Lula e Dilma negam denúncia de Valério



Roberto Stuckert Filho/Presidência / Roberto Stuckert Filho/Presidência
Dilma com Lula, em Paris: "Repudio as tentativas de tentar destituir Lula de sua imensa carga de respeito pelo povo brasileiro"
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou ontem o conteúdo das declarações do publicitário Marcos Valério, que em depoimento ao Ministério Público Federal disse ter pago despesas pessoais do petista em 2003, por meio do esquema do mensalão. "É mentira", disse Lula, em Paris, ao ser questionado por jornalistas.
Foi a única declaração do ex-presidente, que evitou se aprofundar sobre o caso. A seus interlocutores, Lula tem dito que nunca teve nenhum contato pessoal com Marcos Valério, que não existem provas de que foi financiado pelo mensalão e que as declarações seriam "fantasiosas".
Para Lula, Valério teria dado o depoimento para reduzir sua pena e garantir segurança na prisão. O publicitário teria dito a petistas que teme ser morto como "queima de arquivo". Considerado o operador do mensalão, Valério foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 40 anos de prisão.
Segundo reportagem publicada ontem pelo jornal "O Estado de S. Paulo", Valério disse, em depoimento à Procuradoria-Geral da República, que o mensalão ajudou a bancar despesas pessoais de Lula no primeiro ano de sua gestão. Valério disse que os recursos teriam sido depositados na conta da empresa do ex-assessor da Presidência Freud Godoy.
Segundo a reportagem, Lula teria dado aval ao esquema em uma reunião no Palácio do Planalto para os empréstimos com os bancos BMG e Rural, que serviram para o pagamento de deputados da base.
Ao lado de Lula no encontro internacional "Fórum pelo Progresso Social. O Crescimento como Saída para a Crise", em Paris, a presidente Dilma saiu em defesa de seu padrinho político. "Acho lamentável essas tentativas de desgastar a imagem de Lula", afirmou a presidente em entrevista a jornalistas, depois de encontro com o presidente da França, François Hollande. "Repudio todas as tentativas de tentar destituir Lula de sua imensa carga de respeito pelo povo brasileiro", disse a presidente.
Também presente ao evento, Paulo Okamotto, diretor-presidente do Instituto Lula, refutou as denúncias de que teria ameaçado de morte Valério, conforme o jornal "O Estado de S. Paulo". "Eu ameacei ele de morte? Por que iria ameaçá-lo de morte? Eu o conheci depois do episódio do mensalão. A história que ele contava, de que tinha feito empréstimos enormes das empresas dele pra ajudar o PT, acabou trazendo transtornos para ele".
O delator do mensalão, ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), desmereceu as declarações de Valério e atacou o publicitário. "Delação premiada para salvar o próprio coro é coisa de canalha", afirmou Jefferson. "Ele pode provar o que disse?", questionou. "A credibilidade do carequinha, no entanto, já transitou em julgado, é zero". Jefferson foi condenado pelo STF a sete anos de prisão.
O advogado criminalista e ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos disse ontem que ainda não havia conversado com Lula sobre uma estratégia de defesa quanto às declarações de Valério. Bastos disse que não queria se pronunciar sobre o depoimento, nem questionar a credibilidade de Valério, como têm feito parlamentares da base de apoio ao governo. "Eu não sou da base aliada", disse o advogado, que costuma defender e aconselhar Lula em temas jurídicos.
O ex-ministro disse preferir não comentar o episódio pois defende um dos réus no julgamento do mensalão, o ex-diretor do Banco Rural, José Roberto Salgado, condenado a 16 anos de prisão, pena que o advogado pretende reduzir.
O PT e o governo se movimentaram ontem para desclassificar o depoimento do publicitário Marcos Valério de Souza a Procuradoria-Geral da República e impedir que a oposição aprove requerimentos para que ele vá ao Congresso prestar esclarecimentos.
Em nota, o partido criticou a imprensa pelo espaço dado às declarações de Valério. Para o PT, as afirmações do publicitário refletem "uma tentativa desesperada de tentar diminuir a pena de prisão que Valério recebeu do STF". No texto assinado pelo presidente nacional da PT, deputado Rui Falcão, o partido afirmou que o publicitário está à "serviço do processo de criminalização movido por setores da mídia e do Ministério Público contra o PT e seus dirigentes".
Oficialmente, o Palácio do Planalto buscou se afastar do problema. A preocupação ali, ao menos no discurso, era com a aprovação da medida provisória 579, que trata da renovação das concessionárias de energia elétrica. Mas no Congresso os petistas só falavam em defender Lula e impedir a convocação de Marcos Valério.
Para o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), Valério é "um jogador" e tem suas "estratégias". "Se os órgãos de fiscalização acharem que devem investigar, que investiguem. Mas não somos nós que vamos atrás de algo que já foi divulgado em setembro", disse, referindo-se a uma reportagem da revista "Veja" que tratava de ameaças de Valério ao PT de que incluiria Lula no mensalão.
Para Chinaglia, a reportagem publicada ontem "é notícia antiga, embora com mais detalhes". "Parece estratégia de advogados", disse. Ele também disse que a estratégia da oposição de apresentar requerimentos de convocação de Valério faz parte de uma disputa política e insinuou que pode acabar revertendo contra ela. "Há uma disputa política porque a oposição não consegue aprovar os requerimentos. E é por demais óbvio que se Marcos Valério quiser vir até o Congresso para depor ele poderá vir, até porque o mensalão mineiro começou com o PSDB."
O líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (PT), disse que Valério não tem "credibilidade" para falar de Lula. "Não é o PT, todas as pessoas de bem, pessoas que concordam que o presidente Lula fez um bom governo e conhecem o presidente Lula, jamais vão concordar com a vinda do Marcos Valério aqui para usar como mais uma mídia para tentar aparecer".
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), também desqualificou Valério. "Não é uma afirmação que mereça crédito, consideração ou sequer investigação", disse.

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