Mansões al mare



Diamantes nas maçanetas, mármore italiano no chão, obras de arte nas paredes. Até onde pode chegar o requinte nos superiates de luxo?

Por Fabiano MAZZEI
O cliente – um muitíssimo bem-sucedido empresário nova-iorquino do setor automotivo e que recém-adquirira um iate de 200 pés – chega ao estaleiro da Azimut-Benetti, em Viareggio, Itália, pedindo sem cerimônias aos designers de interiores contratados pelo estaleiro: “Quero diamantes em todos os cantos do barco!” Mesmo acostumados com extravagâncias vindas da mente fértil de sheiks do petróleo, neobilionários asiáticos ou de megainvestidores de Wall Street, a solicitação deixou a turma de olhos arregalados. Mas, como se diz na quitanda, o freguês sempre tem razão. 
 
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Diamonds are forever: o superiate da Azimut-Benetti (ao lado) usa pedras preciosas na decoração
 
Foi assim que nasceu o Diamonds Are Forever, nome da embarcação de 61 metros de comprimento que ganhou os mares em Cannes, no ano passado. Por fora, uma joia da alta tecnologia náutica, com cinco andares, seis suítes e um deque panorâmico a 12 metros da linha d’água. Por dentro, uma suntuosidade só vista em palacetes renascentistas. “Pedidos extravagantes não são tão raros”, diz Francesco Ansalone, diretor de marketing da empresa italiana. “Houve um cliente que pediu um teto para abrir à noite. O dono do barco amava astronomia e queria jantar sob a luz das estrelas”, conta. 
 
A Azimut-Benetti conta com um centro de estilo com sete designers especializados na customização interna e externa dos barcos. Entre os principais clientes estão os americanos, os árabes e os asiáticos. No caso dos grandes iates, acima dos 100 pés, é possível não só caprichar no “make up”, usando revestimentos produzidos por maisons da alta-costura – como Missoni e Ermenegildo Zegna, além de mobiliário do quilate de uma poltrona Frau ou objetos da marca francesa Lalique –, como também redefinir a configuração dos ambientes: número de suítes, salas, deques. 
 
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Tânia Ortega: "Eike Batista quis um estilo mais clean para o barco dele (acima). Só pediu para não ter nada preto"
 
No Brasil, a empresa tem um estaleiro em Itajaí (SC). Segundo Ansalone, o mercado nacional absorve mais lanchas menores, por conta do calado das marinas do litoral brasileiro. O que não significa que a sofisticação no décor interno seja diminuída. Há, contudo, uma outra característica típica do cliente daqui. “O brasileiro busca e entende sobre o design italiano, mas o requisito mais frequente é com as áreas externas”, diz Ansalone. “Ele quer reunir os amigos para tomar sol, ouvir uma boa música e fazer um churrasco. O brasileiro sabe se divertir.”
 
O BARCO DO EIKE Para se ter tanto requinte e conforto embarcados, o investimento é alto. No entanto, definir um valor padrão é impossível, dada a gama de possibilidades na customização. “O céu é o limite”, afirma Tânia Ortega. A empresária brasileira, após 20 anos decorando os barcos da italiana Ferretti no Brasil, abriu em 2007 sua própria empresa de design, a Tutto a Bordo, que aposta em revestimentos premium para os seus projetos. Ela explica que, hoje, existem tecidos desenvolvidos com tanta tecnologia que sua durabilidade aumentou bastante. 
 
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Achilles Salvagni: "Os ambientes do Numptia (acima) dão sensação de calma", diz. Paz e glamour em alto-mar
 
“São linhos, veludos e cheniles que resistem ao sol e à chuva, à água do mar e a taças de vinho”, diz. Tânia foi a responsável por decorar um dos barcos mais cobiçados dos mares brasileiros. A lancha, uma italiana Pershing de 115 pés, quatro suítes, home theater e impulsionada por uma turbina de avião, pertence ao bilionário carioca Eike Batista. Entre os pedidos dele, um escritório para trabalhar em alto-mar e um banheiro com chuveiros. “Ficou com um estilo mais clean, com móveis todos comprados na Itália. Ele só me pediu que não usasse nada de preto”, lembra ela.
 
ARCA DE NOÉ Do contrário, Tânia já atendeu clientes com orientações mais exóticas. Em um dos casos, o barco tinha tudo para virar uma espécie de homenagem à Arca de Noé. “A mulher queria que todos os tecidos fossem com estampas de zebra, onça, uma selva!” Há encomendas ainda mais curiosas. O estaleiro italiano CRN, da divisão de grandes iates do grupo Ferretti, construiu há seis anos um navio-dormitório com nada menos que 28 quartos para um sheik árabe. Ele pediu também um engenhoso sistema de passagens secretas entre os andares, tudo para abrigar todo o seu harém e impedir que as famílias de suas muitas esposas se encontrassem no barco. 
 
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Premiado: o iate Diamonds, da Azimut-Benetti, foi eleito o mais luxuoso no Cannes Boat Show, em 2012 
 
Outra história contada pelos funcionários da empresa de Ancona é a da instalação de um radar antimíssil em uma superlancha de outro barão árabe do petróleo. “Aqui falamos com senhores que têm mais de € 80 milhões para custear seus brinquedos”, diz Matteo Belardinelli, diretor de marketing do CRN. “No mundo, podemos dizer que temos apenas mil clientes potenciais”, complementa. Extravagante ou não, o que é regra comum nos projetos é o requinte em cada detalhe. E, entre todas essas mansões flutuantes, o iate Numptia, de 229 pés, é o suprassumo. O interior é assinado por Achilles Salvagni, um dos papas do setor. 
 
Para o barco ele levou só o melhor: tapetes de seda feitos no Tibete para os seis quartos, mármore para os banheiros, quartzo no piso da cozinha, tampo de prata para a mesa de jantar, obras de arte nos ambientes sociais, tela de 103 polegadas full HD na sala de tevê, espelhos de cristal no elevador que une os cinco andares e uma banheira oval na suíte principal. Há ainda um lounge-bar no segundo andar com teto de madeira e sofisticado sistema de iluminação que dá um ar de clube nova-iorquino. “No Numptia, todos os detalhes foram pensados. As salas conversam entre si e cada deque tem sua personalidade”, diz Achille. “Procuro não só o conforto, mas criar uma sensação de calma.” De fato, não há estresse a bordo de um iate desses.

PARCEIROS E COLABORADORES UTILIZAM:

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