Um misto de proteção com ações 'baratas'



Com as indicações dadas pelo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, de que vai fazer o que for necessário para preservar o euro, ninguém quer perder a festa quando, e se, for o caso de comemorar. Afinal, assim como as recentes declarações serviram para embalar um rali na bolsa no fim de julho, a primeira semana de agosto pode ser decisiva para o comportamento dos mercados no curto prazo, já que é carregada de indicadores econômicos e reuniões políticas, como a do BCE marcada para hoje.
É esse o pano de fundo que permeia as indicações para a Carteira Valor de agosto. Um misto de proteção com papéis mais agressivos. "Continua a expectativa de que algo tem que acontecer, e rapidamente, já que a situação na Europa piorou muito. Mas ainda não há alicerce para acreditar nisso", afirma o chefe da equipe de pesquisa da SLW Corretora, Pedro Galdi. Na incerteza, diz, a opção foi mesclar ações com um perfil mais arriscado - que estão descontadas e podem engatar uma recuperação numa melhora de humor - com papéis considerados defensivos.
No ranking das dez ações mais indicadas para o mês, a liderança ficou dividida entre duas "blue chips" que vêm sofrendo bastante e uma companhia de energia elétrica, cujo principal apelo é a forte geração de caixa, que propicia o pagamento de bons dividendos. Com quatro citações cada uma, são elas as preferenciais (PN, sem voto) classe A da Vale e as PNs de Itaú Unibanco e Cemig.
"Os papéis da Vale caíram muito desde a divulgação dos resultados, o que amplia o espaço para uma recuperação se sair alguma medida na Europa", afirma Galdi. Só em julho, as ações amargaram perda superior a 7%. Para a Octo Investimento, que manteve a indicação de Vale, apesar do resultado fraco do segundo trimestre, os múltiplos continuam convidativos. A queda dos preços no mercado, a baixa alavancagem da empresa e a perspectiva de um retorno com dividendos de 5,5% para 2012 tornam as ações da mineradora atrativas, diz.
A XP Investimentos, que optou por ter exposição em Vale ON, argumenta que os volumes de vendas e embarques da segunda maior mineradora do mundo já deram sinais de melhora nos últimos meses, assim como os preços de minério de ferro na China. Também chama a atenção da corretora o alto volume de dividendos a serem distribuídos em 2012, num percentual que pode alcançar 6%, além dos múltiplos mais atrativos do que pares internacionais. O índice preço/lucro (P/L, que sinaliza o tempo de retorno do investimento) da Vale está em 5,3 vezes para 2012, ante 11 vezes do mercado.
O estrategista da Santander Corretora, Leonardo Milane, continua apostando em ações ligadas à economia interna. Para ele, o mercado vai continuar premiando companhias com maior visibilidade de resultados, mesmo que estejam relativamente mais caras e, coincidentemente, elas estão ligadas à dinâmica doméstica. "Ações de commodities, que estão largadas, com múltiplos baixos, vão continuar sofrendo com o ambiente de crescimento fraco ou recessão nos três principais blocos econômicos", argumenta.
Das cinco indicações da corretora, três entraram para a Carteira Valor de agosto: Itaú Unibanco PN, Pão de Açúcar PN, e Gerdau PN. No caso do Itaú, Milane diz que, além de estar ligado à economia interna, trata-se de uma aposta de que o pico da inadimplência já foi, conforme sinalizaram os últimos dados de crédito do Banco Central e dos balanços dos bancos. E a escolha do Itaú deve-se ao fato de ele ter sofrido mais, por ter uma carteira com peso maior no financiamento de veículos, segmento em que a inadimplência foi mais forte, explica. "Tudo o que quero ver nesse setor é uma reversão das provisões e o Itaú tirar o atraso", afirma.
Do setor financeiro, aparecem as ONs de Banco do Brasil (BB), com duas recomendações. As ações sofreram com todo o segmento, devido à pressão do governo por redução de spreads e ao aumento da inadimplência. Mas, na visão do diretor da Geração Futuro, Wagner Salaverry, o maior desconto histórico em relação aos seus pares e as boas perspectivas de crescimento da carteira de crédito e das operações de seguros e meios de pagamento (Cielo e Elo) sustentam o investimento.
"O BB possui a maior carteira de crédito do setor e com um perfil conservador, dado pelo crédito consignado e para grandes empresas", destaca. Além disso, Salaverry cita a atrativa distribuição de proventos (cerca de 7%).
Pão de Açúcar, que recebeu duas indicações para o portfólio, é o caso da empresa com visibilidade de resultados, citada por Milane, da Santander. Ele destaca ainda que o Pão de Açúcar vai continuar se beneficiando da reestruturação dos ativos imobiliários do grupo, com crescimento de lucro forte. "Esse é um ganho não recorrente que gerou valor para a empresa no segundo trimestre que tende a continuar pelos próximos", destaca o estrategista.
O mesmo vale para Ambev PN, ação que recebeu duas indicações e continua atraindo investidores interessados mais em qualidade do que em preço. "A empresa apresenta forte liderança no mercado nacional de cerveja, crescente viés de consumo interno, consistência nos resultados operacionais e elevada geração de caixa", diz a Octo.
Também entraram na carteira as ações ordinárias da empresa de shoppings BR Malls, com duas recomendações. A aposta, segundo Galdi, da SLW, está centrada nos sinais de recuperação da economia no segundo semestre, com impacto positivo sobre o consumo. "Shopping é um bom veículo para pegar carona no crescimento econômico e uma alternativa ao varejo, que já subiu muito", afirma. A Octo lembra ainda que a BR Malls é a maior empresa integrada de shopping centers do Brasil, presente em todas as cinco regiões com empreendimentos voltados para as diferentes classes sociais, além de administrar e vender espaços em shoppings.
Com três indicações, aparecem as ON da OHL Brasil, companhia que detém concessões rodoviárias nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio, Santa Catarina e Paraná. Para a XP, o setor de concessões rodoviárias é "um excelente veículo para ter exposição em infraestrutura, haja vista a correlação do tráfego pedagiado com o nível de renda e emprego (veículos leves) e atividade industrial (veículos pesados), além da proteção à inflação com reajustes tarifários". A OHL, segundo a corretora, é a empresa mais atrativa do setor, com índice P/L de 12,8 vezes, ante a média de 18,1 vezes.
Além de ter múltiplos mais atraentes do que concorrentes, a Planner acredita que a OHL deve reportar o melhor resultado operacional do setor. A expectativa de aumento do tráfego de veículos pesados no segundo semestre é outro fator, na avaliação da corretora, que deve auxiliar a empresa a ter um crescimento no fluxo consolidado de tráfego pedagiado superior à média do setor.
Cemig, líder em indicações, é uma das ações mais defensivas da carteira, por conta dos dividendos. Além disso, ressalta Galdi, da SLW, a empresa tem para receber cerca de R$ 3,7 bilhões de uma dívida do governo do Estado de Minas, o que poderia servir para a compra de ativos ou ir para o bolso do acionista, na forma de proventos.
Gerdau PN, última a ser incluída na Carteira Valor de agosto graças à indicação da Santander, é a única ação de commodity que vale a pena na visão de Milane. Segundo o estrategista, além de a empresa atuar num setor no país que continua aquecido, o da construção civil, o mercado imobiliário americano, de onde tira de 30% a 40% de sua geração de caixa, chegou ao piso. "Os preços de imóveis e vendas de casas gradualmente vêm apresentando melhora e o ideal e comprar no piso", diz. Além disso, a Gerdau deve fazer dinheiro com a venda de ativos de mineração.

PARCEIROS E COLABORADORES UTILIZAM:

.