As pequenas prometem


Os investidores em ações de empresas de pequeno valor de mercado começaram o ano com uma dúvida tão grande quanto a rentabilidade que conquistaram em 2012. Ainda dá para lucrar com as chamadas small caps? Após altas de até 150% somente entre os papéis do segmento reunidos em um índice da BM&FBovespa, é natural - e saudável - que o aplicador questione o fôlego deste universo de companhias. Segundo especialistas, ainda existem oportunidades em setores como o de educação, por exemplo, mas, de forma geral, será necessário redobrar a atenção, o que implica uma seletividade ainda maior do que no passado.
Uma prova desse desafio é que duas companhias de educação, Kroton e Estácio, foram justamente as campeãs de rentabilidade em 2012. Garimpar nesta área, portanto, não será tarefa fácil. Outros destaques ficaram por conta da fabricante de calçados Grendene, do frigorífico Minerva e de Valid, companhia de sistemas de identificação e certificação. Na média, esses papéis subiram praticamente quatro vezes mais que as ações das grandes empresas. O índice da bolsa que reúne as small caps (SMLL) fechou o ano passado com alta de 28,67%. O Ibovespa, indicador mais relevante do mercado, subiu 7,40% no mesmo período.
Os gestores de fundos especializados em small caps estão otimistas para 2013. Dizem que ainda dá para ganhar e, em alguns casos, com as mesmas apostas do passado. "O fato de uma ação ter subido muito não significa que ficou cara", afirma Werner Roger, sócio da Victoire Brasil Investimentos e gestor do fundo líder em rentabilidade no segmento em 2012, com 52,21%. Uma dessas apostas é Marcopolo. A ação preferencial da fabricante de ônibus e micro-ônibus avançou 87,03% no ano passado e tende a subir mais com o financiamento a juros maternais do Programa do BNDES de Sustentação do Investimento e outras medidas do governo para estimular a produção industrial, diz Roger. "Cerca de 65% das posições do fundo têm se mantido iguais nos últimos três anos. Neste período, a carteira teve uma alta de 98,1% e o Ibovespa caiu 11,1%."
Ajustes no portfólio também podem ser necessários, afirmam alguns especialistas. É o caso de Frederico Tralli, chefe da área de renda variável da gestora do banco BNP Paribas, cujo fundo de small caps subiu 37,01% em 2012. Tralli diz que foram reduzidas as posições em construção e infraestrutura. Já os papéis de companhias de saúde, que, ao lado de educação, foram uns dos destaques do fundo em 2012, deixaram a carteira. "Não vejo mais potencial de alta do setor [de saúde], que pode sofrer com queda das margens este ano", diz Tralli, que segue otimista com educação e vê oportunidades em consumo. "As small devem dar um bom retorno, mas o investidor terá que ser mais seletivo."
Natalia Kerkis, diretora de renda variável da HSBC Global Asset Management, também ressalta que a seletividade será fundamental neste ano. Ela atribui parte da valorização expressiva das small caps em 2012 ao fato de muitos investidores terem buscado refúgio em ações do mercado doméstico em meio à crise externa e ao tombo das elétricas, tradicional alternativa defensiva.
A busca por empresas com negócios ligados à economia local, diz, provavelmente se repetirá neste ano, mas com menos intensidade. Muitos investidores podem preferir garimpar oportunidades em papéis ligados ao mercado global, que sofreram muito em 2012. "Isso pode prejudicar o desempenho das 'small' em alguns momentos", afirma Natalia. "No entanto, para quem pensa no longo prazo, essas empresas continuam mais interessantes que as grandes."
Mas há também notas dissonantes entre os gestores quando o tema são as pequenas da bolsa. Para Roque Sut Ribeiro, sócio-gestor da Fides Asset Management, papéis de setores como consumo e varejo subiram exageradamente no ano passado. "Está tudo muito caro, essas ações do índice de small caps 'andaram' muito, e não conseguimos ver potencial de alta", afirma. "O que vemos como interessante são ações de empresas grandes que estão muito depreciadas, como Banco do Brasil, que pode se beneficiar este ano da abertura de capital de sua seguradora."
Para Ribeiro, quem quer realmente aplicar em ações de empresas menores tem que esquecer o índice de small caps. Apesar do nome, o referencial, diz, abriga papéis de companhias de porte elevado e bastante liquidez, o que distorce a percepção do comportamento das pequenas. O sócio da Fides vê bom potencial para as ações da incorporadora imobiliária JHSF, que congrega desenvolvimento de shopping, edifícios residenciais e comerciais. Apesar de ter subido 62,33% ano passado, Ribeiro afirma que o papel está barato. "A empresa está construindo um aeroporto (em São Roque, a cerca de 60 quilômetros de São Paulo), o que vai trazer bons retornos."
Os especialistas de corretoras de valores também mantêm o otimismo com as small caps em 2013. "Assim como no ano passado, o mercado interno tende a ser o principal motor da bolsa neste ano. Por isso, alguns setores que se beneficiaram em 2012 têm potencial de crescer em 2013", diz José Francisco Cataldo, estrategista para varejo das corretoras Bradesco e Ágora. Ele vê oportunidade de ganhos adicionais na área de educação, dada a demanda reprimida por ensino superior e a continuidade de um horizonte de consolidação entre os grupos.
O analista Mario Bernardes Junior, do BB Investimentos, faz a mesma avaliação. No segmento, aponta a Abril Educação como uma boa aposta. É a única companhia aberta do segmento de educação básica e a mais verticalizada. Além de colégio, possui escolas de idiomas, ensino a distância, produz sistemas de ensino e livros. A unit (uma cesta formada por uma ação ordinária e duas preferenciais) da Abril subiu 95,74% em 2012 e não integra a carteira teórica do índice de small caps da BM&FBovespa.
Cataldo, da Bradesco e Ágora, vê chances de bons retornos também no controverso setor imobiliário. Neste caso, as empresas não podem, entretanto, ser avaliadas conjuntamente. O comportamento das ações de construtoras e incorporadoras em 2012 é bastante diverso. Sugere, inclusive, que algumas colecionaram investidores muito satisfeitos - casos da Helbor, Eztec e Even - e outros sem motivo algum para comemorar, como os que investiram em PDG, Rossi e Tecnisa, por exemplo.
A mesma seletividade o investidor precisa ter ao analisar as oportunidades na indústria de bens de capital. Para Bernardes Junior, analista do BB Investimentos, o setor oferece boas chances de repetir os ganhos de 2012 - caso da Randon e da Metal Leve - e também apostas arriscadas - como a Lupatech, que tem negócios ligados ao setor de petróleo. Bernardes concorda com Roger, da Victoire, sobre a provável reação da demanda por máquinas, equipamentos e veículos pesados em 2013. "Existe muito espaço para crescer, especialmente por causa dos incentivos do governo", afirma Bernardes.
Para William Alves, analista da XP Investimentos, o investidor também deve olhar para casos diferenciados - como SLC Agrícola, que subiu 32,53% em 2012, e se favorece do bom momento da agricultura, e Banrisul. A ação do banco do Estado do Rio Grande do Sul teve uma queda de 18,24%, o que gera uma oportunidade de compra, na avaliação de Alves. "É um banco com uma capilaridade relevante no Estado, facilidade para captação financeira e lidera o mercado de adquirência [captura de transações no varejo], ultrapassando Cielo e Redecard no Rio Grande do Sul", afirma Alves.

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