Cartão Elo demora a deslanchar



Regis Filho/Valor / Regis Filho/Valor
Empresa deve continuar 'startup' até o fim do ano que vem", diz Scalco
Lançada com toda pompa em abril de 2011, a bandeira nacional de cartões Elo, projeto que reuniu Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal em sociedade, passou seu primeiro ano e meio quase despercebida pelo consumidor. Embora os três bancos já estejam emitindo o novo cartão, espalhando-o aos poucos dentro de suas bases de clientes, a bandeira tem pelo menos mais um ano pela frente antes de estar em pé de igualdade para enfrentar os concorrentes internacionais, a Visa e a Mastercard.
Todo o silêncio em torno do projeto não quer dizer que a Elo parou. Os três bancos sócios e o presidente da bandeira, Jair Scalco, asseguram que a Elo, aos poucos, vai superando os dois primeiros obstáculos da breve existência: o desenvolvimento da tecnologia e a aceitação entre os lojistas.
Só superada essa fase é que virá a briga mais ruidosa pela preferência do consumidor. "Ainda somos uma 'startup' e devemos continuar assim até o fim do ano que vem", diz Scalco. "Nossa prioridade é colocar na prateleira os produtos que já existem no mercado com outras bandeiras. Temos que nos igualar primeiro ao que já existe."
No cardápio, a intenção é colocar, por exemplo, a modalidade para financiamento do agronegócio e o cartão BNDES, para pessoa jurídica, ou o crediário, linha de crédito para pessoa física acionada na própria maquininha de captura de transações, o POS. A equipe da Elo também vai aumentar. De 20 funcionários, hoje, deve chegar a algo entre 45 e 50 no ano que vem.
O sucesso do portfólio de produtos, porém, vai depender da solidez do desenvolvimento tecnológico da bandeira. Aí é que está a grande frente em que a Elo vem trabalhando desde que foi fundada. Atualmente, boa parte dos sistemas de operação da bandeira (que envolvem, por exemplo, regras para realização das transações) estão terceirizados. Até mesmo o chip que vai nos cartões hoje é comprado da rival Visa. A Cielo, que tem BB e Bradesco como acionistas, presta os serviços de compensação. Scalco promete que até meados de 2013 toda a parte tecnológica, inclusive o chip, desenvolvido integralmente no Brasil, estarão prontos.
Hoje, cada um dos bancos parceiros trabalha com uma modalidade do cartão. A Caixa emite o de débito, o Bradesco, o de crédito e o BB, o múltiplo (que reúne débito e crédito em um só cartão). Em setembro, a Elo tinha nove milhões de cartões emitidos. Um ano antes, eram aproximadamente 500 mil. É uma parcela ínfima do total de unidades que circulam no mercado brasileiro, estimado em 736,8 milhões pela associação do setor de cartões (Abecs). A meta anunciada da Elo é conquistar uma fatia de 15% do mercado até 2016.
Do total de cartões da Elo, 30% são de crédito e 70% são débito. Só a Caixa, principal emissor por enquanto, tinha 5,7 milhões de cartões de débito emitidos até o meio do ano. O banco tem um total de 60 milhões de cartões de débito. Bradesco e BB não divulgaram seus números relativos a Elo.
Com o cartão de débito, a Caixa tem servido de "ponta de lança" para ganho de volume da bandeira. "O cartão de débito tem uma rentabilidade menor", admite Mário Ferreira Neto, diretor executivo de cartões e seguros do banco federal. "Mas construir uma base boa de cartões tem sido fundamental para fazer volume de aceitação entre os lojistas". Hoje, a bandeira é aceita em cerca de 1,2 milhão de estabelecimentos comerciais, a rede da Cielo.
A Caixa pretende lançar o cartão de crédito em dezembro e o múltiplo no segundo trimestre do ano que vem. "Para a segunda metade de 2013, estamos planejando produtos mais premium com a Elo", diz Ferreira Neto.
Para o Bradesco, não há barreiras tecnológicas impedindo o crescimento da Elo. "Até o início do ano que vem, a bandeira estará homologada em todas as plataformas de cartões do banco", afirma Marcos Bader, diretor-geral da Bradesco Cartões. Esse é um passo importante para o banco, na medida em que leva a Elo para base de cartões de loja, que inclui a operação do Banco Ibi. A instituição pretende lançar o cartão múltiplo da Elo nos próximos meses, além de outros produtos para pessoa jurídica.
O Bradesco também pretende sair na frente com os pré-pagos da Elo. Desde o seu surgimento, a bandeira brasileira trouxe uma forte proposta de atuação na baixa renda, em especial via cartões pré-pagos. Na semana passada, o banco da Cidade de Deus anunciou o lançamento de um cartão pré-pago com a operadora de telefonia Claro. Embora não tenha revelado qual a bandeira que acompanhará o cartão, o Valor apurou que há "fortes chances" de que seja a Elo.
No caso do BB, toda parte tecnológica está pronta para a bandeira Elo. Hoje, o banco é o único a emitir o múltiplo, cartão que reúne crédito e débito. Sua estratégia não prevê versões com só uma modalidade. "A Elo tem sido trabalhada de forma prioritária no Banco Postal", afirma Raul Moreira, diretor de cartões do Banco do Brasil.
Por enquanto, o banco é o único a trabalhar com o Agrocard, planeja cartão para micro e pequenas empresas, além de uma família de cartões pré-pagos para o ano que vem. "São produtos que já estão prontos e dependem apenas do cronograma comercial", afirma Moreira. Ontem, o BB lançou o crediário para cartões Elo.
Em relatório que publicou sobre a indústria de cartões, o Banco Central destacou a criação da bandeira nacional. "A possibilidade de outros emissores e, principalmente, de outros credenciadores participarem desse novo esquema [a Elo] de quatro partes é importante para aumentar a eficiência do mercado de cartões", escreveu o BC.
Esse, porém, é outro ponto que vai esperar mais um pouco. "Poderíamos trazer outro credenciador ou emissor para o projeto, mas essa não é a prioridade agora", afirma Scalco. Hoje, só a Cielo captura as compras com a bandeira.

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