Metamorfose ambulante


Valor Economico


“Prefiro ser essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. A letra de Raul Seixas nos lembra da necessidade de sermos flexíveis. Mas os controladores das companhias brasileiras estão exagerando. Empresas abertas recentemente são retiradas do mercado ou cindidas e reestruturações societárias que acabaram de ser finalizadas são revistas. Essas alterações de curso em um período tão curto trazem insegurança aos investidores e podem afugentá-los.

A bolsa brasileira hoje é um investimento para uma minoria. De acordo com estimativas de algumas corretoras, existem em torno de 140 mil investidores individuais ativos na BM&FBovespa. Esse número representa 0,6% dos 25 milhões de pessoas que entregaram a declaração anual do imposto de renda em 2012. Número ínfimo. Com a queda dos juros, essa opção de investimento deve se tornar mais atraente. Formar esse investidor é fundamental. Essa tarefa cabe às corretoras, à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), à BM&FBovespa, à imprensa e às empresas.
Abrir o capital é uma das decisões mais relevantes de uma companhia. Ao acessar o mercado, a empresa recebe recursos que serão fundamentais para sua estratégia. O destino dos recursos pode ser o mais diverso: investimentos orgânicos, redução do endividamento, aquisição de companhias. Por outro lado, a empresa assume obrigações junto aos novos sócios como, por exemplo, a distribuição de dividendos. Para o investidor neófito, além da rentabilidade, a simplicidade da aplicação é fundamental. Operações societárias complexas não contribuem para esse processo.
Contudo temos sido bombardeados por notícias de alterações societárias de companhias que recentemente vieram à bolsa ou de novas operações após um curto intervalo de tempo da finalização de uma atividade anterior. Exemplos não faltam:
(i) O Itaú propôs o fechamento de capital da empresa de cartões Redecard (RDCD3), cujo IPO (sigla de abertura de capital em inglês) ocorreu em julho de 2007;
(ii) Após um ano da união das atividades de telefonia móvel da Vivo com a de telefonia fixa da Telefônica, surgem rumores de que a companhia pode fazer uma consolidação de seus ativos latino-americanos, impedindo que suas ações (VIVT4) negociem com base em seus fundamentos;
(iii) Em 2009, a Vivendi, grupo de mídia francês, travou briga com a mesma Telefônica pelo controle da empresa de telefonia GVT. Após retirá-la do mercado, surgiram notícias, na semana passada, de que a Vivendi pretende vender o controle da companhia ou trazer de volta a GVT à bolsa com uma oferta pública inicial de ações;
(iv) As empresas de Eike Batista são campeãs nessas operações. O porto LLX (LLXL3) foi cindido em outubro de 2010, dando origem a PortX (PRTX3),  a fim de ser incorporada por outra empresa do grupo, a mineradora MMX (MMXM3). Agora, o controlador propôs o fechamento de capital da LLX. Embora desmentido, o mercado especulou ainda a possibilidade de o estaleiro OSX (OSXB3) também sair do mercado.
(v) A empresa carbonífera CCX (CCXC3) é oriunda da cisão da empresa de energia MPX (MPXE3) do grupo de Eike Batista, cujo IPO ocorreu em dezembro de 2007.
É verdade que a administração das companhias tem a obrigação de buscar a melhor estratégia de crescimento. Algumas têm sido bem sucedidas. A Cosan atual possui uma tese de investimento distinta daquela que veio a mercado em 2005. A companhia adicionou a sua atividade primária - a moagem de cana de açúcar – a distribuição de combustíveis e a de gás natural. Além disso, operações societárias impediram o naufrágio de companhias abertas em dificuldades como foram os casos das construtoras Tenda, Abyara e Klabin Segall, da empresa de papel e celulose Aracruz e da de alimentos Sadia.
Contudo, apesar de as operações terem sido benéficas no caso da Cosan e profiláticas nas demais situações, atividades societárias devem ser implantadas com parcimônia. Elas causam incerteza e insegurança, podendo prejudicar o desempenho das ações. O investidor – pessoa física e institucional - fica com receio de “dormir com uma ação e acordar com outra ou outras” com teses de investimento completamente distintas.
Esse cuidado deve partir das companhias. Os órgãos reguladores ou o judiciário não podem interferir nessas operações que são legais, além de não poderem sustar a autonomia das sociedades. A bolsa de valores como fonte de financiamento prescinde do investidor em geral. O aplicador pessoa física tende a se assustar mais com essas operações dado o seu menor grau de conhecimento. Atrair esse tipo de acionista é tarefa de todos os participantes do mercado, inclusive das próprias companhias.

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