A maldição dos rankings dos mais ricos


Na China, aparecer nos rankings das pessoas mais ricas do país pode ser a senha para perder dinheiro, ser processado e, nos casos mais complicados, acabar indo parar na cadeia por longos anos


Zhou Zhengyi, milionário chinês
Zhou Zhengyi: 11º mais rico em 2002 e condenado a três anos de prisão em 2003 por fraude financeira e a 16 anos em 2008 por fraude e propina
São Paulo - "Enriquecer é glorioso.” A frase foi atribuída nos anos 80 a Deng Xiaoping, líder comunista responsável pelas primeiras reformas que fizeram da China uma potência econômica. A fala que enobrece a riqueza inspirou uma nação de camponeses que vestiam túnicas ao estilo de Mao Tsé-tung e os transformou em adoradores dos cafés da Starbucks e de bolsas Prada e Gucci.
O avanço da prosperidade no país, além de tirar centenas de milhões de pessoas da miséria ao longo de três décadas, deu origem a uma casta de afortunados que só cresce. A China tem 1,5 milhão de famílias milionárias (ou seja, com pelo menos 1 milhão de dólares em ativos financeiros), quase cinco vezes mais que há cinco anos.
Em 2013, o país deverá abrigar o segundo maior grupo de milionários do mundo, atrás só dos Estados Unidos. É desse grupo que emerge o “clube do bilhão”. Pela lista da revista americana Forbes, aChina concentra hoje 8% dos bilionários do mundo — atrás somente dos Estados Unidos, com 35%, e da Rússia, com 9%. 
Para os empresários ocidentais, estar na lista é sinal de sucesso e uma honraria como poucas. Para os chineses, isso pode ter ares de desgraça. “Na China, os levantamentos de bilionários são chamados de ‘listas da morte’. Os muito ricos detestam aparecer neles”, diz Shaun Rein, diretor da empresa de pesquisa especializada em consumo de luxo China Market Research Group, de Xangai.
Não são raros os que insistem para ficar fora dos rankings mais tradicionais, como o da Forbes e o da revista chinesa Hurun. Ren Zhengfei, presidente da Huawei, maior fornecedora global de equipamentos de telecomunicações, já mandou cartas ameaçadoras aos organizadores da Hurun e usou até seu time de advogados para tentar ficar fora — hoje ele é o número 571 da lista, com 470 milhões de dólares.
O medo dos empresários não é de todo descabido. Para um homem de negócios chinês, é muito mais provável ser acusado, investigado ou preso depois de ser listado — 17% dos ricos viveram uma dessas três situações, ante 7% de uma amostra de empresários nunca listados.
Esses dados constam de um estudo recente da Escola Internacional de Negócios China-Europa, de Xangai, também conhecida pela sigla em inglês Ceibs. Pelos cálculos da própria Hurun, 24 pessoas que já apareceram em seu ranking acabaram na cadeia, a maioria acusada de pagar propina, manipular o mercado de ações ou por fraudes. 
Uma das prisões mais comentadas foi a de Huang Guangyu, fundador da rede Gome, segunda maior cadeia varejista de eletrônicos da China. Dois meses após ter sido apontado o homem mais rico do país, em 2008, com 39 anos de idade e uma fortuna estimada em 6,3 bilhões de dólares, Huang sumiu.
Dias depois, soube-se que havia sido acusado de manipulação do mercado. Em 2010, foi condenado a 14 anos de prisão por suborno. Diante desse quadro, fica fácil entender por que o mercado costuma punir quem aparece entre os chineses mais endinheirados. “A queda das ações das empresas dessas pessoas costuma ser rápida após a divulgação das listas”, diz Oliver Rui, professor de finanças da Ceibs.
A perseguição aos muito ricos coloca em evidência uma das grandes contradições da China. Controlados com mãos de ferro por um sistema ditatorial, os chineses foram incentivados a em­preen­der e enriquecer.
Ironicamente, os que tiveram mais sucesso nessa empreitada acabaram dando destaque a algo que o Partido Comunista gostaria de manter escondido: uma sociedade com divisão de classes. Uma divisão, é bom lembrar, que só faz aumentar. Nos últimos 25 anos, o índice de Gini, principal termômetro da disparidade de renda, duplicou na China. 
Nesse contexto, a condenação de bilionários funciona como uma válvula de escape, a hora de a base da pirâmide lavar a alma. No romance The Curse of Forbes (“A maldição da Forbes”, numa tradução livre), publicado em 2009, o escritor chinês Wang Gang relata as desventuras de um ricaço emergente da construção civil que acaba indo parar na prisão.
São do protagonista frases como: “Quem entra na lista da Forbes vira carne morta”. É quase desnecessário dizer que o livro virou um best-seller e já rendeu uma continuação, lançada no ano passado.
Aos inimigos, o partido
A relação do PC com os empresários é recente. Foi somente em 2002 que representantes do setor privado começaram a ser aceitos como membros. O que no Ocidente muitas vezes é uma manobra para conseguir apoio financeiro, na China foi uma clara política de cooptação.
Para o partido, os empresários representavam uma grande ameaça em potencial: uma força independente, bem financiada e com uma extensa rede pelo país. Para os empresários logo ficou clara a importância de ter “um chapéu vermelho” — uma proteção contra perseguições e um lugar para fazer contatos com quem manda.
Não é coincidência que, dos 1 000 chineses mais ricos, 150 tenham algum assento no governo. Mesmo com essa aproximação, o temor de acabar preso é grande. “O ano de 2012, assim como 2002, é especialmente sensível”, diz Rupert Hoogewerf, diretor da Hurun, em referência à troca de comando na cúpula do PC esperada para este ano.
O medo de cair em desgraça com quem assumir o poder explica o esforço de esconder a riqueza. “Na China, é inegável que quem passa despercebido tem uma vida mais fácil”, diz David Goodman, professor da Universidade de Sydney e autor do livro Twentieth Century Colonialism and China (“Colonialismo do século 21 e China”, numa tradução livre).
Wang Gang, o romancista que está faturando com suas histórias sobre os ricos, costuma dizer que todos eles venceram por terem corrompido ou burlado as leis. Nesse ambiente de caça às bruxas, a frase de Deng precisa ser atualizada: enriquecer pode ser doloroso.

PARCEIROS E COLABORADORES UTILIZAM:

.