A pessoa física na contramão?


Apesar de a regra sugerir que o investidor “compre na baixa e venda na alta”, a pessoa física, em regra, adota a postura oposta.  Após a crise de 2008, esse investidor continua avesso ao mercado acionário. Faz sentido?

A partir de 2003, após a posse do PT no governo, mostrando que manteria uma política de disciplina fiscal, e a ascensão da China, que beneficiou a pauta de exportação brasileira, gerando superávits comerciais, a bolsa brasileira atraiu o investidor pessoa física. O número de cadastros na BM&FBovespa pulou de 85,2 mil investidores em dezembro de 2002 para 456,6 mil no fim de 2007. Naquele ano foi batido o recorde em número de aberturas de capital no mercado brasileiro, com 64 companhias. A base permaneceu crescendo até 2010, mas já em um ritmo bem mais lento, alcançando 610,9 mil em dezembro de 2010. De lá para cá, o número de investidores vem caindo, tendo atingido 579,3 mil pessoas em julho/12.
Outra forma de constatar o desinteresse da pessoa física pela bolsa é observando-se o público presente à feira Expo Money em São Paulo, cujo foco era o mercado de ações. Em 2003, ano da inauguração do evento, 9,2 mil estiveram presentes. Em 2007, ápice do mercado acionário brasileiro, quase vinte mil pessoas transitaram entre os estandes. Contudo, em 2008, auge da crise, esse número despencou para 16,1 mil pessoas. Desde então vem crescendo novamente e alcançou 21,5 mil pessoas em 2012. Contudo, cabe destacar que, este ano, a feira não se dedicou exclusivamente ao mercado acionário, havendo palestras sobre empreendedorismo, finanças pessoais e carreira.
Um investidor tende a seguir o outro, movimento conhecido como efeito manada, o que explica por que quando a bolsa cai o investidor acaba vendendo suas ações. A aversão ao risco domina nessas ocasiões. Quem fez o sentido inverso, entrando na bolsa em 2008, não deve estar reclamando. O Ibovespa atingiu 37.550 pontos em dezembro/08 e fechou a última sexta-feira (05/10/12) a 58.571 pontos.
Entendo que é difícil adquirir ações quando a maioria das pessoas adota um tom pessimista. Por que somente você estaria correto? Mas e no momento atual? A bolsa está cara ou barata?
A Santander Corretora patrocinou um evento entre empresas e investidores institucionais em setembro último. Ao final do evento, um questionário era entregue aos participantes com algumas perguntas, dentre elas esta: “Em sua opinião, o mercado brasileiro de ações está caro ou barato?” Dos participantes, 47,8% responderam que ele já estaria no preço, enquanto 45,7% disseram que o mercado se encontrava em níveis intermediários. Apenas 6,5% consideraram as ações baratas. Esse resultado mostra o grau de indefinição do mercado. Acredito que a incerteza com relação à Europa e à China tem causado essa insegurança no Brasil. Apesar disso, cerca de 50% dos investidores não consideraram a bolsa cara.
Outra pergunta interessante foi: “Considerando os riscos correntes, qual é o múltiplo P/L (preço por lucro) no qual você venderia suas ações agressivamente?” Noventa por cento responderam que seria acima de 12 vezes. O mercado negocia hoje em torno de 10 vezes, o que mostra que não há uma pressão vendedora no curto prazo.
Uma discussão interessante é se o problema do crédito no Brasil é estrutural ou apenas um rearranjo cíclico. Dos investidores, 82% responderam que o Brasil atravessa apenas um declínio cíclico. Essa resposta contraria o argumento de que o país estaria perdendo a condição de “queridinho” dos investidores, o que é bom sinal.
O investidor pessoa física considera que a bolsa brasileira seja o Ibovespa. O noticiário, quando trata da bolsa, em regra, o cita. E o índice não tem sido um bom parâmetro, pois é carregado de ações de commodities que têm sofrido em decorrência do cenário externo conturbado. Contudo, quando se olha além do Ibovespa, cerca de 70 ações com liquidez têm apresentado comportamento satisfatório no ano, com valorização de ao menos 20%.
Resumindo, os investidores institucionais em geral não consideram a bolsa brasileira cara. Uma boa seleção de ativos pode ainda trazer bons retornos. A queda dos juros exige uma postura mais ativa nos investimentos. É bom que haja essa incerteza sobre a dinâmica futura do nosso mercado acionário. Provavelmente, quando a bolsa voltar a fazer sucesso, como em 2007, será a hora de sair.

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