A companhia se esconde, a ação sofre


O interesse dos investidores pelas empresas brasileiras vem crescendo desde 2004, ano que marca a revitalização do mercado de capitais. O primeiro contato ocorre, em geral, com o Departamento de Relações com Investidores (RI). Como tem sido o trabalho desta importante divisão das empresas? Ela tem contribuído para um melhor desempenho das ações?

O primeiro contato do investidor ocorre geralmente via RI. Só isso já demonstra a importância desse departamento para o desempenho das ações das companhias. De acordo com Instituto Brasileiro de Relações com Investidores o (Ibri), um programa de RI “se mostra mais eficaz quando há estreitamento entre o valor percebido da empresa, por investidores e analistas, e seu valor intrínseco”. Ele “objetiva reduzir os descontos aplicados pelo mercado por conta da redução das incertezas, resultando na diminuição do ‘gap’ [distância] entre valor ‘justo’ da empresa e seu valor percebido pelo mercado”. Além de direcionar o preço da ação para um valor mais próximo do preço justo, o RI reduz a volatilidade da ação ao aumentar a previsibilidade dos resultados. Ou seja, a obtenção de um melhor preço para o papel e a redução da volatilidade são as metas de um bom programa de RI. Não é pouco. Em outras palavras, o RI tem o poder de elevar a riqueza dos acionistas.
Contudo, a maior parte dos controladores das empresas não compartilha dessa visão. No Brasil, o principal responsável pela área de RI é o diretor financeiro. Esse profissional divide sua atenção entre diversas funções. É um profissional que, muitas vezes, está distante da rotina da área. O departamento ainda é visto como centro de custo. Assim, é muito comum observarmos profissionais inexperientes atendendo os investidores. Como reflexo, a maior parte dos analistas e gestores preferem falar com o Presidente ou Diretor Financeiro. 
A atitude do profissional de RI deve ser proativa. Ele deve ser um vendedor equilibrado, prometendo apenas o que a companhia pode entregar. Não adianta informar estimativas oficiais não factíveis, pois a cotação pode até subir em um primeiro momento, mas a perda de credibilidade será danosa para o desempenho das ações no médio prazo. Um exemplo de proatividade ocorreu com a empresa de cadastramento de cartões Cielo recentemente. Na reportagem “Ação da Cielo cai com temor de risco político”, de 1/10/12, o repórter Felipe Marques informa que o presidente da companhia reuniu um grupo de analistas que cobrem a empresa em um almoço para discutir o tema “Parcelamento sem juros e incerteza política” já que as ações estavam apresentando forte queda.
Por outro lado, um exemplo de falta de proatividade tem ocorrido durante os períodos de divulgação de resultados. O Comitê de Orientação para Divulgação de Informações ao Mercado (Codim) emitiu, em 2009, um pronunciamento de orientação padronizando “os procedimentos com relação a um período de silêncio antes da divulgação das demonstrações contábeis, como forma de contribuir para a adoção de boas práticas de governança corporativa”.
O pronunciamento diz que as companhias não devem “divulgar informações privilegiadas sobre seus resultados, a pessoas fora do âmbito dos profissionais envolvidos, durante o período de preparo e aprovação dessas demonstrações contábeis”. Mas o próprio pronunciamento informa: “Por outro lado, todas as outras informações rotineiras da empresa, devem continuar a ser transmitidas ao mercado para não prejudicar o acompanhamento de suas atividades pelo público estratégico”. Pois bem. É bom que as associações que compõem o Codim saibam que muitas áreas de RI têm se utilizado do pronunciamento para evitar qualquer contato com analistas, gestores e investidores.
Na última semana, entrei em contato com uma companhia a fim de perguntar sobre um lançamento tributário que a companhia havia feito no passado. Eu não tinha qualquer interesse em falar sobre o resultado trimestral, até porque sou cético em relação ao ganho obtido com essa informação (veja post “A importância exagerada dada aos resultados trimestrais”, de 17/10/11). A área de RI disse que não podia me atender, pois estava em “período de silêncio”. Essa companhia possui cobertura de apenas três analistas. Um novo contato deveria ser comemorado. Mas não. A companhia preferiu se esconder atrás do período de silêncio.
Essa omissão pode ser danosa. Ano passado, uma gestora avaliou, em sua carta aos cotistas, que algumas companhias estariam usando a chamada ‘contabilidade criativa’ (ou agressiva) na hora de apresentar seus dados. Embora o texto não citasse nomes, o mercado associou o conteúdo a duas companhias. Uma das empresas alegou que não podia combater os rumores, pois estava em “período de silêncio”. No meu entendimento, o pronunciamento não impedia que a companhia viesse ao mercado esclarecer a situação. Esses exemplos mostram que o mau uso da orientação do Codim começa a prejudicar as próprias empresas.
Do jeito que a coisa vai, não demorará a assistirmos o inusitado diálogo entre um analista e um profissional do RI:
“Gostaria de obter o endereço da sede da empresa, por favor.”
“Desculpe, mas não poderei atendê-lo. Estamos em período de silêncio.”

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