Lucros magros


Queda dos juros reduz a rentabilidade dos bancos e se espalha por outros setores da Bolsa.

Por Cláudio GRADILONE  - Istoé Dinheiro
Ao comentar, na quarta-feira 24 de outubro, os resultados da processadora de transações financeiras Cielo, seu presidente, o executivo Rômulo Dias, pôde se dar ao luxo de demonstrar um entusiasmo contido. Os números do terceiro trimestre foram apetitosos e mostraram um lucro líquido de R$ 589 milhões, um crescimento de 28, 7% em relação ao mesmo período de 2011, e um avanço de 7, 3% comparado com o segundo trimestre deste ano. “Esse resultado foi consequência de fundamentos sólidos e de uma logística eficiente, além dos investimentos em tecnologia”, afirmou Dias, ao comentar os números. No entanto, ele não hesitou em espargir uma pitada de cuidado em relação às perspectivas da Cielo. 
 
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“Os próximos trimestres serão desafiadores para a empresa, devido à presença dos concorrentes atuais e de outros que ainda vão entrar no mercado”, diz ele. Isso vai pressionar os lucros no futuro? “Acredito que sim, a empresa deverá apresentar margens menores, assim como toda a indústria”, diz. “Esse cenário mais desafiador veio para ficar.” No dia seguinte, o executivo Marcial Portela, presidente do Banco Santander no Brasil, divulgou o desempenho do terceiro trimestre. O lucro líquido caiu 8, 5%, de R$ 1,64 bilhão em 2011 para R$ 1,5 bilhão em 2012. A maior parte dos concorrentes teve resultados igualmente complicados. 
 
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"Os próximos trimestres serão desafiadores para a empresa,
e esse cenário veio para ficar", diz Rômulo Dias, presidente da Cielo
 
O lucro líquido do Itaú Unibanco encolheu 13,4% no terceiro trimestre de 2012 em relação ao mesmo período do ano passado, caindo de R$ 3,94 bilhões para R$ 3,41 bilhões. Não deixou de ser um resultado pujante, mas indica retornos mais magros. A exceção ficou por conta do Bradesco, cujo resultado melhorou 1% no mesmo período, subindo de R$ 2,86 bilhões para R$ 2,89 bilhões. Os resultados mostram que os bancos, tradicionalmente um dos setores mais rentáveis do pregão, terão um cenário difícil pela frente. Ao analisar os números do Santander, o habitualmente comedido Portela foi incisivo ao explicar que essa redução nas margens não é um evento isolado. 
 
“Os bancos, no Brasil, ainda têm de se adaptar aos juros mais baixos”, diz ele. “Esse novo cenário vai levar o tamanho e a rentabilidade do sistema financeiro a novos patamares.” Pelas contas de Portela, os bancos vão crescer, conquistar mais clientes, mas, em contrapartida, vão ganhar menos. “Eles terão de investir em novos produtos, como financiamentos imobiliários e seguros, para fazer frente à queda da remuneração com os empréstimos”, diz. O fenômeno pôde ser sentido mais nitidamente nos bancos, mas, em menor escala, a queda da rentabilidade já se espalhou por diversos setores da economia. 
 
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"Os bancos no brasil terão de se adaptar a um ambiente de juros
mais baixos", diz marcial Portela, presidente do Santander Brasil
 
Um levantamento do sistema de informações financeiras Economática, com as 40 empresas abertas que haviam divulgado seus resultados até o dia 31 de outubro, mostra que mais da metade delas apresentou uma rentabilidade patrimonial menor do que no mesmo período de 2011. Outro indicador foi a margem líquida média para o trimestre, que encolheu levemente, de 12,4% em 2011 para 12,1% neste ano. O divisor de águas para essa autêntica revolução no cardápio dos investimentos foi a queda sustentada dos juros referenciais, medidos pela taxa Selic. “Durante os 15 primeiros anos do plano real havia uma convicção de que o Banco Central tinha de manter os juros reais em 5% ou 6% ao ano para conter a inflação”, diz Flavio Sznajder, sócio da gestora de recursos carioca Bogari Capital. 
 
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A margem líquida: das empresas abertas recuou no terceiro trimestre
 
“Atualmente, há um consenso no governo e no mercado de que juros reais de 1% a 2% ao ano fazem bem o serviço.” Um dos impactos mais óbvios foi a queda dos fundos de ações dedicados a dividendos. Formados por papéis considerados tradicionalmente generosos na distribuição de seus lucros entre os acionistas, esses fundos são uma alternativa mais segura no pregão. Nos três meses findos em outubro, a queda média de uma amostra de 62 desses fundos foi de 2,73%, ante 1,38% nos 90 dias anteriores. Para comparar, o Índice Bovespa havia, respectivamente, subido 1,7% e recuado 9, 2% nesses períodos. 
 
Ou seja, nos 90 dias encerrados no fim de outubro, as ações pagadoras de dividendos perderam popularidade entre os investidores. Como sobreviver a essa dieta forçada e permanecer com as finanças bem-nutridas? Assim como o sedentário acima do peso que troca o cheeseburgher pela saladinha e passa a fazer exercício, é preciso tomar alguns cuidados para não exagerar na velocidade da mudança. Um dos erros mais comuns é passar a comprar ações e títulos de renda fixa mais arriscados. “Agora o investidor tem de ter mais cuidado do que antes ao selecionar as ações em que vai investir”, diz Sznajder. “A principal recomendação passou a ser evitar, ao máximo, os prejuízos.” 
 
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