"Executivos têm visão imediatista"


Por Marcos de Moura e Souza | De Belo Horizonte

Rafael Motta/Nitro / Rafael Motta/Nitro
Para Almeida, "falta uma cultura empresarial voltada para ganhos constantes"
Durante 35 anos, o economista mineiro Emerson de Almeida esteve à frente da Fundação Dom Cabral, uma das escolas de negócios de mais prestígio no Brasil no mundo e que ajudou a fundar. Os cursos começaram em 1976 na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, em Belo Horizonte, de forma improvisada: sem salas próprias, recursos ou uma equipe exclusiva de professores. Três décadas depois, a Dom Cabral passou a figurar no ranking das melhores escolas de educação executiva do jornal britânico "Financial Times" e é a mais bem colocada do ramo em toda a América Latina.
Almeida deixou a presidência-executiva da instituição em abril - passando a ocupar a presidência da diretoria estatutária, que equivale ao conselho de administração - com um currículo de quem ajudou a fazer a cabeça de uma parte da elite de executivos e empresários no país. Segundo ele, cerca de 200 mil pessoas passaram pela escola, entre elas o presidente do grupo Fiat no Brasil, Cledorvino Belini; Guilherme Leal e Pedro Passos, dois dos três donos da Natura; Luiz Fernando Furlan, da Sadia, entre muitos outros de renome.
Almeida recebeu o Valor em seu escritório, em Belo Horizonte, para falar de sua visão calejada em relação ao empresariado brasileiro. Na entrevista, critica o comportamento de muitos executivos que, para ele, gastam tempo demais reclamando do custo Brasil em vez de agirem para que suas companhias lidem melhor com a concorrência internacional. Além disso, diz que as escolas têm influência limitada sobre as organizações. A seguir os principais trechos:
Valor: Como as escolas de negócios ajudaram a preparar executivos para lidar com a concorrência dos países asiáticos?
Emerson de Almeida: Não ajudaram muito, pois isso é difícil de prever e de se antecipar. Além disso, o poder de influência dessas instituições é muito menor do que se imagina. Uma escola de negócios pega o executivo já formado e trabalha com ele durante um ou dois anos, em alguns casos apenas durante semanas. É um tempo muito curto para influenciar as empresas de forma mais significativa.
Valor: Está nas mãos só do governo ajudar as empresas a enfrentar a concorrência chinesa?
Almeida: Está mais nas mãos dos próprios empresários. Eles precisam investir para aumentar a produtividade e a capacidade de competir. Isso daria à empresa brasileira melhores condições para enfrentar essas economias que estão entrando com força no mercado nacional. Eu diria que apenas 50% tem a ver com ambiente institucional do país, incluindo infraestrutura. Hoje, porém, 90% da energia dos empresários está voltada para as queixas contra o custo Brasil. Seria melhor usar parte desse tempo e esforço dentro da empresa. Eu falo com convicção, tenho 35 anos de experiência.
Valor: Então por que os executivos cobram tanto o governo?
Almeida: A nossa cultura, que vem de Portugal, é de muita dependência em relação ao Estado. Por um lado, o empresário quer que o Estado interfira o mínimo possível. Por outro, quer que ele faça tudo para que sua empresa e seu setor sejam mais competitivos. Além disso, os executivos possuem uma visão excessivamente imediatista, e não de longo prazo. Falta uma cultura empresarial voltada para ganhos constantes, mas progressivos. É preciso paciência e persistência. O empresário quer plantar couve, que pode colher em três meses, e não carvalho, que leva anos para se desenvolver. Não estou dizendo que é preciso esperar 10 ou 20 anos, mas é preciso ter em mente que não é possível "chegar lá" já no segundo mês.
Valor: Houve mudanças significativas no ensino nas escolas de negócios depois da crise de 2008?
Almeida: Ainda há uma grande discussão em nível mundial sobre o papel das escolas e sobre a responsabilidade delas em relação à crise. Muitos acham que elas são culpadas por terem formado alunos com uma visão de curto prazo e foco apenas em ganhar dinheiro. Houve mudanças no sentido de incluir nos currículos uma ideia mais ampla do papel da empresa na sociedade, além de discussões do ponto de vista ético, do comportamento dos executivos e das empresas.
Valor: Mas o senhor concorda que as escolas tiveram uma parcela de culpa em relação à crise?
Almeida: Sim e não. Por um lado, o aumento da competição fez com que as escolas de negócios passassem a dar muita ênfase no quanto de dinheiro os formandos poderiam ganhar. Por outro, os executivos já chegam com uma mentalidade definida, que é muito difícil de ser mudada.
Valor: O que um executivo jovem, que caminha para ocupar cargos de liderança, deve ter?
Almeida: Ele deve ter integridade, cultivar valores com raízes mais profundas e evitar essa procura desenfreada pelo sucesso e pela riqueza rápida. É preciso sempre agir com ética com as pessoas e com as empresas, assim como cumprir as obrigações perante a sociedade.
Valor: O senhor diria que muitos executivos consideram aceitável corromper órgãos ou agentes do poder público para abrir caminho para seus negócios?
Almeida: Sempre é muito difícil generalizar. Conheci muitos empresários e executivos genuinamente preocupados em desenvolver um comportamento mais ético no meio em que atuavam. Mas, ao mesmo tempo, percebemos também que o chamado pragmatismo ainda é muito forte. A ideia de que "já que o jogo é esse..."

.

.