Takanobu Ito, presidente mundial da Honda


"Nós não vamos perder para os chineses"

Poucos setores da economia simbolizam tão bem a internacionalização das marcas chinesas quanto a indústria automobilística.

Por Hugo CILO

Nos últimos três anos, dez marcas de lá desembarcaram no mercado brasileiro – na mais intensa ofensiva estrangeira já vista no segmento. Algumas delas, como a Chery e a JAC, estão construindo fábricas no País para ganhar competitividade e aproveitar os benefícios fiscais anunciados pelo governo federal. Essa concorrência é boa para o consumidor, mas tem sido observada com atenção pelas montadoras veteranas no Brasil, como a Honda. No entanto, para o presidente mundial da marca, Takanobu Ito, a fabricante japonesa está pronta para a disputa. “E não vai perder”, disse o executivo à Dinheiro.

DINHEIRO – O mercado automobilístico brasileiro está se transformando de forma muito rápida, obrigando as montadoras a se adaptarem. Como o sr. avalia essa mudança? 
TAKANOBU ITO – Eu já vim umas dez vezes ao Brasil. Cada vez que venho, percebo que mais carros estão circulando pelas ruas. Esse não é um fenômeno exclusivo de grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro. Em Manaus, por exemplo, há cada vez mais congestionamentos, algo que não existia alguns anos atrás. Para o mercado automobilístico, isso é sinal de que as vendas estão indo muito bem.
 
DINHEIRO – O novo regime automotivo anunciado pelo governo federal será suficiente para estimular os investimentos nos próximos anos?
ITO – O plano de medidas desenvolvido pelo governo é muito bem-vindo e vem ao encontro da nossa política interna. A redução de impostos para as montadoras que investirem em pesquisa e tecnologia com certeza ajudará a modernizar a indústria como um todo e fortalecerá as empresas que estão dispostas a oferecer produtos melhores e mais eficientes. 
 
DINHEIRO – E a redução do IPI, que foi estendida até o fim do ano, não deveria ser uma desoneração permanente, na sua opinião? 
ITO – Acredito que todos os planos de estímulo elaborados pelo governo brasileiro estão mostrando bons resultados e, sempre que forem necessários, serão prorrogados para estimular o consumo e garantir uma aceleração à economia.
 
DINHEIRO – A Honda pretende lançar algum modelo popular para concorrer com o Toyota Etios e o Hyundai HB 20?
ITO – Vamos lançar o Honda Fit Twist, o primeiro carro da nossa marca desenvolvido exclusivamente para o mercado brasileiro. O visual do carro foi pensado de acordo com os gostos e preferências do consumidor local, sem abrir mão dos atributos que fizeram do Fit um sucesso de vendas. Por enquanto, vamos celebrar o lançamento desse modelo. O lançamento de outros modelos, com certeza, será pensado em um futuro próximo. 
 
DINHEIRO – A Honda não corre o risco de ficar para trás no segmento dos populares, que responde por mais de 50% das vendas no País?
ITO – Acabamos de lançar na Ásia um carro popular compacto que se chama Brio. É um modelo que se enquadra nesse perfil a que você está se referindo. Mas, por enquanto, é um carro concebido para o mercado asiático. Sabemos que nosso desempenho não depende apenas de ter um carro barato, mas de ter um produto que tem a confiança dos consumidores.
 
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Casas pegam fogo em área inundada pelas águas do rio Natori, no noroeste do Japão
 
DINHEIRO – O mercado brasileiro não comporta mais lançamentos da Honda, já que o Fit, o New Civic e o CVR são modelos que já estão há muitos anos disponíveis no País? 
ITO – O mercado brasileiro é muito grande e promissor. Temos a confiança de que nossos clientes estão muito satisfeitos com nossos produtos. Por isso, queremos ampliar ainda mais essa percepção de confiança conquistada com os carros e motos que já temos, não nos preocupando tanto em lançar outros modelos. 
 
DINHEIRO – As marcas chinesas estão entrando com tudo no mercado, oferecendo carros mais equipados e com preços mais acessíveis que os das marcas japonesas. Isso não o preocupa?
ITO – Não estamos preocupados com isso porque temos absoluta confiança em nossos produtos, e sabemos que os consumidores também sentem a mesma confiança na qualidade Honda. Por isso, nós não vamos perder para os chineses. Temos credibilidade. Somos a marca mais popular em motocicletas e queremos ser assim também em automóveis. Para isso, vamos reforçar nosso portfólio, a rede de concessionárias e o desenvolvimento de produtos.
 
