Perda de credibilidade de alguns setores afugenta investidores



A contabilidade é instrumento primordial para a análise fundamentalista, pois permite a gestores e analistas avaliarem a situação patrimonial das companhias. Contudo, a fragilidade das demonstrações contábeis de alguns setores tem afugentado os investidores, especialmente os de bancos médios e incorporadoras.
No post “Análise fundamentalista: quando menos é mais”, de 24/09/12, mostrei que a migração para o padrão contábil internacional IFRS, a falta de padronização entre as companhias de um mesmo setor, indefinições fiscais e balanços manipulados estavam tornando a rotina do analista de ações mais árdua. Como sugestão para aumentar a qualidade da análise, sugeri a redução do número de empresas cobertas por analista.
Outro reflexo da maior complexidade da análise contábil é que os investidores têm fugido de alguns setores, como os de bancos de menor porte e incorporadoras. Já comentei em post anterior que a tese de investimento dos bancos médios é frágil (“Qual o futuro das ações dos bancos médios?”, de 28/11/2011). Além disso, a ocorrência de operações questionadas pelo Banco Central no PanAmericano (BPNM4) e no Cruzeiro do Sul criou um contágio sobre os demais. Assim, vários bancos médios estão negociando abaixo do valor patrimonial por ação, como o BIC (BICB4), Sofisa (SFSA4) e Indusval (IDVL4), por exemplo.
É verdade que a situação do setor bancário europeu contribui para essa situação, mas não há como negar que a falta de confiança dos investidores nas demonstrações contábeis tem contribuído para essa situação. Isso fica claro quando lemos a reportagem “Empresas brasileiras ficam de fora da corrida por fundos de alto risco”, publicada no Valor de 02/10/12. Andrew Feltus, vice-presidente sênior da gestora Pioneer Investments, afirma: "Os bancos são mais difíceis de analisar, não são muito transparentes como uma companhia exportadora de carnes ou qualquer outro produtor em que podemos ver o que elas realmente produzem para mensurar o seu valor". Embora a reportagem seja dedicada a fundos de dívidas corporativas, creio que os gestores de ações possuem visão parecida.
Outro setor cujas demonstrações contábeis perderam credibilidade é o de incorporação imobiliária, devido aos seguidos estouros de orçamento de obras, significando que as estimativas dos dirigentes estavam muito otimistas. Isso explica o porquê de diversas ações estarem negociando abaixo do valor de liquidação (“net asset value - NAV”), como Brookfield (BISA3) com 0,9 vez, Gafisa (GFSA3) com 0,6 vez, PDG (PDGR3) com 0,9 vez, Rossi (RSID3) com 0,7 vez, entre outras. O que é NAV?  Ele representa o valor que os acionistas receberiam hoje caso a empresa fosse liquidada após se apurar os ativos e se deduzir as despesas. Considerando que a empresa ainda possui projetos a serem lançados no futuro, não faz sentido que o preço da ação seja inferior ao NAV. Isso somente ocorre em situações de crise. Dessa forma, o fato de empresas com excelente liquidez, como as citadas acima, negociarem abaixo do preço de liquidação somente confirma que as demonstrações contábeis dessas empresas não têm transmitido confiança aos investidores.
As companhias conseguirão retomar a confiança dos investidores? Acredito que sim, mas não será tarefa fácil. Como diz o ditado: a confiança leva anos para ser construída e minutos para ser destruída.

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