Oscilações no Tesouro



Não foram só os fundos de renda fixa os atingidos pela reviravolta de expectativas que sucedeu a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Boa parte dos títulos públicos vendidos pelo sistema Tesouro Direto, para pessoas físicas, registrava até sexta-feira perdas nos últimos 30 dias e também no acumulado de 2013, ainda que esse movimento não tenha ofuscado os bons ganhos que vários desses papéis ainda oferecem para quem comprou 12 meses atrás. As variações negativas se acentuaram na virada de janeiro para fevereiro e chegam a 7% em 30 dias no papel mais longo (que também foi o que mais ganho ofereceu ao longo de um ano - veja quadro acima). Isso significa que, quem comprou o título há um mês pagou um preço mais caro e, caso queira se desfazer do título agora, ou seja, antes do prazo de vencimento, teria uma perda. Esses papéis vinham subindo muito de preço, porém, reverteram a trajetória após um pico em janeiro.
Os especialistas, porém, são unânimes ao ressaltar que as pessoas que já compraram esses títulos não devem vender neste momento. Isso significaria materializar um prejuízo que só se concretiza de fato com a venda do papel e poderá ser revertido no médio ou longo prazos, embora a expectativa seja a de que esses papéis vivam mais dias de altos e baixos nos próximos meses. O momento também não é ainda de claras oportunidades. Boa parte dos consultados só recomenda a compra de títulos para aqueles investidores que pretendem levar os papéis até a data do vencimento, pois assim terão as condições acordadas na hora da compra, o que permite ignorar as oscilações que atrapalham aqueles que precisarem vender o título no meio do caminho.
De uma lista de 25 papéis, o site do Tesouro mostra que, nos 30 dias encerrados no dia 15 de fevereiro, apenas 5 estavam no azul, as LFTs, que são indexadas à Selic; prefixados (LTN e NTN-F) com vencimento em 2014 e uma NTN-B (que paga a variação do IPCA mais uma taxa de juro) curtíssima, que vence já em maio.
As desvalorizações deste início de ano, que também atingiram os fundos que possuem papéis prefixados e atrelados à inflação nas carteiras, foram deflagradas por uma mudança nas expectativas do mercado para a taxa de juros, acentuada após a divulgação da ata do Copom, no dia 24 de janeiro. Naquele mesmo dia, instituições que esperavam uma Selic menor no fim do ano voltaram a prever estabilidade nos atuais 7,25% e já houve quem projetasse uma alta da taxa no terceiro trimestre. A curva de juros futuros refletiu a mudança de expectativa. O contrato de DI futuro para janeiro/2015, que estava em 7,88% em 22 de janeiro, por exemplo, já apontava uma taxa de 8,3% no último dia 15.
Depois do carnaval, porém, começaram a surgir previsões de que a alta de juros poderia vir ainda mais cedo. No dia 14, em entrevista ao Valor Pro, serviço de notícias em tempo real do Valor, o ex-diretor do Banco Central e sócio da gestora Mauá Sekular, Luiz Fernando Figueiredo, afirmou que a alta da Selic poderia vir já em abril. Essas eventuais mudanças que o mercado está colocando no horizonte é que reverteram também o rumo dos papéis prefixados, mas principalmente daqueles que são atrelados à inflação, as NTN-Bs.
"Poucas vezes vimos tão pouco consenso sobre as perspectivas para os juros", afirma Gilberto Poso, superintendente de gestão de patrimônio do HSBC, lembrando que a expectativa da instituição é de manutenção para este ano. E enquanto um consenso mais visível não se consolidar, os títulos públicos deverão balançar mais. "Desde o ano passado, já estávamos alertando nossos clientes que essas oscilações deveriam acontecer", diz Poso. Segundo o executivo, o mais difícil é explicar aos clientes porque um produto buscado como proteção contra inflação está tendo esta variação justo agora.
No limite, comprar uma NTN-B é apostar na queda dos juros, diz Guilherme Abbud, responsável pela renda fixa da Western Asset. Ou seja, para quem realmente acredita que a taxa vai subir, comprar o título não faz tanto sentido. O papel até pode ser usado como uma proteção contra a inflação, mas neste caso só faria sentido comprar uma NTN-B de curto prazo. Isso porque, quando a expectativa de aumento de preços cresce, o mercado começa a precificar a alta dos juros, como ocorreu agora.
Reinaldo Le Grazie, diretor de renda fixa e multimercados da Bradesco Asset Management (Bram), está na ala dos que acreditam que uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros já pode vir em maio ou julho. "Quanto antes começar, menor tem que ser a alta", diz. A elevação nos juros, para Le Grazie, já foi precificada. Para alguns prazos, entretanto, a queda teria sido exagerada, criando oportunidades. "Claramente tem muita gente vendendo o papel, fica difícil saber se esse movimento acabou. Mas, quando vejo os preços, já tenho vontade de comprar", diz. Entre as desvalorizações exageradas, para Le Grazie, estão as NTN-Bs com vencimento em 2014 e 2015. "Quem tem apetite para risco pode entrar agora", diz, desde que com disposição para carregar o papel até o vencimento. Para conservadores, recomenda esperar a turbulência passar.
Poso, do HSBC, também acredita que as NTN-Bs com prazo de até três anos podem ser opção melhor que as de prazos mais longos, mas também só para quem pode ficar com o papel até o fim. Neste caso, porém, não vale ficar olhando variação diária ou mensal, porque a tendência é haver oscilação. Como acredita na manutenção da Selic, ele aponta como aplicação mais interessante o título prefixado, a LTN, com vencimento em 2015, a uma taxa de cerca de 8,4%.
Já Damont Carvalho, gestor responsável por fundos macro na Claritas, não aposta em uma elevação dos juros no primeiro semestre. Para ele, o governo vai usar antes outros instrumentos, como desonerações fiscais. Diante desse cenário, ele acredita que podem surgir oportunidades de compra de NTN-Bs para a pessoa física atenta ao longo prazo. "Não acho que agora é o melhor momento, porque o mercado ainda está digerindo e os títulos podem sofrer ainda mais, mas já dá para começar a pensar em alocar", diz. Vender os papéis não é uma boa ideia. "Grande parte da precificação da alta dos juros já foi feita", considera.
Paulo Bittencourt, diretor da Apogeo Investimentos, só recomenda compra de títulos agora para quem tem certeza de que este é um dinheiro para "esquecer" e só resgatar no vencimento, já que com o cenário de curto prazo nebuloso, haverá novos soluços.
No Tesouro Direto, o estoque de NTN-Bs cresceu 50% em 2012, para R$ 5,9 bilhões. Sua participação no estoque de títulos passou de 52% para 62% em um ano. O de prefixados também evoluiu e chegou a 30,2% do total. Diante da confiança na queda dos juros, esses dois tipos de papéis tomaram espaço dos indexados à Selic. Segundo um analista do Tesouro, não houve aumento de resgates e nem há expectativa de que eles venham a aumentar em função das oscilações de curto prazo no preço dos títulos. Para esse interlocutor, o investidor do Tesouro Direto é qualificado e isso está traduzido nas suas escolhas - mais de 50% dos papéis tem prazo superior a cinco anos e as NTN-Bs e prefixados são os papéis mais demandados. "Esse investidor também sabe que o Tesouro garante a rentabilidade contratada desde que o investidor segure o papel até o fim", disse a fonte.

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