Análises macroeconômicas além da mesmice


Como regra, a seleção de ações baseia-se em um determinado cenário macroeconômico. Escolhe-se um setor que se beneficiará naquele contexto e, posteriormente, as ações das companhias daquele segmento melhor posicionadas. Dessa forma a leitura de artigos que tratam de macroeconomia é fundamental para o analista. Mas, cá entre nós, a maioria deles trata dos mesmos temas com ligeiras diferenças. Assim, quando nos deparamos com artigos originais, é bom ficar atentos. Quais são os temas macroeconômicos atuais de interesse dos investidores?

Colunas e artigos têm abordado com frequência temas como inflação e política fiscal. Os economistas ortodoxos criticam o Banco Central por ser leniente com a inflação, pois apesar de o índice geral de preços estar algum tempo acima da meta, a autoridade monetária continua reduzindo a Selic. Em relação à política fiscal, a crítica é a de que o governo federal continua expandindo seus gastos correntes acima do crescimento do PIB implicando em redução do superávit primário e incremento do endividamento em relação ao PIB. Esses temas são relevantes, mas, com pequenas diferenças, os artigos se assemelham muito.
A Santander Corretora patrocinou um evento com empresas e investidores institucionais. Ao final foram feitas algumas perguntas, dentre elas, “Quais são as principais preocupações para o mercado acionário brasileiro para os próximos doze meses?”. Dos investidores, 25,4% indicaram o crescimento econômico da China; 23,9% a saída desorganizada de algum membro da zona do Euro e empatados com 15,5% aparecem duas preocupações: a inflação no Brasil e o abismo fiscal americano (a redução de gastos públicos e aumento de impostos esperados para 2013).    
Prova de que a inflação não ocupa lugar de destaque entre as apreensões dos investidores ocorreu na última sexta-feira (05/10/12). O IPCA de setembro alcançou 0,57% acima do de agosto de 0,41%. A inflação acumulada dos últimos doze meses de 5,3% permanece acima da meta de 4,5%. Preços de alimentos e de serviços continuam pressionados. Contudo apesar da má noticia, o Ibovespa fechou o dia subindo 0,19%.
A preocupação com a economia chinesa é pertinente. O artigo ”Falling Star” da revista eletrônica Barron’s de 30/06/12 elenca diversos problemas que podem prejudicar a economia chinesa no médio prazo, corroborando a preocupação dos investidores pesquisados.
Primeiro, a economia chinesa apresenta rendimentos decrescentes devido à baixa eficiência.  O crescimento econômico decorre mais da alocação de grande quantidade de mão de obra e elevados investimentos em equipamentos e infraestrutura do que na obtenção de eficiência e inovação. A falta de inovação deriva da estrutura produtiva. A economia chinesa é dominada por gigantes companhias públicas devido a posições de oligopólio, crédito barato, benefícios fiscais e subsídios a insumos. Com isso, as empresas que mais contribuem para a inovação, como as pequenas e médias organizações privadas, ficam à margem do processo. Em outras palavras, o crescimento econômico é fomentado pela alocação maciça dos fatores de produção, mas sem a preocupação de produzir mais com menos insumos. Segundo o texto, economias, como a soviética nos anos 50 e a japonesa nos anos 60, que tentaram promover o crescimento apenas com o uso intensivo dos fatores de produção não atingiram bons resultados.
 Segundo, a reportagem aponta uma bolha no mercado de construção residencial. Esse segmento representa 9,2% do PIB chinês, enquanto nos EUA no pico do boom imobiliário em 2006 era de 6%. Entre os maiores países, apenas a Espanha superou aquele índice, antes do colapso do segmento. Outros números impressionam: 25% do consumo de aço vão para o segmento de construção residencial; 20% dos residentes em Beijing possuem dois ou mais apartamento na cidade; e entre 30% a 40% das rendas anuais dos governos locais vêm da venda de terrenos. Dessa forma, um colapso do segmento imobiliário traria impactos sobre o efeito riqueza de parte da população e sobre o orçamento público.
Terceiro, a demografia deixará de ser um aliado do crescimento no médio prazo. A população em idade produtiva começará a declinar a partir de 2015 em decorrência da adoção da política pública de um filho por família nos últimos 30 anos. Com a redução da oferta de mão-de-obra, os salários têm crescido além da inflação impactando o custo das companhias.
Quarto, o sistema bancário estatal carrega um “não desprezível” volume de empréstimos inadimplentes. Alguns argumentam que, como a China possui elevadas reservas, a dívida pública chinesa alcança apenas 50% do PIB comparada a um índice superior a 80% nos EUA. Contudo, Victor Shih, cientista político da Northwestern University, faz uma análise distinta. Caso se considere a dívida de todos os entes estatais como empresas públicas e governos locais, o endividamento se eleva para 150% do PIB.
Para que a economia brasileira continue a dar bons resultados é fundamental que a economia chinesa não entre em colapso. Rezemos para que as análises acima estejam equivocadas.

.

.