Madoff também venderia a torre Eiffell



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Bernard Madoff, condenado a 150 anos de prisão, é a grande estrela do time de golpistas retratados no livro
O uso de eufemismos para práticas ilícitas como "dinheiro não contabilizado", tão em moda com o julgamento do mensalão, não é privilégio brasileiro. O que dizer de "padrões de comportamento financeiro não sustentável"? É dessa forma que a última edição de "Da Euforia ao Pânico", clássico do professor e historiador de finanças americano Charles P. Kindleberger (1910-2003), define genericamente o conceito de correntes, bolhas e esquemas de pirâmide - em resumo, as trapaças. O tema, porém, não se esconde em meias palavras no livro do ex-banqueiro e financista finlandês Kari Nars, "Golpes Bilionário$", que traz uma lista de famosos na arte de enganar os outros. O texto, de 2009, foi escrito um ano após a prisão de Bernard Madoff, sentenciado a 150 anos de cadeia por arruinar a vida de muita gente. Bernie, como era conhecido pelos chiques de Manhattan, é, sem dúvida, a grande estrela do time de golpistas retratados no livro, que inclui ainda o checo Victor Lustig, ou conde Von Lustig (1890-1947), que não só vendeu a torre Eiffel a um negociante de ferro velho parisiense como enganou ninguém menos que o gângster Al Capone.
O livro tem credenciais para entreter. Essa parece ser a intenção de Nars, já que alerta de início que deixou de fora os intricados caminhos de casos mais complicados, como, por exemplo, a negociação de derivativos feita por Nick Leeson (hoje CEO de um time de futebol), que quebrou o Baring Banks na Inglaterra, em 1995, além de outros. Nars escolheu dez fraudes, e, como em toda lista, sempre deixa alguém de fora. Por exemplo, o português Artur Virgilio Alves Reis, retratado no livro do jornalista americano Murray T. Bloom, "O Homem que Roubou Portugal", da Zahar. Em 1925, Alves Reis falsificou dinheiro e produziu um rombo que hoje equivaleria a US$ 350 bilhões. Figuras essenciais, como Carlo Ponzi, o mentor do sistema de pirâmides, no entanto, estão presentes.
Autores, como Kindleberger, afirmam que as trapaças aumentam em períodos de boom econômico porque a ganância parece crescer mais que a riqueza. O livro de Nars complementa esse pensamento com outro, do também acadêmico e economista John Kenneth Galbraith (1908-2006), para quem "as recessões pegam o que os auditores deixam escapar". Sábias palavras. Mesmo com o lançamento tardio em português, "Golpes Bilionário$" acaba refletindo o espírito deste início de século XXI, em que a economia capitalista precisa se reinventar a cada débâcle financeira, e o ambiente anda péssimo para os bancos.
Grandes instituições vivem momentos de saia justa. O HSBC precisou fazer provisões de US$ 2 bilhões para pagamento de multas e compensações depois de ser acusado de facilitar a lavagem de dinheiro nos Estados Unidos e no México - além do vexame de vir a público pedir desculpas. O britânico Barclays envolveu-se no escândalo de manipulação da taxa Libor - referência para transações financeiras - abalando a credibilidade de um pilar do mercado. Tais escândalos prejudicam a moral dos bancos e podem gerar prejuízos bilionários, como revelou pesquisa publicada na edição de julho da "American Banker Magazine", feita pelo Instituto Gallup. Os números mostram que houve uma queda de 53% para 21%, entre 2005 e 2012, no grau de confiança dos americanos nos bancos do país - um recorde histórico.
E, como mostra o livro de Nars, confiança (ou a sua quebra) é a raiz de todas as fraudes financeiras. Nos capítulos iniciais, que antecedem o relato dos dez golpes listados, o autor procura mostrar, com algum didatismo, não só os mecanismos das fraudes, mas também os processos mentais e os métodos de ação dos criminosos. Um be-a-bá de como ficar esperto na hora que alguém oferece uma forma fácil de ficar rico.
Não há inocentes nesse universo. Por sinal, como bem analisa o autor, as vítimas, em geral, têm grande tolerância ao risco e, quase sempre, acreditam que estão enganando o golpista. É claro que tudo fica mais difícil de perceber quando há uma fachada corporativa, caso da Enron, no começo da década, e do próprio Madoff, que tinha uma corretora - em geral com nomes pomposos.
O perfil dos fraudadores é de fazer babar os "head hunters" mais preocupados com títulos e boas escolas. Nars prefere buscar no "Tratado sobre a Natureza Humana", do inglês John Locke (1632-1704), a motivação criminosa desse pessoal: "Não é o que as pessoas têm que as impulsiona, mas o que lhes falta". Nesse aspecto, o autor pega leve com as mulheres. Ele as considera menos propensas ao crime e atribui isso ao fato de serem naturalmente mais cautelosas. Em outros argumentos da defesa feminina ele se equilibra no fio da navalha. Afirma que as mulheres não idolatram o dinheiro tão ardentemente quanto os homens. E, como gostam de perguntar e falam muito, afugentam os golpistas.
Não há final feliz nessa história, apesar de fatos curiosos. Carlo Ponzi, o pioneiro das pirâmides, veio para o Brasil e aqui morreu, em janeiro de 1949, no Rio de Janeiro. O estrago provocado por Madoff é maior do que os US$ 17 bilhões de perdas. Houve até suicídios, como o do aristocrata francês René-Thierry Magon de La Villehucher, e a morte do filho Mark, também corretor, em 2010, com fortes indícios de ter se suicidado.
A lição que fica, segundo Nars, é que os fraudadores não partilham desse sentimento de culpa das vítimas, porque acreditam que são inocentes. Por isso, afirma que o importante é desconfiar do que parece ser bom demais para ser verdade. Afinal, em qualquer fraude financeira, o dinheiro não desaparece - apenas muda de bolso.

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