As companhias nunca pagaram tantos dividendos



O montante de dividendos pagos no 3º trimestre nos EUA deverá ser o maior da história. Essa distribuição ocorre por um motivo saudável? O foco dos investidores nos dividendos é cíclico, aumentando em épocas de crise. Qual é a regra fundamental que se deve seguir quando se fala em dividendos?
Com a crise a partir de 2008, está na moda se concentrar em ações que paguem dividendos atrativos. Em tese, essas ações são mais seguras para encarar cenários turbulentos. Assim, de acordo com reportagem da Bloomberg, “as ações de companhias de serviços públicos, tradicionais boas pagadoras de dividendos, que normalmente são negociadas com desconto em relação à média do mercado, hoje estão com um ágio de cerca de 30% - seu maior prêmio histórico em relação ao mercado de ações” americano. Mas nem sempre foi assim. “Na década de 90, havia um preconceito. Se uma companhia tivesse que pagar dividendos era porque não estava tendo oportunidades de crescimento”, diz Eric Sappenfield, gestor do Mainstay Epoch Global Equity Fund, citado no mesmo artigo.
Por essas colocações, podemos dizer que o foco dos investidores nos dividendos obedece ao comportamento do mercado acionário. Em ciclos de alta, os dividendos perdem apelo, retornando aos holofotes em crises.
Outra reportagem, essa do Financial Times, “Novo recorde nos EUA, apesar de lucro menor”, publicada na edição do Valor de 11/09/12, informa que “após pagar um recorde de US$ 67 bilhões no segundo trimestre, as companhias do S&P500 estão a caminho de superar esse valor nos três meses encerrados em setembro, de acordo com estimativas de S&P Dow Jones Índices”.
A maior parte dos investidores está satisfeita, pois dividendos em épocas de crise e juros baixos são um dos ativos mais desejados. O retorno de dividendos junto com a recompra de ações se encontra em 4% a.a., cerca de 250 pontos bases acima do retorno do bônus do Tesouro americano de 10 anos. Contudo, alguns analistas já começam a questionar se a distribuição de dividendos deve continuar generosa se os lucros estão cadentes, pois isso poderia comprometer a situação financeira das companhias. Na verdade, as empresas não estão confiantes em investir enquanto o cenário macroeconômico for nebuloso. Existe a possibilidade do “fiscal cliff” (aumento de impostos e corte de despesas públicas) em janeiro, que pode comprometer o crescimento da economia americana. Enquanto a instabilidade durar, o caixa continuará sendo direcionado ao pagamento de dividendos. Convenhamos que esse não é o motivo mais saudável para a distribuição de proventos.
Comentei, em posts anteriores, que o preço corrente da ação é função tanto dos dividendos pagos quanto do crescimento esperado do lucro por ação. Assim, a distribuição de dividendos não pode comprometer operações que impulsionem o resultado da companhia – como, por exemplo, investimentos produtivos ou pagamento de dívidas onerosas – sob pena de prejudicar o desempenho da ação. Nunca podemos nos esquecer de que o ganho total com ações engloba duas parcelas: o retorno com dividendos (o “dividend yield”) e o ganho de capital (preço de venda da ação menos o preço de aquisição). Ambos são importantes. Essa é a regra fundamental. Não é uma moda, é atemporal e independe se a bolsa é altista ou baixista.

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