Calote vai corroer lucro de bancos




Emiliano Capozoli/Valor / Emiliano Capozoli/Valor
Carlos Macedo, analista do Goldman Sachs: balanços devem mostrar tendência positiva em relação à inadimplência
O grupo dos quatro maiores bancos brasileiros com ações em bolsa deve fechar os últimos três meses de 2012 com um lucro líquido de R$ 10,59 bilhões, valor 4,79% menor na comparação com o período de outubro a dezembro de 2011, segundo projeções feitas por analistas e compiladas pelo Valor para Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.
As estimativas coletadas levam em consideração apenas itens recorrentes aos balanços dos bancos. É por isso que o lucro líquido contábil, aquele que serve de base para a distribuição de dividendos aos acionistas, pode se mostrar bastante diferente. Os balanços de Itaú e Bradesco, por exemplo, vão ser positivamente afetados pela venda de participações na Serasa, birô de crédito.
Temas que vinham perseguindo os bancos desde o começo de 2012, como calotes, pressão governamental sobre a cobrança de juros e baixo crescimento econômico, ainda devem respingar nas demonstrações que as instituições começam a apresentar na segunda-feira, com a divulgação do Bradesco. Por isso, a expectativa de retração dos números.
Pela expectativa dos analistas, só o Bradesco deve ser capaz de encerrar o quarto trimestre com um lucro maior, de R$ 3 bilhões, o que representaria alta de 8,84% sobre igual período de 2011, segundo a média das projeções de 19 corretoras. (veja tabela ao lado) Ao sofrer menos do que os concorrentes com a inadimplência e tirar proveito de uma operação de seguros mais robusta, o Bradesco conseguiu ao longo de 2012 apresentar números mais vistosos.
Enquanto isso, a maior queda de resultado deve ficar com o Santander, de 13,1%, para R$ 1,43 bilhão, pela previsão de oito casas de análise. Os pagamentos em atraso podem derrubar o resultado do banco. "Os investidores devem esperar um trimestre desanimador ainda, devido à qualidade do crédito desapontadora", diz o Barclays em relatório sobre o Santander divulgado a investidores.
Ainda sofrendo com a inadimplência vinda do crédito dado a compradores de veículos e a pequenas e médias empresas, o Itaú Unibanco deve registrar um lucro líquido de R$ 3,50 bilhões no quarto trimestre de 2012, de acordo com a média das projeções de oito analistas, valor 6,38% maior.
Para o Banco do Brasil, a projeção média de seis corretoras é de um lucro líquido de R$ 2,65 bilhões no quarto trimestre de 2012, o que corresponde a uma queda de 10,9% ante igual intervalo de 2011. O Deutsche espera a continuidade da pressão sobre a margem financeira líquida por causa das taxas de juros menores e de um mix da carteira de crédito mais fraco, diz o relatório.
Apesar dos números ajustados mais fracos para o conjunto dos bancos, o tom dos analistas não é de desalento. "É preciso enxergar que há uma tendência positiva. Os balanços devem mostrar que o caminho para a melhora da inadimplência se abriu", diz Carlos Macedo, analista do Goldman Sachs. Menos calotes acabam se traduzindo em despesas com provisão para devedores duvidosos menores, o que contribui para o lucro.
Os dois maiores bancos privados do país, Bradesco e Itaú, devem apresentar redução no índice de inadimplência, com ativos de mais qualidade nas carteiras. No Bradesco, os pagamentos em atraso há mais de 90 dias devem ficar em 4%, valor 0,1 ponto percentual mais baixo do que o do terceiro trimestre, porém ainda mais alto do que os 3,9% de um ano antes, estima o Deutsche Bank.
O índice de inadimplência do Itaú Unibanco deve recuar de 5,1% em setembro para 5% em dezembro, pelas projeções. "Há chance de uma surpresa positiva na linha de despesas com provisão para devedores duvidosos, assim como foi visto no terceiro trimestre", afirma o relatório do Espírito Santo.
A alavanca para a retração da inadimplência pode vir justamente de um fenômeno que preocupou bastante os bancos ao longo do ano. "As administrações dos grandes bancos privados estão otimistas quanto a uma tendência de queda na inadimplência a partir do quarto trimestre de 2012, e o maior desafio do setor, a redução nos spreads, pelo menos está ajudando a atenuar o ônus do serviço da dívida", avaliam os analistas do HSBC.
Só o Santander é que ainda deve ver uma piora nos calotes, o que contribuirá para a retração dos resultados. Para o Deutsche, a inadimplência vai crescer puxada pelos atrasos nos pagamentos feitos pelas empresas, que foram afetadas por causa do crescimento mais fraco da economia ao longo do ano passado.
Essa não é a única notícia positiva que deve surgir nos balanços do lado dos ativos. Para os analistas, o ritmo de desembolsos nos bancos, que seguiu bastante lento até setembro, também vai se acelerar.
A carteira de crédito do Bradesco deve crescer 4% no quarto trimestre de 2012 na comparação com os três meses anteriores. De junho para setembro, a expansão tinha sido de apenas 1,8%. No Itaú, o crescimento deve ficar em 3%, sendo que no período anterior o estoque tinha ficado praticamente estável. No Santander, a expectativa é que o crédito se expanda ainda mais, chegando 5%, ante a estabilidade do trimestre anterior.

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