Os riscos das gestoras ao investir em ações de cias estrangeiras



O número de gestoras brasileiras que tem aplicado em mercados acionários estrangeiros está aumentando. Conheça os prós e contras dessa estratégia.
O principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, apresenta elevada volatilidade em decorrência de a composição do índice ser muito concentrada em ações de produtoras de commodities e de instituições financeiras. Assim, a bolsa brasileira torna-se mais volátil do que a bolsa americana, apesar da crise vivida pela economia americana, envolvida com rebaixamento de rating, risco de insolvência fiscal e política monetária expansionista. Veja o post “O Ibovespa é mais arriscado do que o S&P 500. Até quando?”, de 17/02/12.
Além disso, essa composição do índice faz o nosso mercado refletir com maior intensidade a crise externa. Por exemplo, as ações de Vale (VALE5) são influenciadas pela baixa demanda da economia mundial e as incertezas sobre a economia chinesa, enquanto a crise bancária europeia indiretamente impacta as ações dos bancos brasileiros. O post “Vamos investir em ações no exterior? Em busca da diversificação”, de 28/08/12, mostra que nos dois últimos anos o Ibovespa só superou os índices francês e espanhol, ficando atrás do alemão, inglês, mexicano e americano.
Por fim, as ações com liquidez razoável das companhias mais procuradas da bolsa brasileira, aquelas cujas atividades operacionais são voltadas para o mercado doméstico, já apresentam múltiplos esticados.
As três características acima impulsionam os gestores brasileiros a buscar ativos no exterior, como mostrado na reportagem de Silvia Rosa “Gestor brasileiro aposta em ações dos EUA”, de 1/10/12. Adicionalmente, a economia não apresentou crescimento robusto nos dois últimos anos, o que tirou apetite pela bolsa local.
Embora essa diversificação geográfica faça sentido de forma a dar um maior equilíbrio risco-retorno da carteira, tenho algumas dúvidas sobre a tática.
Caso a equipe das gestoras aumente o número de empresas cobertas sem fazer novas contratações, a qualidade da análise tende a se reduzir. Muitas casas “vendem” a seus investidores o discurso de que analisam as companhias integrantes de seu portfolio de forma minuciosa, tentando abranger todos os ângulos: fornecedores, clientes, concorrência, aspectos legais. Aumentando o escopo das companhias avaliadas, a análise tende a ser mais superficial. Além disso, questiono a vantagem competitiva de uma equipe de brasileiros baseada em São Paulo entender em detalhes o sistema tributário e o ambiente regulatório de países tão distintos.
Assim, a escolha dos ativos passa a basear-se em metodologias de mais fácil comparabilidade, como múltiplos – FV/EBITDA, P/L (preço por lucro) –, por exemplo.
Essa análise mais superficial também incentiva a seleção com base na tese de investimento das companhias. Isso ocorreu muito durante o boom de aberturas de capital de empresas brasileiras até 2007. Os investidores estrangeiros observavam mais o setor em que as companhias atuavam e sua correlação com a dinâmica da economia brasileira do que a própria empresa em si. Assim, a decisão de investimento baseava-se em um pensamento simplista: “a logística/educação/saúde/construção civil é um entrave ao desenvolvimento do país, vai haver investimentos, então vamos comprar as ações das empresas do setor”. Se o segmento econômico que preenchesse a lacuna desse sentido à frase, as chances de atrair investidores aumentavam.  Parece pueril, mas observei essa lógica em diversas reuniões que tive com estrangeiros. Por isso, o “discurso de venda" adotado pelos bancos de investimento brasileiros realçava mais os aspectos macroeconômicos.
Temo que os investimentos das gestoras brasileiras no exterior adotem o raciocínio acima, ou seja, decisões de investimentos baseadas unicamente em múltiplos e em teses de investimento.
O aumento do número de empresas analisadas demanda contratação de mais gente. As gestoras arcarão com esse custo adicional? E vou além: conseguirão obter pessoas qualificadas para analisar companhias estrangeiras? É bom o cotista desses fundos fazer essas indagaçôes às próprias gestoras

PARCEIROS E COLABORADORES

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