Petrobras e Eletrobras, as vilãs da bolsa



As ações das estatais Petrobras e Eletrobras estão nos holofotes por uma razão nada louvável: o mau desempenho dessas companhias na bolsa. Atitudes açodadas do governo, má comunicação com o mercado, visão estreita do que é função social derrubam o preço desses papéis, que são referência para o investidor. Isso não contribui para a formação de uma nova geração de investidores. A boa notícia é que existem excelentes alternativas entre as empresas privadas.
Historicamente, empresas públicas ou de capital misto tiveram participação relevante em nossa formação econômica, começando no século XIX, com o Banco do Brasil. Logo, é natural que ações de estatais povoem o Ibovespa.
Começo pela Petrobras. Ela é onipresente na vida dos brasileiros. Se vamos ao cinema, é provável que vejamos seu logotipo no início de filmes nacionais. Quem tem carro ou moto já deve ter abastecido o tanque em seus postos. Para muitos, Petrobras é sinônimo de bolsa de valores. Não é para menos. Estamos falando da maior empresa nacional, com valor de mercado de R$ 271,8 bilhões e forte presença no principal índice de nossa bolsa. As ações ordinárias (PETR3) representam 2,5% do Ibovespa e as preferenciais (PETR4), 8,2%.
Essa associação da bolsa brasileira com a Petrobras não é boa. Primeiro, seu objeto social sendo uma empresa estatal extrapola a simples lucratividade. Desenvolvimento regional, política industrial e controle da inflação também fazem parte da dinâmica operacional da companhia. Com exceção do acionista majoritário, a União, não há investidor privado que fique satisfeito com essa situação. E segundo, por ser uma produtora de commodities, seus resultados são (ou deveriam ser) relacionados aos ciclos econômicos, o que traz uma maior volatilidade ao Ibovespa.
Durante a capitalização da companhia, ficou claro para boa parte dos investidores institucionais que os resultados lucrativos ficariam postergados para o início da operação do pré-sal, previsto para meados de 2014. O retorno sobre o patrimônio líquido desabou, pois o aumento do capital não teve como contrapartida aumento das receitas de forma imediata. Essas só virão com o começo das atividades do pré-sal. Assim, aqueles acionistas venderam suas participações na companhia e buscaram outras opções de investimento. Contudo, essa estratégia não foi adotada pela maioria das pessoas físicas e alguns tinham deslocaram suas poupanças do fundo FGTS para as ações da empresa. Assim, cada trimestre de resultados fracos (que em grande medida já eram esperados desde 2010) faz aumentar o pessimismo com as ações da companhia, contaminando o Ibovespa e, por consequência, o sentimento em relação ao mercado acionário brasileiro. Por ironia, a Petrobras, que é uma das empresas com maior orçamento para dispêndios com propaganda, acaba indiretamente sendo um ator negativo para a publicidade de nossa bolsa junto ao investidor individual.
Outra estatal que tem provocado calafrios nos investidores é Eletrobras (ELET6). O governo editou medida provisória com regras para a renovação das concessões de geração e transmissão vincendas entre 2015 e 2017. Assim, os ativos ainda não amortizados serão indenizados pela União. Até aí, nada demais. O problema é que há uma divergência significativa entre os valores apresentados nas demonstrações contábeis das companhias e aqueles propostos pelo governo. Com isso, as ações do setor, inclusive as de Eletrobras, apresentaram forte queda desde o anúncio das medidas. Sem entrar na discussão se o valor sugerido pelo governo é justo, cabe a pergunta: a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já não conhecia os números contabilizados pelas empresas há muito tempo? São dados públicos. Por que não chamou as companhias para discutir esses valores e as premissas adotadas antes? Seria uma forma de alinhar expectativas. Precisava fazer tudo de forma açodada, em menos de dois meses? O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim disse: “Quem se surpreendeu com os valores anunciados não fez a lição de casa”. Interessante que a própria empresa do governo também é ruim em cálculos, pois tinha ativos de R$ 30 bilhões em seu balanço e receberá apenas R$ 14 bilhões.
Esses exemplos de Petrobras e Eletrobras mostram que o governo não compreende como funciona o mercado de capitais, o que pode comprometer uma importante via de capitalização para as companhias. O mercado acionário também possui função social ao diversificar as fontes de financiamento para além do BNDES. Nessa linha, Mauro Cunha, presidente do Conselho Deliberativo da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), defende que a perda do valor de mercado das empresas estatais derivada de operações patrocinadas pelo governo deve ser levada em conta na elaboração de políticas públicas. Está correto, pois a incerteza eleva a taxa de desconto pedida pelos investidores. Isso é um custo como qualquer outro. As companhias, com a diminuição de seu valor de mercado, podem ter sua capacidade de financiamento comprometida.
Essa situação descrita acima é triste, mas há investidores que não têm motivos para chorar. Os fundos de ações como os de carteira livre e os de “small caps”, nos quais o gestor tem maior discricionariedade para selecionar os ativos, apresentam boa remuneração média no ano, superando com larga folga ELET6, PETR4 e o Ibovespa. Há vida na bolsa além das estatais. Ainda bem, basta procurar.

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