao longo de 2012.



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