O que 2013 reserva para Eike Batista



Algumas das empresas do bilionário devem começar a operar mas ainda restam dúvidas sobre o sucesso da petroleira OGX



 O Estado de S.Paulo



Eike Batista ainda deve estar se perguntando se é verdade mesmo que 2012 chegou ao fim. Neste ano, ele viu suas empresas perderem R$ 31 bilhões na bolsa. A petroleira OGX, principal companhia do grupo, mergulhou numa crise de credibilidade que afastou investidores e acabou respingando em seus outros negócios. Alguns de seus principais executivos pediram as contas ou foram demitidos. De quebra, Eike perdeu o posto - que ocupava há três anos consecutivos - de homem mais rico do Brasil. Até o primogênito Thor Batista (nomeado, em setembro, diretor da holding EBX) arrumou confusão ao atropelar e matar um ajudante de caminhoneiro no Rio. Definitivamente, o ano não foi fácil.
Mas, otimista confesso que é, Eike Batista tem dito a pessoas próximas que vai virar o jogo no ano que vem. Para analistas e consultores, o horizonte do empresário parece menos nebuloso em 2013 - ao menos para as empresas secundárias do grupo. A expectativa é de que as outras companhias de Eike devem se descolar do tropeço da petroleira, que representa mais de 70% de seus negócios.
As mais cotadas para dar alegrias ao magnata no ano que vem são a MPX, de energia, e a OSX, de construção naval. A MPX é a única que está entregando um resultado mais redondo. Com o início da atividade comercial da usina Pecém I, no Ceará, a empresa ganhou a chancela de "operacional" no começo de dezembro. No mês anterior, a usina Itaqui, no Maranhão, foi sincronizada com o Sistema Interligado Nacional (SIN) passando a fornecer energia em caráter de teste - e está sendo remunerada pelo volume gerado. "Os percalços que a MPX teve este ano na bolsa foram causados mais por contaminação das outras empresas do grupo X do que por ela mesma", diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura.
Outra que está se saindo bem é a OSX. Embora a principal cliente da empresa seja a OGX, com a qual os investidores têm o pé atrás, a percepção é de que o negócio de construção de plataformas é promissor no País. O gargalo dos estaleiros no Brasil pode acabar beneficiando a empresa de Eike com contratos de equipamentos para a Petrobrás. Já houve conversas para a construção de sondas, embora nenhum contrato tenha sido fechado ainda.
Futuro. Ainda assim, as previsões do mercado para 2013 mostram que a vida de Eike continuará complicada. Sobram dúvidas justamente sobre o futuro da petroleira, a maior e mais valiosa empresa do grupo EBX. Ainda desconfiados, os investidores não conseguem precisar o tamanho da empresa e questionam sua capacidade de fazer frente aos investimentos necessários para aumentar a produção.
Foi em torno da OGX que começou o inferno astral do grupo de Eike Batista. Às 18h40 do dia 23 de junho, a companhia informou, em comunicado, que a vazão do poço de Tubarão Azul, na Bacia de Campos, produziria muito menos do que fora prometido. A vazão ideal foi definida em 5 mil barris de petróleo por dia, ante os 11 mil informados anteriormente - e que já era uma revisão da estimativa inicial de 13 mil.
O anúncio derrubou as ações da OGX e arrastou junto os papéis das demais empresas do grupo - OSX (construção naval e offshore), LLX (logística), MMX (minério de ferro), MPX (energia) e CCX (carvão). "O problema foi que Eike prometeu demais e não cumpriu. Ele acabou esquecendo que petróleo é uma atividade de altíssimo risco", diz Pires.
De lá para cá, a empresa ainda não conseguiu fazer as pazes com o mercado. Se a reclamação à época do imbróglio envolvendo Tubarão Azul foi de que a OGX atuava irresponsavelmente ao promover todo indício de descoberta de óleo e traçar projeções duvidosas a partir delas, agora a queixa é de que falta informação. Analistas dizem que as apresentações da companhia não têm trazido a curva de produção, o que gera discrepância nas avaliações sobre o preço-alvo das ações.
