Os bancos brasileiros e a sinalização dos dividendos



Quais sinais a política de dividendos indica para os acionistas e os credores?  Os dividendos distribuídos influenciam o preço da ação? Como a política de proventos afeta a percepção dos clientes sobre a solidez financeira da instituição financeira? Veja as interessantes conclusões do estudo feito por Cristiano Forti, doutor em finanças pela FGV-SP, e pelo professor Rafael Schiozer.
A teoria de finanças possui duas correntes em relação à influência da política de dividendos sobre o desempenho da ação. A primeira é representada pela teoria da irrelevância dos dividendos e o efeito clientela. Na outra ponta, existem outras duas teorias que pregam o contrário: a política de dividendos influencia sim o desempenho das ações. São elas a teoria do pássaro na mão e o efeito sinalizador dos dividendos.
Minha experiência profissional me fez integrar os defensores da segunda corrente. Uma política de dividendos consistente possui força para impulsionar o preço da ação.
O objetivo do estudo de Forti e Schiozer, “Dividendos Bancários e Sinalização para Depositantes sensíveis a Informação”, foi analisar a influência dos dividendos sobre os credores e não sobre os acionistas. O estudo amealhou o 3º lugar da categoria A (dissertações, teses e artigos acadêmicos) do IV Prêmio Federação Brasileira de Bancos (Febraban) de Economia Bancária.
Os autores perceberam que, durante a crise de 2008, os bancos brasileiros aumentaram a parcela de dividendos distribuída. Essa atitude pode parecer contrassensual, pois em épocas de crise seria mais prudente reter o lucro para atravessar o momento de turbulência. Ademais, a distribuição de dividendos reduz o patrimônio de referência dos bancos que é utilizado para o cálculo da Basileia.
Uma das explicações levantada seria a de que os acionistas estariam expropriando os credores. Contudo, os autores defendem outra tese. Em momentos de crise, ocorre assimetria de informações e os credores institucionais – fundos de pensão e de investimento – demandam sinais adicionais, além dos dados fornecidos pelas demonstrações contábeis, que indiquem a saúde financeira dos bancos.
Esses depositantes querem saber se a instituição financeira terá capacidade de gerar caixa para suportar suas obrigações. Segundo a teoria da sinalização, a distribuição de dividendos indica que os gestores estão confiantes com o futuro da empresa e, por isso, efetuam esse desembolso. Por isso, o preço das ações reage positivamente. Os autores mostraram que esse efeito sinalizador também é importante para tranquilizar os depositantes. Por isso, em 2008, os bancos brasileiros elevaram a parcela do lucro distribuída a acionistas. Se os bancos estão comprometendo seu índice de Basileia com o pagamento de dividendos significa que seus gestores estão seguros de que a companhia deve continuar gerando caixa.
O estudo concluiu que bancos do governo, bancos privados de capital aberto e bancos privados de capital fechado, na média, aumentaram sensivelmente o pagamento de dividendos no período. E esse movimento foi mais acentuado nos bancos privados de capital fechado que, em tese, não precisariam aumentar os dividendos distribuídos para sinalizar solidez para os acionistas, pois não possuem sócios minoritários.
A tese dos autores é de que esses bancos aumentaram seus dividendos para transparecer solidez para os investidores institucionais. O estudo descarta a tese de expropriação dos credores, pois se esse fosse o caso o aumento da distribuição de dividendos seria maior nos bancos de varejo e não nos bancos privados de capital fechado. Além disso, os credores institucionais perceberiam tal manobra e sacariam seus recursos.
O estudo mostra ainda uma correlação negativa entre crescimento da carteira de crédito e distribuição de dividendos. Em épocas de maior prosperidade, a política de dividendos tende a ser mais austera. Os bancos preferem aproveitar a oportunidade para incrementar os empréstimos em detrimento da distribuição de dividendos.
Essa conclusão tem implicações regulatórias. Os bancos retêm menos lucros exatamente em um momento que a distribuição de dividendos deveria ser mais comedida de forma a proporcionar menor impacto sobre os índices da Basileia. Em outras palavras, quando a economia mais necessita de empréstimos, os bancos reduzem sua capacidade de concedê-los.
Por fim, a maior dependência de credores institucionais por parte das instituições financeiras de menor porte, além de implicar custos de captação maiores, gera a necessidade de uma política de dividendos mais agressiva. Mais um problema para a tese de investimento dos bancos médios (veja também post “Qual o futuro dos bancos médios?”, de 28/11/11).


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