O difícil hábito de poupar para o futuro



Paulo e Sandra são um casal na faixa dos 55 anos com renda de cerca de R$ 50 mil por mês e gastam quase tudo que ganham. Planejam a aposentadoria para daqui a cinco anos, querem deixar uma herança para o filho deficiente mais novo de 15 anos e ajudar no desenvolvimento da carreira dos outros dois mais velhos, bancando cursos, viagens e temporadas no exterior.
Os investimentos atuais da família estão concentrados no plano de aposentadoria contratado pela empresa em que Paulo trabalha, com cerca de R$ 1 milhão de reservas acumuladas. Além disso, possuem algumas aplicações de renda fixa que totalizam R$ 400 mil, descontadas as dívidas com o financiamento do imóvel onde vivem.
Este, resumidamente, foi o caso fictício discutido no programa de treinamento avançado do Instituto Brasileiro de Planejamento Financeiro (IBCPF), conforme relatado por Luciana Seabra, do Valor, em reportagem no caderno EU& Investimentos do dia 12 de novembro.
O caso pode parecer exagerado, mas revela um comportamento relativamente padrão das famílias brasileiras. Na medida em que a renda aumenta, as despesas também crescem e, no fim do mês, sobra pouco para poupar.
As condições atuais da economia brasileira incentivam o consumo. A confiança de que o emprego será mantido estimula os gastos e a combinação recente de juros baixos com redução dos spreads (diferença entre o custo de captação do banco e o juro cobrado do consumidor) bancários facilita o endividamento. É a possibilidade concreta de usufruir do prazer imediato com risco reduzido e custo acessível.
A política de desoneração tributária para empresas produtoras de bens específicos, tais como eletrodomésticos e automóveis, também estimula os gastos porque aumenta a percepção de que é vantagem antecipar as compras. É melhor comprar agora com preço menor e usar imediatamente o produto, do que fazer o sacrifício de esperar mais e acabar pagando mais caro pela mesma mercadoria no futuro.
Outro estímulo importante é a relativa estabilidade da cotação do real em relação ao dólar. Já faz algum tempo que viagens ao exterior com o objetivo específico de comprar itens para o consumo da família podem ser mais facilmente planejadas e financiadas, justificando unir a necessidade de renovar o guarda roupa, por exemplo, ao prazer de uma viagem de férias.
Com todos os estímulos para gastar, o hábito de poupar vai ficando cada vez mais raro. A relativa complexidade dos produtos financeiros também não incentiva a acumulação de recursos. Atualmente é fundamental ficar atento aos detalhes do mecanismo da aplicação para conseguir o maior ganho possível e evitar prejuízos desnecessários.
Por exemplo, é importante conhecer as taxas de administração do fundo de investimento oferecido pelo banco, escolher o regime tributário do plano de previdência, diferenciar o depósito novo e o antigo na caderneta de poupança e acompanhar as mudanças nas condições do plano de aposentadoria do fundo de pensão.
A despeito das dificuldades, muitos conseguem guardar. Nos últimos três anos a preferência dos poupadores tem sido pelos planos de previdência abertos, do tipo PGBL ou VGBL. De acordo com os dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) a carteira de investimentos dos planos cresceu 23,1% ao ano entre dezembro de 2009 e setembro de 2012.
No mesmo período, a rentabilidade das aplicações de renda fixa, representada pela variação acumulada da taxa Selic, foi de aproximadamente 10% ao ano e o índice Bovespa teve alta de cerca de 7% ao ano. A maior parte do crescimento da carteira de investimento dos planos de previdência, portanto, aconteceu devido aos aportes de novos recursos.
Além do aumento do interesse pelo planejamento para a aposentadoria do investidor de varejo, as grandes empresas adotaram os planos de previdência abertos como benefício adicional para os seus funcionários. Situações como a de Paulo, descrita no caso do IBCPF, em que a maior parte da poupança está representada pelo plano de aposentadoria corporativo, são cada vez mais comuns.
O crescimento das aplicações na caderneta de poupança desde dezembro de 2009 foi de 15,4% ao ano, a segunda maior taxa entre as alternativas mais populares. Cresceram menos o patrimônio dos fundos de pensão (8% ao ano) e dos fundos de investimento oferecidos no varejo (5,6% ao ano) no mesmo período.
A falta do hábito de reservar parte dos recursos para investir pode trazer consequências inesperadas. Uma das recomendações mais desconcertantes do grupo de planejadores do IBCPF que avaliou a situação de Paulo foi a de vender o apartamento e morar com a sogra, para curtir a tão merecida aposentadoria.

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