Para aumentar a produção, a OGX precisará perfurar mais e isso exige capital. A lógica é que, no começo, a curva de produção não acompanhe a de investimento, o que deve pressionar o caixa da empresa, avaliam especialistas. "A OGX está querendo ter um fluxo muito grande (de óleo) com poucos furos e nós não acreditamos nisso. Eles precisam perfurar mais. É aí que reside o maior receio em relação à OGX. Ela vai precisar se capitalizar de alguma forma", afirma um analista da XP Investimentos.
Oficialmente, a EBX diz que todas as suas companhias de capital aberto têm "funding (financiamento) substancialmente equacionado para os próximos anos". Segundo fontes, dentro da empresa estima-se que haja recursos suficientes para tocar os projetos previstos nos próximos dois anos, porém admite-se a possibilidade de que a OGX precise reforçar seu caixa. Nos últimos nove meses, ela acumulou um prejuízo de R$ 887 milhões.
Se por um lado o tombo de Eike no mercado de capitais foi desencadeado pelo tropeço da OGX e acentuado por atrasos e cancelamentos de projetos, analistas reconhecem que a pouca experiência do mercado brasileiro com empresas juniores faz com que as companhias do megaempresário - a maior parte em fase pré-operacional - sejam penalizadas além da conta. "Quem aposta nas empresas do Eike tem de ter visão de longo prazo. Como o mercado não tem, o papel sobe ou cai fortemente a cada anúncio de novo negócio ou de cancelamento", avalia e economista-chefe da SLW, Pedro Galdi.
Time. Além de colocar a petroleira nos eixos, Eike Batista tem outro grande desafio para os próximos meses: melhorar o clima na organização e fazer sua nova equipe entregar resultados. No último ano, o grupo perdeu executivos-chave, que estavam com o empresário desde o início do projeto. Paulo Mendonça, ex-presidente da OGX, foi demitido depois dos anúncios do poço de Tubarão Azul. A LLX mudou quatro de seis diretores. E a holding teve, em menos de um ano, três diretores financeiros.
Logo no início de 2012, Leonardo Moretzsohn, que estava com Eike desde 2007, deixou o cargo para ocupar o posto de CEO da novata CCX e em novembro pediu as contas. Em janeiro, para seu lugar como CFO da holding, chegou Nicolau Chacur, vindo do Itaú Unibanco com a missão de enxugar a operação do grupo. "Ele veio para colocar a casa em ordem, otimizar a EBX, que tem cerca de 400 funcionários e estava pesada demais, mas encontrou muita resistência", diz um ex-executivo. Ficou oito meses e também saiu.
Ao mesmo tempo, pessoas próximas a Eike foram ganhando poder lá dentro. O tunisiano Aziz Ben Ammar, amigo do empresário, é seu mais novo braço direito. Ele é responsável pela área de fusões e aquisições do grupo EBX e por intermediar os negócios de Eike com empresas da Arábia Saudita. Para insatisfação da velha guarda, Ammar tem ganhado cada vez mais espaço no grupo - "embora não saiba português e não entenda a legislação brasileira", alfineta um ex-diretor. Teria sido dele a ideia de fechar o capital da LLX, que foi abortada em seguida.
No mercado, há quem avalie o troca-troca na cúpula da EBX e das principais empresas da holding como um movimento necessário. "Parte da equipe de executivos que estava com Eike desde o início já ganhou muito dinheiro e não é mais tão comprometida com o grupo", afirma um amigo do empresário. Por isso, outro desafio dele será mudar a política de remuneração das empresas - de modo que os executivos se preocupem mais com os resultados de longo prazo do que com a variação imediata de suas ações na bolsa. A cobrança, que já era pesada (Eike paga bem e exige dedicação total, com executivos conectados 24 horas), só tende a aumentar daqui para frente - porque o mercado também vai cobrar. Com esse cenário, dá para imaginar o que Eike, que já tem tudo na vida, deseja para o ano que vem.

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