DINHEIRO – As marcas chinesas não podem construir uma relação de credibilidade com os brasileiros?
ITO – Sim, podem. E farão isso. Só que sempre estaremos à frente, porque não paramos de investir em pesquisa e novas tecnologias. No segmento de motocicletas, somos líderes há décadas. Quem tem uma moto Honda confia na marca. Esses mesmos consumidores, com o aumento do poder de consumo, com certeza comprarão carros da Honda, movidos pela confiança. Continuaremos a fortalecer nossa relação com os consumidores, com novos produtos e produtos cada vez melhores, enquanto as novas marcas precisarão trabalhar muito para construir uma boa reputação. Um dia essas marcas terão seus conceitos definidos pelos consumidores, boas ou não, mas 
isso leva tempo. 
 
DINHEIRO – Os problemas causados pelo tsunami no Japão foram superados pela indústria do país? 
ITO – Toda a indústria japonesa, não apenas as montadoras, foi afetada pelo terremoto e pelo tsunami, mas hoje tudo está normalizado. 
 
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Joalheria de luxo na Rua Oscar Freire, em São Paulo
 
DINHEIRO – A crise europeia transformou o Brasil em prioridade para as empresas do seu país?
ITO – Existem três regiões que são prioridade para nós. A China, que é o maior mercado do mundo em termos de crescimento, o restante da Ásia e o Brasil. A expansão das vendas de veículos no Brasil faz do país uma peça de extrema importância para as nossas estratégias globais. 
 
DINHEIRO – Como a crise europeia está afetando os negócios da Honda e da indústria automobilística?
ITO – As operações da Honda no mercado europeu são muito pequenas em comparação à maioria das grandes montadoras. Na minha opinião, a crise não será resolvida em pouco tempo. Mas estamos relativamente tranquilos porque as vendas estão crescendo em outros países.

DINHEIRO – E no Brasil?
ITO – A participação de mercado da Honda passou de 1,8% em 2011, para 3,9%, em julho deste ano. Dobramos nossa fatia em apenas um ano graças à renovação de nossa linha de produtos, e por estarmos sempre alinhados ao que o brasileiro quer. Superamos, três meses atrás, a marca de um milhão de unidades produzidas no País. Essa marca foi atingida em 15 anos. Nossa meta é vender mais um milhão nos próximos cinco anos. 
 
DINHEIRO – A participação maior no mercado não motiva a montadora a trazer novidades ao País?
ITO – Sim. Além do Fit Twist, lançaremos o New Civic 2.0, a CVR flex e, em 2015, começaremos a vender nossos carros de luxo da marca Acura.
 
DINHEIRO – Trazer a marca Acura faz parte de uma estratégia para elitizar a marca Honda?
ITO – Não, porque a imagem da Honda já está consolidada. Nós apostamos muito no mercado de luxo brasileiro. Por isso, traremos uma marca premium. O que faremos com a Acura representa uma diversificação dos negócios. Inicialmente, ofereceremos três modelos da marca: o esportivo NSX, o sedã ILX e o utilitário esportivo RDX. Há cerca de 25 anos, eu participei do desenvolvimento do NSX. Me orgulho de fazer parte do projeto e desse novo momento do carro.
 
DINHEIRO – E os investimentos?
ITO – Por uma questão estratégica, nós não revelamos detalhes de nossos planos de investimento. O que posso dizer é que, nos próximos dois anos, vamos investir R$ 100 milhões na ampliação de nosso centro de pesquisa e desenvolvimento. Nos últimos 15 anos, investimos mais de US$ 1 bilhão aqui. Antes, os projetos vinham prontos do Japão. A partir de agora, faremos projetos locais, com aumento de estrutura e de engenheiros.
 
DINHEIRO – Planeja uma nova fábrica?
ITO – Por enquanto, não é necessário. A unidade de Sumaré, no interior de São Paulo, tem condições de atender à demanda atual e continuar suprindo o crescimento das vendas para os próximos anos.
 
DINHEIRO – Até quando a fábrica conseguirá suprir o ritmo de crescimento?
ITO – A fábrica tem apenas 15 anos e possui uma estrutura moderna, que pode aumentar a produtividade com alguns ajustes. Se for necessário, podemos ampliar a unidade. Se precisarmos de outra fábrica, estaremos prontos para construir. Como já disse, o Brasil é uma das nossas prioridades.

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